Jornal Diário da Manhã , sexta-feira 9 de dezembro de 1983
Em São Paulo, quatro em cada dez pessoas já foram vítimas de assaltos, uma ou mais vezes, segundo pesquisa divulgada esta semana. A violência urbana, que passou a ser a preocupação principal de nada menos de 70% das pessoas entrevistadas, é correntemente atribuída à crise econômica, à recessão, ao desemprego.
Embora esses fatores certamente estejam em cena, é evidente que a explicação é superficial: a violência em São Paulo é fruto de uma série de circunstâncias, entre as quais há uma predominante: São Paulo colhe a sua “safra” de trombadinhas, resultante da semeadura de miséria e desagregação social ocorrida em meados da década de 60 e início da década de 70, isto é, de 1965 a 1973. Nessa fase, com a erradicação dos cafezais e a crise na agricultura, milhões de pessoas procuraram a região metropolitana, criando-se incríveis legiões de marginalizados, a viver em condições subumanas.
Na época, costumava-se aferir as dantescas condições de vida desses milhões de párias através das estatísticas recordes de mortalidade infantil. Hoje, pode-se aferir as dantescas condições de vida desses milhões de párias através das estatísticas recordes de violência. A miséria, a fome, a doença, a morte de irmãos, o embrutecimento dos pais, a prostituição das mães, os lares sem carinho, a luta pela vida nas ruas moldaram uma geração desesperada para a qual, compreensivelmente, valores como respeito à vida, não-violência, respeito para com o ser humano não passam de abstrações – pelo fato puro e simples de que, na sua infância, na sua adolescência e na sua juventude nada disso existiu, em relação a eles próprios.
Criados em meio à brutalidade, à violência, ao desrespeito para com suas necessidades materiais e emocionais de crianças, de adolescentes, de jovens, os “trombadinhas” e assaltantes de hoje, gerados nos albores e no auge do “milagre”, não poderiam ser senão o que são – explicando-se, por aí, as crescentes manifestações de sadismo contra pessoas, o desrespeito para com a vida humana, que têm marcado os assaltos, antes limitados a objetivos materiais.
O que tudo isso tem a ver com Goiás? No penúltimo domingo, o DIÁRIO DA MANHÃ publicou uma das mais dramáticas e alertadoras reportagens divulgadas pela imprensa nos últimos tempos. Segundo estatísticas da polícia, já existem hoje, em Goiânia, mais de 5.000 menores de idade fichados como delinqüentes, pela prática de crimes diversos. O número é estarrecedor – e ele é apenas o começo de um fenômeno que atingirá cruelmente a sociedade goiana, em escala crescente daqui para a frente – se nada for feito pela sociedade.
É preciso lembrar que, diferentemente do Centro-Sul, foi somente nos último anos que cresceram, em Goiás, os conflitos de terras, a expulsão de lavradores rumo às cidades, o “inchaço urbano”, a formação de imensas populações marginalizadas na periferia da capital e das cidades médias do interior. Por isso, os 5.000 fichados pela polícia são apenas o começo da “safra” goiana de trombadinhas e assaltantes. Eles vão sofrer incrível multiplicação, daqui para a frente – se nada for feito pela sociedade, repita-se.
Em Goiânia, como em São Paulo ou no Rio, a sociedade fica à espera de que o governo resolva o problema. “A questão social é gigantesca demais para ser enfrentada através de esforços individuais, ou de entidades da sociedade civil”, afirma-se. “É para isso que o governo arrecada impostos”, raciocina-se. “A culpa é do modelo econômico ou do sistema”, alega-se. Todos esses argumentos, aparentemente corretos, tentam ignorar a realidade: os desamparados, os marginalizados existem e não vão virar revolucionários, como muitos gostariam, mas tentar cobrar, a sociedade, o que a sociedade lhes negou e lhes nega.
As máquinas do governo, qualquer que seja o partido dominante, não conseguirão evitar o desastre que se avizinha. Programas de longo prazo poderão resolver a questão, mas também a longo prazo – e os trombadinhas e assaltantes de amanhã estão sendo plasmados hoje. A curto prazo, para cada menor “internado” em instituições tipo Febem, com resultados discutíveis, haverá milhares de menores desassistidos, humilhados, assassinados por dentro – e que por isso também estarão dispostos a matar e roubar.
A sociedade goiana e, dentro dela, as classes melhor aquinhoadas em termos de renda, devem despertar para o problema e descobrir formas de ação para minorar o problema social. Que existem.