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  Assim, é fácil lucrar...

Jornal Diário Popular , segunda-feira 20 de março de 2000


Houve grande estardalhaço na imprensa em torno do lucro de R$ 1,25 bilhão obtido pela Vale do Rio Doce. A ex-estatal publicou anúncios de página inteira nos jornais, alardeando ‘‘novos recordes’’. Como esta coluna demonstrou ontem, as afirmações são mentirosas. Basta analisar o balanço da empresa para comprovar que as exportações, a produção de minérios, a movimentação de cargas nas ferrovias, portos e navios da Vale, tudo isso recuou.

Os lucros, na verdade, têm uma explicação básica: a máxi-desvalorização do real no começo do ano passado, que automaticamente aumentou as exportações (mesmo menores). Há outros pontos no balanço que merecem ser analisados, pois desmascaram outras mentiras do governo sobre as ‘‘vantagens’’ de doar, a grupos ‘‘amigos’’, nacionais e multinacionais, empresas que pertencem à sociedade brasileira: Programas sociais — A ‘‘preocupação social’’, representada por programas e projetos de apoio à população das regiões exploradas pela Vale, é um blefe. A empresa gastou R$ 16 milhões, ou 1,2% do seu lucro operacional, em ‘‘investimentos em cidadania’’. Dessa fatia, 0,1% foi destinado ao apoio a ‘‘população indígenas’’. Quanta generosidade...

Meio ambiente — Na época em que era estatal, a Vale sempre figurou como uma das empresas pioneiras e mais atuantes na aplicação de políticas de proteção ao meio ambiente, antes mesmo delas ficarem ‘‘na moda’’. Em 1999, a Vale gastou ridículos R$ 19 milhões nessa área, ou 1,3% do lucro operacional. Atenção ao detalhe: desses 1,3%, nada menos de 1,2% correspondeu a gastos ‘‘operacionais’’, isto é, exigidos pela própria atividade da empresa. Apenas 0,1% foi aplicado espontaneamente, como política ambiental.

Especulação — Do lucro da Vale, nada menos de R$ 360 milhões foram obtidos com operações de ‘‘hedge’’, isto é, empresa ‘‘previu’’ que o real ia cair, e ‘‘comprou’’ dólares (na verdade, contratos para pagamento futuro) esperando a maxi-desvalorização, que afinal veio em janeiro. Empréstimos — A Vale do Rio Doce devia o equivalente a R$ 2,4 bilhões em dezembro do ano passado, segundo o balanço, em empréstimos externos. Desses empréstimos, R$ 1,05 bilhão foi concedido porque o Tesouro Nacional foi o avalista (o que desmente totalmente aquela história de que o Tesouro e as estatais não conseguiam levantar recursos para investir... O Tesouro, o povo brasileiro, é o avalista dos grupos que estão ganhando as estatais).

Desmonte — Os pretensos donos da Vale, além disso, procuraram fazer caixa vendendo sua participação, a um grupo multinacional, no capital da Alunorte, produtora de alumínio estrategicamente situada na Amazônia (com maior proximidade dos mercados dos países ricos, o que significa fretes menores no transporte e portanto maior capacidade de competição com países concorrentes). Valor recebido: R$ 170 milhões. Outros macetes engordaram os lucros da Vale às custas de todo o povo — como se verá amanhã.

Os lucros foram obtidos pela desvalorização do real.



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