Jornal Folha de S.Paulo , domingo 6 de outubro de 1996
O presidente da República ofereceu um jantar, em palácio, a líderes da agricultura. Programado para discutir os problemas de milhões de agricultores, o encontro foi de uma "cordialidade encantadora’’, segundo o presidente de uma entidade nacional do setor.
Reiterando a intenção de apoiar os agricultores, o presidente FHC repetiu as explicações de que, infelizmente, as decisões tomadas pelo governo às vezes encontram barreiras na "ponta da linha’’, isto é, não são cumpridas por órgãos e funcionários subalternos, como gerentes do Banco do Brasil.
Estão mentindo ao presidente (e injustiçando os gerentes, no caso do BB). O "arrocho’’ no crédito agrícola é uma decisão da própria equipe econômica, que, como já fez em 1995, está fornecendo cifras e versões mentirosas ao presidente da República. Nem o BB, nem os bancos privados, nem os "emprestadores externos’’ estão fornecendo crédito suficiente para o plantio. Pode-se comprovar.
Banco do Brasil - As agências do BB estão recebendo ordem para obedecerem a limites, fixados em Brasília, para a concessão dos empréstimos. Fixa-se, por exemplo, a área máxima (em hectares) total a ser plantada (financiada) em determinado município. E, essa a verdade, são áreas menores do que em 95 _que já haviam sofrido recuo.
Bancos privados - O governo exige, via normas do Banco Central, que uma parte do dinheiro que o brasileiro deixa nos bancos seja obrigatoriamente utilizada em empréstimos à agricultura. São os depósitos à vista (18% do seu valor), dinheiro "grátis’’ para os bancos, que não pagam um tostão de juros aos seus donos (empresários, agricultores, classe média e povão). Os bancos estão conseguindo fugir a essa obrigação. Como? Passaram a transferir, automaticamente, o dinheiro da conta dos clientes para os fundos de curto prazo que administram. A equipe econômica conhece a manobra, pois tudo é feito às escâncaras, noticiado nos jornais. A equipe é conivente. Bastaria elevar o percentual (de 18%) dos depósitos à vista, destinado à agricultura, para compensar o desvio.
Cumplicidade - A equipe não apenas tolera manobras, como montou um esquema para reduzir o crédito agrícola. Bancos privados e BB foram "autorizados’’, sub-repticiamente, a reduzir seus empréstimos, com a permissão para que subtraiam, do valor "obrigatório’’, o total das dívidas antigas renegociadas dentro do acordo de "securitização’’. Atenção: é menos dinheiro para todos os agricultores, e não apenas para aqueles que renegociaram.
A balela - Outra mentira contada a FHC: "empréstimos externos’’, para repasse à agricultura, compensariam o "arrocho’’ no BB. Em 1995, a equipe anunciou que eles chegariam a US$ 5 bilhões. Depois, a previsão foi para US$ 2 bilhões. Mal vieram US$ 500 milhões.
Negar dinheiro para o plantio é um dos equívocos mais monumentais que qualquer governo poderia cometer no Brasil neste ano de 1996. Com os altos preços atuais no mercado mundial, grandes safras resolveriam _essa a verdade a ser dita_ uma série de problemas que emperram a economia.
Os agricultores poderiam pagar suas dívidas ao BB e bancos estaduais. Governos estaduais e prefeituras aumentariam sua arrecadação, graças ao aumento dos negócios no interior resultante do aumento da renda agrícola. Vale dizer: grandes safras reduziriam "rombos’’ de bancos estatais, Estados, municípios _e a necessidade de socorro, que traz mais déficit ao Tesouro. A equipe econômica não enxerga isso? Jantares "cordiais’’ em palácio raramente são a melhor forma de discutir problemas e dizer a verdade.