Jornal Opinião , sexta-feira 8 de novembro de 1974
Fazer o PIB crescer não é tão difícil quanto pensa o público em geral. Para calcular quanto a economia de um país está crescendo em determinado ano, os técnicos se valem de fórmulas de confiabilidade equivalente às adotadas em relação ao custo de vida ou os salários. No cálculo, leva-se em conta, por exemplo, em uma explicação simplificada, o crescimento do valor da produção da indústria, da agricultura e do chamado setor terciário (comércio, bancos, e outros serviços, etc). Soma-se o crescimento de cada um desses setores da economia e divide-se por três, para obter a “média” que — o que é importante – não é obtida diretamente e sim por “ponderações”. Ou mais claramente:
Suponha-se que o valor da produção agrícola no Brasil seja de 100, o da indústria seja de 200 e o do setor terciário seja de 100. Se o valor da produção da indústria é o dobro do valor agrícola ou do setor terciário, pode-se concluir — segundo as fórmulas – que a importância, isto é, o “peso” da indústria na economia é igual ao dobro da importância, isto é, do “peso”, da agricultura ou do setor terciário dentro da economia.
Dentro do setor industrial, por sua vez, pode descobrir que o valor da produção do setor automobilístico é igual a 50, isto é, a metade do valor da produção (100) de toda a indústria. Ou em outras palavras, se todos os subsetores industriais reunidos tiverem um peso total de 10, a indústria automobilística sozinha terá um peso de 5 no valor de sua produção.
Qual a importância desses pesos? Sempre num raciocínio simplificado o seu resultado sobre o PIB é este:
O crescimento do PIB não é calculado com base no aumento das quantidades produzidas, mas no setor. Mais claramente: um país pode produzir 100 carros em um ano, e 100 carros no ano seguinte. Mesmo assim o “PIB do setor” (simplificadamente) poderá ter crescido. Como? Suponha-se que o país produza 100 carros da linha “popular”, na faixa dos Cr$ 20 mil, com um “PIB do setor” igual a Cr$ 2 milhões (100 x Cr$ 20 mil). No ano seguinte, esse país pode produzir os mesmos 100 carros, porém ofertando 80 carros populares, na faixa dos Cr$ 20 mil (valor total Cr$ 1,6 milhão) e 20 carros de luxo, na linha dos Cr$ 40 mil (valor total de Cr$ 800 mil). Ainda que produzindo o mesmo carro, o valor da produção do setor, isto é, o “PIB do setor” crescerá de Cr$ 2,0 milhões para Cr$ 2,4 milhões, com 20% de avanço (1).
Para apurar o crescimento do PIB de um país, calcula-se primeiro o crescimento médio de cada um dos setores: indústria, agricultura e ser¬viços. Levando-se em conta o “peso” de cada um dos subsetores. Numa segunda etapa chega-se ao PIB, através de cálculos que também levam em conta o “peso” de cada um desses setores: se a indústria tem o “dobro” do peso da agricultura e serviços, isto significa que ela tem peso 5 contra um peso 2 para a agricultura e 2,5 para serviços.
Na prática como isso funcionaria? Veja-se a diferença entre um PIB calculado de acordo com uma média “simples” e (simplesmente) e uma média “ponderada”. No caso de um crescimento de 10% para a indústria, 5% para a agricultura e 5% para o comércio, a média “simples” resulta da soma dos três com um total de 20%, dividido por três ou 6,6%. Na média “ponderada”, cada um daqueles índices seria multiplicado pelos pesos respectivos, obtendo-se 50% (indús¬tria), 12,5% (agricultura) e 12,5% (ser¬viços), com uma soma total de 75%: esse total dividido por 10 (soma dos pesos: 5 — 2,5 — 2,5) chega a um resultado de 7,5%.
O maior peso para a indústria (ou outro setor), assim, pode “inchar” o PIB. E é bom lembrar que a distorção já existe no cálculo do PIB no próprio subsetor industrial quando a indústria automobilística tem por exemplo, um peso maior que os demais subsetores.
Em 1968/69, a Fundação Getúlio Vargas reviu os "pesos" que os sub¬setores industriais tinham dentro do cálculo do PIB do setor industrial, baseada na justificativa de que a importância, isto é, o peso da indústria automobilística crescera dentro da economia, enquanto o peso de outros setores se reduzira (e por isso foi dado menor peso a eles) e isso altera substancialmente os seus cálculos desde então.
Qual o significado de toda essa flexibilidade no cálculo do PIB? Ainda que a economia mundial enfrente realmente uma fase crítica, de tran¬sição, no presente o barulho que os “profetas do caos” fazem em torno da queda do crescimento do PIB nos países industrializados é barulheira sem sentido que só dificulta as análises. No resto do mundo, como no Brasil, a indústria automobilística enfrenta uma crise, por força do preço do combustível, isto não significa que a queda no PIB, daí decorrente, signifique que o mundo caminha para uma recessão. É preciso ver antes que está acontecendo nas indústrias de base, ou ainda concluiria um ob¬servador irônico bastaria reajustar os “pesos” do cada setor no cálculo do PIB para que o mundo parecesse rosa. Novamente.
1) Em artigo publicado em Opinião, o economista Celso Furtado já mostrara como uma política concentradora de renda pode provocar esse “crescimento artificial” do PIB. À medida em que o país produz mais carros, mais tecidos, mais móveis, mais eletrodomésticos de luxo para as classes de renda alta o valor do PIB cresce mais rapidamente (porque o preço desses bens é mais elevado) do que o crescimento da produção.