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  O dólar perde o trono

Jornal Diário Popular , quarta-feira 7 de junho de 2000


A economia tem seus ‘‘mistérios’’. Você presenciou, durante os últimos meses, uma alta incessante do dólar nos mercados mundiais, enquanto o euro, a moeda única dos países da União Européia, caía sem parar. Se você pensou que isso era um fenômeno ‘‘humilhante’’ para os países europeus e imensa vantagem para os EUA, errou redondamente. Qual o mistério? Com o euro muito barato, a Europa aumentou maciçamente suas exportações, enquanto os EUA, com o dólar valorizado, ou ‘‘caro’’, enfrentavam uma enxurrada de importações (pois as mercadorias estrangeiras ficavam ‘‘baratas’’), e não ampliava as vendas ao Exterior no mesmo ritmo. Resultado: em 12 meses, o ‘‘rombo’’ da balança comercial dos EUA (exportações menos importações) passou dos US$ 300 bilhões, enquanto a União Européia, em conjunto, acumulava um saldo positivo na faixa dos US$ 200 bilhões anuais.

Em outras palavras, o euro desvalorizado não foi nenhuma vergonha e, sim, uma forma de os países europeus exportarem, acelerarem o crescimento de sua economia, reduzirem o desemprego. E, acima de tudo, foi um caminho para eles acumularem dólares, graças aos resultados favoráveis do comércio exterior, e usá-los para as suas multinacionais comprarem empresas e ampliarem negócios no mundo — como você pode comprovar facilmente, bastando lembrar as empresas espanholas, italianas, portuguesas, francesas que invadiram a economia brasileira. A desvalorização do euro e a conseqüente valorização do dólar, assim, pode ser interpretada até como uma estratégia da Europa para aumentar seu poderio econômico (e, portanto, político) no cenário mundial, forçando os EUA a repartirem a liderança absoluta que vinham desempenhando há décadas.

Para você não pensar que a hipótese é absurda: ainda há coisa de três meses, como esta coluna registrou na época, o governo Clinton chegou a protestar oficialmente, junto à União Européia, acusando os bancos centrais dos países da região de nada fazerem, ou estarem mesmo contribuindo para a queda do euro. O que vai acontecer daqui para a frente? A maioria esmagadora dos analistas econômicos está ‘‘comendo mosca’’, prevendo uma fase de problemas na economia mundial exclusivamente por causa das quedas nas Bolsas de Valores dos EUA. Na verdade, o problema maior para os negócios internacionais, nestes próximos meses, deverá ser a violenta queda do dólar nos mercados mundiais — recuo que, a esta altura, já não afeta tanto os interesses da Europa, após o avanço na surdina que ela obteve nos últimos anos. Os EUA terão de aceitar a desvalorização, para reduzir o ‘‘rombo’’ fantástico da balança comercial. O dólar, desvalorizado, deixará de ser a moeda de aceitação por todos os países do mundo, como vinha ocorrendo há décadas. Terá de repartir o trono com o euro, o que reforçará o nascente poderio da Europa.



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