Livro Perfis de Jornalistas, 1999
Nos tempos do milagre, o ministro Delfim Netto pedia aos patrões a cabeça de Aloysio Biondi. Quando os tempos estavam para mudar, em 84, foi a vez de economistas ligados à professora Maria da Conceição Tavares pedirem a Otávio Frias sua demissão da função de editor de Economia da Folha, segundo Biondi relata.
No fim do governo Figueiredo, era considerado antidemocrático dizer que a situação poderia melhorar, pois, alegava-se, isso beneficiaria a política econômica de Delfim, Biondi escreveu um artigo dizendo que a economia americana estava se recuperando desde o ano anterior. O que seria bom para os produtos brasileiros.
Nesse meio-tempo, os economistas do PMDB estavam dizendo que não tinha mais jeito, que viria uma crise sem precedentes. Um eventual saldo positivo na balança comercial seria devido à queda nas importações e não ao aumento das exportações.
Biondi reclama que seus antigos aliados de resistência à ditadura, quando ocorreu a distensão, iam ao patrão pedir sua cabeça, falar que ele estava louco e tinha sido cooptado.
Márcio Venciguerra – Na sua carreira registram-se brigas famosas com a Conceição Tavares. Você tem uma certa birra contra os acadêmicos?
Aloysio Biondi – Contra os acadêmicos, não. Na época em que eu brigava com o Delfim Netto, eu estava de pleno acordo com Beluzzo, com João Manuel. Meus pontos de vista coincidiam com os dos economistas do PMDB. Mas é como própria Conceição disse num congresso de economistas: os brasileiros deviam deixar de ser academicamente preguiçosos e se debruçar sobre a realidade. Baseiam-se em chavões, em posições ideológicas.
Na época do “milagre econômico”, os economistas diziam que o Brasil não estava crescendo. Levaram muito tempo para descobrir que o problema não era negar o crescimento econômico, o problema era mostrar que havia uma série de distorções a longo prazo, como o crescimento da dívida externa, a concentração de renda. Mas, a todo momento, eles negavam pura e simplesmente o próprio crescimento da economia.
Houve uma fase no Brasil, principalmente até 82, em que realmente era muito cômodo você ter alguns chavões de esquerda, pois dava mais ibope ser contra a política econômica do Delfim.
Venciguerra – Onde você militou?
Biondi Eu nunca pertenci a nenhuma agremiação, sempre tive a cabeça independente. Esse é um preço que pago na minha vida. Em 79, quando saiu a política salarial semestral, com aumentos diferenciados em cascata, eu fui a única voz da imprensa a defender a medida. Foi numa página dupla, na IstoÉ. Essa redução de desigualdades a gente sempre defender em tese. Mas aí vem a desculpa: “Estão empobrecendo a classe média, é uma redistribuição só entre os assalariados”.
Na época o Lula escreveu uma sandice num artigo da Folha: os aumentos semestrais eram para esvaziar o movimento sindical. Ora, o movimento sindical que se esvazia mediante o mero suborno da massa não existe. O movimento sindical está aí para conquistas sociais muito mais importantes. Os avanços devem ser considerados uma vitória, e não uma armadilha, o que é uma interpretação besta. Quer dizer que o negócio das lideranças é que o trabalhador passa fome, para ele ser revolucionário? Seria ótimo se as lideranças também passassem fome.
Posso cometer erros de avaliação, mas sempre procurei manter minha posição de independência absoluta diante de cada fato. E pago o preço de ser chamado de comunista pela direita e de cooptado pela esquerda,
Venciguerra – Você sofreu patrulhamento ideológico nas Redações?
Biondi – Eu escrevia no Opinião contra a política do Delfim. Ninguém fazia isso. Eu era bastante conhecido no meio universitário de oposição, uma pessoa que tinha imagem. Aí assume o governo Geisel. O ministro Severo Gomes anunciou em O Globo que iria acabar com o lucro disfarçado das multinacionais, através dos contratos de assistência técnica entre a matriz e a filial. Por exemplo, a Volks brasileira assinava com a matriz um contrato de assistência técnica pagando 4% de cada carro produzido. Isso é um absurdo. Eu pago US$ 50 milhões e pronto: já comprei know-how pela assistência. Naquela época, só para usar a etiqueta Pierre Cardin, você pagava 18% do seu faturamento. Para evitar esse tipo de contrato, o Severo prometia fortalecer o Inpi – Instituto Nacional de Propriedade Industrial.
Isso acontecia quando acabávamos de sair do regime Médici e o Geisel subiu depois de uma grande briga e quase foi derrubado assim que assumiu. Apesar disso, qual era o dogma da época? O dogma era: “Todo militar é igual ao outro. A ditadura continua. Todo ministro do regime militar é tão ditatorial quanto o outro”. Eu escrevi um artigo no Opinião falando que, a partir da entrevista do Severo, havia um sinal de mudança no relacionamento com as multinacionais. Eu quase fui linchado quando voltei para a redação. Pois o Severo, ministro do Geisel, veio a ser descoberto pela esquerda dois anos depois, em 76.
Uns amigos meus, do grupo da Conceição, que lecionavam Economia no Rio e que sabiam que eu escrevia aquilo porque acreditava, me convidaram para ir conversar com as classes. Eu fui. Nunca mais faço isso. Estava todo mundo com a cabeça tão feita, que não adiantava tentar dialogar. Ocorre que, se eu escrever só o que o leitor quer, eu não o informo.
No DCI, o meu pessoal é proibido de escrever sem fundamentar as afirmações. Quando houve o descongelamento, depois do Cruzado, o DCI fez pesquisas de mercado para ver se não estavam exagerando nos preços. O leitor precisa saber que nós fomos investigar e que não estamos dando uma informação abstrata. A gente tem de manter a relação com a realidade, para fazer frente ao bombardeio de informação dirigida, que uma hora é eufórica, outra hora é catastrófica. Se nós sabemos que está sendo passada uma pretensa realidade, é ela que contestamos. Não agimos assim por provocação; não nos interessa provocar ninguém.
É falsa a política que se fez no Brasil nesses últimos anos. Não se trata de malhar sempre um ministro, só porque você não afina com a linha principal dele. Se ele faz uma coisa certa, eu sei que há mil lobbies para que aquilo não dê certo. Vou fortalecer sua posição, porque cada avanço é um avanço.
Venciguerra – Como foi a briga com o pessoal do PMDB? Começou quando eles começaram a virar governo?
Biondi – Em 76, o Beluzzo perguntou por que eu ficava tão incomodado com a inflação. “A inflação é ótima para as empresas capitalizarem”, dizia Beluzzo. No capitalismo, a empresa se apropria, investe e promove a economia. Na visão desse pessoal, o negócio é tirar o país do subdesenvolvimento. Existe aí uma dicotomia entre o discurso de recuperar salários e ter de capitalizar as empresas para elas investirem. Na verdade, de público eles falavam de melhorar a situação dos assalariados, mas intramuros a conversa era capitalizar as empresas. Durante cinco anos eu cutuquei o pessoal do PMDB no Relatório Reservado.
Em 82, eles começaram com aquela história de que era preciso impedir que o parque industrial virasse sucata. Tudo em nome da ideologia do desenvolvimento. Só que eles não diziam que essa era a mesma prioridade do governo militar. A mesmo do bolo crescer para depois dividir. Quando falavam em modernizar a indústria, estavam abandonando a proposta de criar empregos. Voltavam a pensar primeiro no lucro da empresa para poder investir na modernização. Por isso ninguém gosta de mim depois que assumiu o poder. O DCI não conseguiu uma única entrevista exclusiva com o Funaro.
Eu não quero é que a opinião pública seja manipulada. Para não ser dominada nem pelas elites da esquerda, nem pelas elites do Delfim. A democracia se faz quando o nível de informação chega a esse ponto.
Não se falava que o governo Montoro tinha um monte de gente ganhando à toa. Era proibido falar mal do PMDB, para evitar uma decepção, uma possível volta aos militares, um avanço da direita. Está provado que não é esse o caminho. Se tivessem informado direito a opinião pública, o comportamento do PMDB, ao chegar ao poder, teria sido correspondente à expectativa que se tinha. Você acabava com a impunidade, via informação. O cidadão teria condições de pressionar.
Eu não estou fazendo discurso; apenas acho que a democracia só se fortalece com a opinião pública informada. A pressão caiu e a classe política não se sentiu obrigada a seguir os seus programas. Eu acho que essa crise, essa descrença, tem um efeito positivo, em termos históricos. Os órgãos de comunicação estão tendo de refletir a insatisfação da sociedade.
Venciguerra – Depois da ditadura, você saiu dos nanicos, que falavam para universitários, e passou para o Shopping News, falando da classe média. Que houve?
Aloysio Biondi – Houve uma opção de falar para a classe média, exatamente porque fui um jornalista bastante combativo durante toda a ditadura. Eu escrevia também em jornais alternativos, que eram uma coisa importante, pois forneciam dados, informações, perspectivas diferentes das que estavam nos meios de comunicação da época. Você não precisa convencer aquele estudante de que as coisas estavam erradas, apenas fornecia informações para fundamentar os pontos de vista dele.
Você enriquecia o debate, mas não abria cabeças. E com a cabeça muito esquerdizada desses últimos anos, o jornalista não fazia questão de escrever para a classe média. Os jornais de classe média sempre fizeram o marketing da pequena burguesia. Fazem uma onda quando vai subir a gasolina, mas não tentam informar a classe média. O exemplo disso era a simoneta do Simonsen, em 76, que era uma taxa sobre o transporte individual para subsidiar o transporte da massa. Cabia nas propostas da oposição de redistribuir a renda. Nessa habitual incoerência nossa, a gente caiu de pau e a simoneta não emplacou.
Os jornais não tentam informar corretamente a classe média, e sim alimentam os seus preconceitos. Dizem que ela é sacrificada, que é uma coitada, que o poder aquisitivo está caindo.
Em 76 eu estava caindo no DCI. Não era ligado ao Shopping, mas começaram a republicar umas matérias minhas, e eu comecei a receber um incrível retorno. E não defendia os pontos de vista da classe média.
Geisel tentava fazer política de descentralização industrial. A Fiesp queria duplicar Cubatão; imagina o que seria hoje! E os jornais paulistas caíam de pau no pólo petroquímico do Rio Grande do Sul. Inventaram que havia um cerco a São Paulo. Realmente a classe média acha que os outros estados têm inveja de São Paulo. Desde essa época eu vi como é importante escrever para a classe média. Antes do ressurgimento do movimento sindicalista, era ela que tinha poder político, que apoiou o “milagre”. Eu sempre achei um equívoco do intelectual brasileiro nunca fazer questão de escrever para um segmento importante da opinião pública. A não ser para ensiná-la como ganhar mais com a poupança.
Eu aceitei chefiar o Shopping News com tudo isso na cabeça. Da mesma forma que passei a escrever para a Nova, há cinco anos, ainda que fossem 60 linhas. Por exemplo: “Por que há fome no mundo?”. Em vez de ficar na bobageira de explosão demográfica, eu explico que o governo americano paga para não plantarem.
O que se faz com a classe média é apenas “defendê-la” em seus pequenos interesses, e não tentar fazê-la enxergar a problemática global.