quarta-feira 15 de janeiro de 1992
Quando o IBGE começou a divulgar dados preliminares do Censo de 1991, falava em uma população de 153 milhões de habitantes para o País, um resultado muito abaixo das previsões feitas ao longo da década, que apontavam para a existência de algo como 170 milhões de brasileiros. Agora, exatamente como esta coluna previu, o Censo está apontando para números violentamente mais baixos, algo em torno de 145 milhões de brasileiros, isto é, 8 milhões abaixo até dos resultados preliminares, e 25 milhões abaixo dos 170 milhões tão falados. No caso específico da capital de São Paulo, chegou-se a conclusão de que ela está com 9,7 milhões de habitantes, quase 2 milhões abaixo do 11,5 milhões previstos. Como o IBGE, órgãos de pesquisa estaduais e municipais puderam errar tanto, superestimar de tal forma a população em todo o País? Antes de dar uma resposta para a questão, é preciso dizer que esses números são – não há outra expressão possível – absolutamente fantásticos, precisam provocar uma explosão mental na sociedade brasileira, um turbilhão de idéias, concepções e visões novas sobre o País. O que os dados estão mostrando é apaixonadamente fantástico – se o brasileiro quiser e puder ver o verdadeiro significado. O que os dados do Censo mostram é que, já na década de 80, o Brasil sofreu uma transformação brutal. Isto é: o Brasil é um país totalmente diferente do que os brasileiros dizem, as elites dizem, os veículos de comunicação dizem, repetem, repisam. Não há milhões de migrantes invadindo cidades como São Paulo, não há milhões de crianças abandonadas, não há tanto milhões de deficientes, não há tanto milhões de sem-teto, sem-terra, sem não-sei-o-quê. Atenção: isto significa que, na verdade, sempre foi mentira, que era impossível, não havia (e não há) dinheiro, para cuidar dos problemas de milhões e milhões de brasileiros. Mas por que o IBGE errou tanto em suas previsões, principalmente em relação às grandes cidades? É aquela velha história do “espírito científico” que, muitas vezes, acaba sendo um “espírito burocratizador”. Os profissionais em estatística não fogem a certas regras, não abandonam certos padrões, por considerarem que isso seria “anticientífico”. Por isso, o IBGE errou tanto. Mais claramente: a queda no número de filhos por mulher brasileira, por exemplo, era um fenômeno já esboçado na década de 70, isto é, já revelado pelo Censo de 1980. Digamos que, no Censo de 1970 o número de filhos por mulher fosse de 5 e passasse para 4,5 no Censo de 1980, com uma queda média de 0,5 filho por mulher. Nas suas previsões para os anos pós-80, os estatísticos passaram a levar em consideração o que aconteceu na década anterior, mas de forma puramente matemática. Isto é, se a redução no número de filhos foi de 0,5 por mulher na década anterior, este mesmo número foi adotado para a década posterior, com lenta redução projetada para o número de novas crianças. Acontece que as mudanças, no Brasil, se aceleraram a partir dos anos 70, com o êxodo do campo para as cidades (corte de cafezais, mecanização da lavoura), isto é, houve um processo explosivo de urbanização, que é sempre acompanhado de redução no número de filhos por casal. Com os dados do Censo, chegou a hora de reduzir o “índice de infelicidade” da sociedade brasileira. O País está em situação muito melhor do que se dizia. É tudo fantástico, repita-se. Mas há uma ameaça no ar: os mesmos formadores de opinião, que passaram décadas dizendo que o Brasil ia de mal a pior por causa da explosão demográfica, as migrações, o inchaço das cidades etc., esses mesmos catastrofistas já estão em cena. Em lugar de rever o amontoado de tolices que disseram durante décadas, estão usando os dados do Censo com a mesma vesgueira de sempre. Estão usando os dados do Censo, pasme-se, para análises pessimistas. Dizem, por exemplo, que o Censo mostra que a população “envelheceu”, que isso é um problema, que vão ser precisos mais recursos para aposentadorias etc. Essa ladainha chega a provocar asco. É mentira, pura e simples. Nas décadas anteriores, o Brasil tinha um grande problema: uma população com imensa presença de crianças, adolescentes – que não tinham idade para trabalhar. Isso significava (do ponto de vista global de funcionamento da economia) que uma minoria de adultos era obrigada a produzir, gerar renda, para sustento do restante da população. Essa é a visão correta, qualquer economista sabe, da questão. Hoje, o fato de a população ser não apenas menor, como ter menor número de crianças e adolescentes, significa forçosamente que a população como um todo “envelheceu”, mas isso quer dizer apenas que a idade média é maior – e não, obviamente, que da noite para o dia “nasceram” milhões de velhinhos. Isso é ótimo. Esse “amadurecimento” da população é ótimo. Significa mais gente produzindo, gerando renda, para um número menor de dependentes. O Censo mostra um quadro favorável. As cassandras já estão dizendo o contrário.