[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto
data
veiculo
tema
Palavra-chave
Voltar

  Os juros estão a 150% e tendem a subir ainda mais

Jornal Folha de S.Paulo , sábado 26 de setembro de 1981


As taxas de juros entraram em nova disparada no País, com aumentos de 10, 20 ou até mais pontos percentuais no custo dos empréstimos obtidos pelas empresas. Ontem, alguns dos principais bancos de investimentos cobravam 135% de seus clientes, resultando num custo final de 149%; quando computado também o valor do Imposto sobre Operações Financeiras – IOF (6,9%) – e muito mais alto, quando levadas em conta os custos extras impostos ao cliente, via transações forçadas com instituições do mesmo grupo, nível de garantias pedidas etc. Nas financeiras, onde há pouco tempo clientes preferenciais conseguiam dinheiro a 110% ao ano, as taxas já se elevaram para 128 a 140% ao ano – e prevê-se nova escalada para elas, nos próximos dias.

O efeito que a elevação das taxas de juros tem sobre a economia, a esta altura, é simplesmente devastador. Antes de mais nada, recende-se a fogueira inflacionária, e por muito tempo. Não há nenhum exagero na afirmação: basta lembrar que as taxas de juros aceitas hoje pelas empresas, vigorarão por todo o período do empréstimo, vale dizer, as taxas de 140% ao ano influenciarão os custos dessas empresas durante os próximos seis ou doze meses. Acrescente-se, ainda, o fato de que a inflação provocada pela elevação dos juros, determinará a necessidade de maiores desvalorizações do cruzeiro – as quais, por sua vez, encarecerão as importações e aumentarão, no mercado interno, os preços dos produtos exportados, isto é, provocarão mais inflação.

Um círculo vicioso infernal, muito mais diabólico do que pode parecer à primeira vista: afinal, noticia-se que as taxas de juros estão subindo, no mercado interno, para que os empréstimos internos fiquem mais caros que os empréstimos externos. Essa “estratégia” das autoridades monetárias, segundo as versões correntes, teria por objetivo forçar as empresas a tomarem empréstimos em dólares, cujo ingresso no País é essencial, para que o governo consiga ir renovando seus compromissos no Exterior, pagando empréstimos velhos com empréstimos novos, “rolando” a sua dívida como gostam de dizer os especialistas (em dívida). Ora, se a elevação das taxas de juros nos empréstimos internos provoca inflação, e se a inflação provoca mais desvalorizações do cruzeiro, isso significa que os empréstimos externos também ficarão mais caros, ao longo do tempo. Em resumo, o País presencia, perplexo, os juros internos correndo atrás dos externos, e estes subindo junto com a inflação provocada pelos juros internos, permitindo entender o que o ministro do Planejamento quer dizer quando usa a expressão “é a cobra comendo o próprio rabo”.

Além de aumentar a inflação, a elevação das taxas de juros arruína as empresas dos setores com problemas de mercado – e que por isso não podem compensar os aumentos dos juros, com os de seus próprios preços. Finalmente, ela arrasa com o Tesouro, já que também ele vem aumentando loucamente as taxas de juros pagas aos compradores de suas Letras, a pretexto de que os especuladores não se interessarão por esses papéis, dando preferência a outros títulos, caso seus rendimentos não acompanhem o ritmo de mercado. Com essa ladainha, o Tesouro, isto é, o País, já está pagando praticamente 100% de rendimentos aos especuladores do mercado, uma monstruosidade quando se lembra que a dívida interna deve chegar aos 2,3 trilhões de cruzeiros até o final do ano...

SEM ALTERNATIVAS
As autoridades monetárias, indiferentes ao esmagador círculo vicioso que criaram, dizem não haver alternativa: os juros precisam subir, para transformar os empréstimos externos em uma opção atraente. O próprio ex-ministro Simonsen contesta essa passividade, e apresenta sugestões (três) para estimular a contratação de empréstimos externos, sem elevar os juros internos.

Antes mesmo do questionamento de Simonsen, no entanto, já havia quem perguntasse se a estratégia da elevação de juros não é mais um desses “mistérios” do mercado financeiro do Brasil – em que, muitas vezes, as autoridades monetárias figuram como personagens.

Como assim? Calcula-se, no mercado, que o custo dos empréstimos externos pode ser estimado, a esta altura, em 135% ao ano a partir das seguintes parcelas: 17,8% de libor (taxa internacional); mais 2,25% de “spread”; mais 0,5% de diferença na compra e venda dos dólares; mais 6% (média) de comissão de repasse, e mais 4% de Imposto de Renda, num total de encargos que somam 30,43% para um ano. A eles, deve ser acrescentada, evidentemente, a correção cambial, isto é, a desvalorização do cruzeiro nos próximos doze meses, e até poucos dias estimada em 80% por dirigentes do mercado. Para chegar ao custo final, basta multiplicar os encargos de 30,43% pelos 80% de desvalorização (na verdade, a conta é feita multiplicando-se 1,3043 por 1,80), apurando-se um custo final de 134,77, ou 135%, para os empréstimos externos.

Onde está o mistério? Na verdade, esses 135% já representavam um custo mais baixo por exemplo, que os juros que vinham sendo cobrados no desconto de duplicatas, pelos bancos, com taxas de até 6,5% ao mês, mais o IOF – e exigência de saldo médio de 20 a 40% (além da “reciprocidade”), o que pode resultar uma taxa final superior aos 150%.

Em outras palavras, o crédito interno, em muitos casos, já seria mais caro que os empréstimos externos. Em outros, ainda, a diferença a favor do dinheiro externo seria mínima, facilmente absorvível pelas empresas, numa época que se diz ser de crédito “contido”.

Cai por terra, assim – nessa visão – o argumento de que as empresas “não querem” os recursos dos empréstimos externos, e que eles estariam encalhados no Banco Central. É bom lembrar que quem contrata tais empréstimos são os bancos – para depois emprestá-los, por seis meses no mínimo, às empresas nacionais. Não é absurda a hipótese, assim, de que aos bancos interesse deixar esses recursos ociosos no Banco Central (que arca com os ônus desse dinheiro imobilizado), alegando que ninguém se interessa por eles. Exatamente porque, criado o “encalhe” dos recursos, abre-se o caminho para elevação das taxas de juros internas. E para o crescimento dos lucros do sistema financeiro.



Acompanhar a vida do site RSS 2.0 | Mapa do site | Administração | SPIP Esta obra está licenciada sob uma Licença CreativCommons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil