Jornal Folha de S.Paulo , sábado 27 de outubro de 1984
Há muito se sabe que as fraudes e manobras com a compra de safras pelo governo, e posterior venda dos estoques governamentais a grupos privilegiados, superam largamente os “escândalos” do mercado financeiro, em torno dos quais há tanto estardalhaço. Raramente, porém – dado o sigilo que cerca essas operações – se consegue investigar e levantar dados sobre sua extensão. Nesse sentido, as declarações do representante da CFP no Paraná são bastante reveladoras – pois fornecem uma “amostra” dos desvios ocorridos na área, com imensos prejuízos ao Tesouro e gigantescos lucros para os fraudadores. Diz o governo que esses abusos estão sendo coibidos, este ano. Mas há uma fraude que o próprio governo insiste em manter e pela qual o consumidor é “furtado” em parte de sua renda, ao pagar preços indevidos pelos alimentos. O esquema é simples: o governo voltou a vender, a supermercados e atacadistas, feijão e arroz dos seus estoques (formados em safras passadas) para venda a preços baixos ao consumidor. Acontece que esses alimentos, “velhos” e principalmente o feijão “velho”, são misturados com feijão e arroz colhidos este ano, e vendidos a preços caríssimos ao consumidor. Como acabar com a fraude? Vendendo o feijão e arroz “velhos” diretamente ao consumidor, a preços reduzidos, em caminhões da Cobal, na periferia das cidades. A população de baixa renda, que não pode pagar Cr$ 2.000 pelo quilo de feijão, certamente consumirá o produto “velho” – mas baratíssimo. Haverá menos fraude, e menos fome.