[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto
data
veiculo
tema
Palavra-chave
Voltar

  Poder de impor preços ficou muito reduzido

Jornal Folha de S.Paulo , domingo 14 de março de 1982


Ao decidir, no final de 1979, elevar os preços do petróleo para maia de 30 dólares o barril, a Opep – Organização dos Países Exportadores de Petróleo – era responsável por mais da metade da produção mundial (52,6%), com 31 milhões de barris diários.

Esta semana, a organização vai realizar uma reunião de emergência em Viena, com o objetivo de cortar sua produção para 18,5 milhões de barris diários, ou apenas uns 30% do total mundial, numa tentativa desesperada de evitar novas quedas de preços para o produto. Uma dura decisão para os países da Opep, que, se tivessem compradores para o seu petróleo, poderiam estar produzindo, hoje, 41 milhões de barris por dia - e esperavam exportar de 50 a 55 milhões de barris diários para o resto do mundo na segunda metade desta década.

Para os especialistas, mesmo que a Opep reduza sua produção, ela dificilmente conseguirá fazer com que, a curto prazo, o preço do petróleo volte ao nível de 34 dólares o barril (preço base para o tipo arábico leve, isto é, os petróleos "melhores" custam um pouco mais; os "piores", um pouco menos).

E, pior ainda - para os países da Opep: seu poderio, que lhe permitia impor preços elevados, parece irremediavelmente perdido, a longo prazo.

Uma situação nova, resultante da redução no consumo mundial, aumento da produção, descoberta de novas jazidas em todos os cantos da terra – tornados possíveis, por ironia, pela política de preços altos dos países da Opep a partir de 1973 e, principalmente, a partir de 1979.

Mudança ignorada

A histeria mundial em torno da “crise de energia”, a partir de 1973, alimentou projeções dantescas sobre o futuro do mundo, onde as economias industrializadas devoravam cada vez mais petróleo, cujas reservas acabariam por esgotar-se em “vinte ou trinta anos”. Mais uma vez, como é comum acontecer em economia, essas análises esqueciam que, a médio prazo, todo problema provoca ou possibilita soluções.

Sempre se soube, por exemplo, que era possível “tirar” energia (substituindo o petróleo), de madeira, cereais etc. Por que isso não era feito? Porque o petróleo era muito barato, e esse produto substitutivo ficava proporcionalmente mais caro, não encontrando comprador. No entanto, quando os preços do petróleo passaram de 3 dólares para mais de 30 dólares o barril, em menos de dez anos, a produção desses substitutivos – álcool, lenha, carvão, xisto etc. – ficou viável, isto é, seus preços já podiam competir com o custo do petróleo.

As decisões da Opep desencadearam, assim, em todo mundo, gigantescos programas de desenvolvimento de fontes alternativas de energia a partir de 1973/74 – e cujos projetos foram amadurecendo, entrando em operação, a partir de 1977/80. Com a substituição do petróleo por outras fontes de energia, o consumo mundial de petróleo deixou de crescer às taxas alucinadas que vinha apresentando, objetivo que foi alcançado também com a ajuda de medidas para racionalizar o consumo, tirando maior rendimento do petróleo (no caso dos automóveis, há o exemplo do Japão, que já dispõe de motores que gastam apenas um litro de gasolina para cada 26 quilômetros).

De um total de 64,5 milhões de barris em 1979, o consumo mundial caiu para 57 milhões de barris em 1981. A diferença parece insignificante, de apenas 7 milhões de barris – exatamente por causa “economia invisível” de petróleo, isto é, a racionalização do seu uso.

Assim, além dessa queda real é preciso lembrar que o consumo - mantido o ritmo anterior à "crise" – vinha crescendo à razão de quase 3 milhões de barris diários, a cada ano: com isso, os 60 milhões de barris diários gastos em 1977 deveriam crescer para 72 milhões de barris em 1981, ou 15 milhões de barris a mais do que os 57 milhões eletivamente consumidos.

É essa a economia – 15 milhões de barris – a economia total obtida. Uma situação nova, resultante na redução no consumo mundial, aumento da produção, descoberta de novas jazidas em todos os cantos da Terra – tornados possíveis, por ironia, pela política de preços altos dos países da Opep a partir de 1973 e, principalmente, a partir de 1979.

Reverso da Medalha

A elevação dos preços pela Opep não estimulou, porém, apenas o desenvolvimento das fontes alternativas de energia: ela permitiu, também, que poços de baixa produção (como nos EUA) ou elevado custo de perfuração (como na plataforma submarina do Brasil e de outros países) se tornassem "vantajosos".

Mais claramente: com o petróleo a 3 ou 12 dólares, não compensava gastar 50, l00 ou 200 milhões de dólares para descobrir, ou tentar descobrir um campo que, ao produzir, rendesse uma quantidade de petróleo de valor inferior aos gastos (até se esgotar). Com os preços altos, isto mudou, e, em todo o mundo, ficou vantajoso perfurar a qualquer custo, nas situações mais difíceis.

Como conseqüência da produção nos países não pertencentes à Opep cresceu rapidamente, como é o caso do Brasil, que, de 170 mil barris em 1979 pulou para 270 mil barris diários este ano. No reverso da medalha, estreitou-se o mercado para os países da Opep.

E reduziu-se o seu poder de impor preços, assistindo-se, no momento, a uma “guerra” entre eles: aqueles que têm compromissos a pagar no Exterior, e precisam obter dólares a qualquer preço para cobrir o “rombo” provocado pela queda em suas exportações.



Acompanhar a vida do site RSS 2.0 | Mapa do site | Administração | SPIP Esta obra está licenciada sob uma Licença CreativCommons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil