[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto
data
veiculo
tema
Palavra-chave
Voltar

  Nigéria reduz o preço do petróleo e vai à “guerra??

Jornal Folha de S.Paulo , segunda-feira 21 de fevereiro de 1983


Ao mesmo tempo em que reduzia, ontem, o preço de seu petróleo em 15%, ou US$ 5,50 por barril, a Nigéria anunciou a disposição de engajar-se em uma autêntica “guerra de preços”, daqui para a frente. “Cada corte nos preços realizado pelos nossos concorrentes”, advertiu Yahaya Dikko, conselheiro presidencial para Petróleo e Energia nigeriano, “será imediatamente enfrentado com reduções equivalentes no custo de nosso produto”. A Nigéria, justificou, precisa reconquistar mercados, pois suas exportações caíram verticalmente, derrubando a produção de 2 milhões de barris/ dia para 800 mil barris/ dia em janeiro último, e para 500 mil barris/ dia na primeira quinzena de fevereiro. A brutal perda de receitas decorrentes desse declínio ameaça lançar o país a uma situação de total insolvência cambial, encaminhando-se para o colapso econômico e social.

As dificuldades que levam a Nigéria a cortar unilateralmente seus preços, sem consulta aos demais países da Opep, foram reconhecidas ontem por pelo menos dois países: Venezuela e Argélia. Para eles, a Nigéria – e outros países em dificuldades semelhantes – ficaram sem alternativas, entregues à própria sorte, desde que a última reunião da Opep malogrou, dando início aos rumores sobre uma iminente queda de preços e conseqüente paralisação nos negócios. A partir dessa constatação, e tentando evitar que a “guerra de preços” se generalize, o governo venezuelano resolveu acelerar a “ofensiva internacional” que vinha articulando, com o envio de missões diplomáticas a todos os países produtores de petróleo, pertencentes ou não à Opep, em busca de um acordo para estabilizar o mercado.

QUEDA GENERALIZADA
A redução dos preços do petróleo nigeriano já era prevista desde a semana passada, quando se anunciou que a Inglaterra e a Noruega reduziriam o custo do petróleo no Mar do Norte, concorrente direto, por suas características, do produto da Nigéria. Ainda assim, a decisão nigeriana acabou por surpreender, porque ela não se limita a compensar o corte nos preços do petróleo do Mar do Norte, reduzidos de US$ 33,50 para US$ 30,50. A Nigéria, que antes vendia seu produto a US$ 35,50, foi mais longe e, em lugar de restabelecer a diferença de US$ 2,00 (entre US$ 33,50 e US$ 35,50) existente anteriormente, decidiu fixar seu preço em US$ 30,50, isto é, US$ 0,50 abaixo do valor do produto concorrente (que anteriormente era mais caro). A decisão cria novos problemas para a Arábia Saudita (v. comentário nesta página)

“XEQUE-MATE” EM YAMANI
A decisão nigeriana de partir claramente para a “guerra de preços” pode ser interpretada como uma tentativa de dar um “xeque-mate” na Arábia Saudita e Kuait, forçando-os a um acordo dentro da Opep para estabilizar o mercado. Na última reunião da organização, esse acordo parecia próximo, pois onze (dos treze) países apoiavam a estratégia de reduzir a produção para manter os preços, quando o xeque Yamani, ministro do petróleo saudita, apoiado pelo Kuait, criou um impasse, exigindo que a Nigéria e outros países africanos aumentassem seus preços.

Segundo Yamani, a diferença de US$ 1,50 existente entre o custo do petróleo nigeriano – US$ 35,50 – e o “arábico leve” – US$ 34,00, preço de referência da Opep – era insuficiente, para compensar a diferença de qualidade entre esses tipos de petróleo, levando compradores a darem preferência pelo produto africano, que estaria assim “roubando” mercados da Arábia Saudita.

Para o representante saudita, o diferencial deveria ser duplicado, de US$ 1,50 para US$ 3,00, proposta recusada pela Nigéria e demais países africanos, com a justificativa de que a situação do mercado não permitia esse aumento, que levaria os importadores a aumentarem suas compras de países não-pertencentes à Opep, como a Inglaterra, Noruega e México.

Para os observadores, a proposta de Yamani, que provocou o fracasso da reunião, era também uma “cartada”. A Arábia, na verdade, pretenderia reduzir seus preços em US$ 4,00 – de US$ 34,00 para US$ 30,00 -, mas, por questões políticas, não desejava tomar oficialmente a iniciativa de cortes.

Ao provocar deliberadamente o malogro da reunião, Yamani já previa que países como a Nigéria acabariam sendo forçados a reduzir seus preços, para poderem exportar – movimento que, então, a Arábia e seus aliados no Conselho de Cooperação do Golfo seguiriam, sem arcar com o ônus de terem iniciado o processo.

Yamani não esperava, porém, que a Nigéria fosse tão longe, e chegasse a fixar um preço para seu petróleo inferior mesmo ao do Mar do Norte, na faixa de US$ 30,00. Agora, para manter a diferença anterior, de US$ 1,50, o “arábico leve” teria que ser vendido a US$ 28,50, com uma redução de US$ 5,50 por barril, e não os US$ 4,00 desejados pela Arábia Saudita. Ou, pior ainda: para ser coerente com suas acusações anteriores, de que o diferencial deveria ser de US$ 3,00, Yamani teria que vender o “arábico” a US$ 27,00 o barril – com redução de US$ 7,00 em relação aos US$ 34,00 de hoje.

BRASIL PODE GANHAR US$ 1 BI
Com uma importação atual de cerca de 600 mil barris/ diários, o Brasil economiza US$ 600 mil por dia, ou US$ 200 milhões nos 365 dias do ano, para cada redução de um dólar no custo do barril de petróleo. Se o declínio de US$ 0,50 do barril decidido pela Nigéria generalizar-se, o Brasil economizaria portanto cinco vezes aqueles US$ 200 milhões/ano, isto é, US$ 1 bilhão por ano.

Não se deve pensar, porém, que a redução dos preços do petróleo, agora em marcha, significará “mais uma” contribuição para o Brasil alcançar o famoso superávit de US$ 6 bilhões na balança comercial, prometido ao FMI. Por quê? Acontece que a queda dos preços do petróleo já era esperada pela Petrobrás, e já está incluída nos cálculos do governo que chegaram ao superávit de US$ 6 bilhões. Segundo a Petrobrás, os preços do petróleo, este ano, cairiam para uma faixa entre US$ 26,00 a US$ 28,00 o barril. O Brasil, ao longo do ano, pagaria um preço médio de US$ 29,00, inclusive porque grande parte das importações ainda decorrem de contratos estabelecidos na época de preços mais altos.

O preço médio de US$ 29,00 corresponderia a uma redução de pouco mais de US$ 4,00, em relação à média de US$ 33,00 e poucos pagos pela Petrobrás em 1982. Assim, somente haverá uma economia adicional à prevista caso os preços despenquem abaixo da faixa de US$ 26,00 a US$ 28,00 tomada como base pela Petrobrás.



Acompanhar a vida do site RSS 2.0 | Mapa do site | Administração | SPIP Esta obra está licenciada sob uma Licença CreativCommons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil