Jornal Diário da Manhã , domingo 2 de outubro de 1994
A queda da inflação está fazendo a sociedade acreditar que a política econômica é corretíssima, e que a equipe FHC é “diferente”, capaz de corrigir distorções que prejudicam o País. Criado esse clima, há sempre uma dose de desconfiança contra os analistas – caso do autor desta coluna –, que insistem em dizer que os economistas da equipe FHC/Serra estão fazendo as mesmas jogadas que, nas últimas décadas, aumentaram os lucros de poderosos grupos de interesse às custas da classe média e do povão brasileiros.
A melhor forma de provar os absurdos da política econômica, portanto, é utilizar análises dos próprios economistas, articulistas e jornais que apóiam as posições da equipe FHC – e as teses de privatização, reforma da Constituição etc., que ela defende juntamente com os mesmos poderosos grupos de interesse. Em meio a artigos e entrevistas cheios de foguetório pró-equipe, há trechos em que, talvez por distorção dos autores, a verdade aparece. Um trabalho de “garimpagem” à cata da verdade nos jornais dos últimos dias, pode ajudar a classe média e o povão a entenderem a realidade.
Plano Real – Já se disse mais de uma vez, nesta coluna, que a queda da inflação não foi mérito da equipe FHC. Ironicamente, ela aconteceu por causa dos abusos, da remarcação excessiva de preços realizadas pelos empresários, antes do Plano. Muita gente torce o nariz a essa análise, atribuindo-a a “engajamento contra a candidatura FHC”. Veja-se, então, o que diz o professor Eduardo Gianetti, da Universidade de São Paulo, reconhecidamente um dos economistas mais festejados, nos últimos anos, pelos empresários e pró-conservadores. Eis seu diagnóstico: “A orgia (sic) de remarcações na despedida da URV – criando uma gordura pra ser queimada nos meses seguintes – acabou sendo uma bênção (sic) disfarçada”. Estamos entendidos?
Massacre do povo – Esta declaração é do próprio economista Edmar Bacha, assessor especial do Ministério da Fazenda de FHC: “O déficit do Governo federal pode ser controlado na boca do caixa. É só fechar o nariz, fechar os olhos e tapar os ouvidos para a desgraceira à sua volta...”. Estamos entendidos? O sr. Bacha está dizendo que os economistas da equipe FHC/Serra simplesmente seguram a liberação de verbas (boca do cofre) sem querer saber se há bolsistas no exterior que ficam na amargura, pesquisas paralisadas, hospitais fechados, merenda escolar suspensa, miséria e dor. Sem querer saber se o corte de verbas trouxe epidemia de dengue no Ceará, ou a atual epidemia de meningite no interior do Estado de São Paulo, causada pela suspensão das campanhas de vacinação que eram feitas todos os anos. Que importância tem toda essa “desgraceira à sua volta”, se os economistas oficiais, seus filhos, netos, irmãos, pais estiverem bem nutridos, bem vestidos e atendidos em hospitais de luxo, verdadeiros hotéis quatro estrelas?
Lucro para poucos – Muita gente se surpreendeu quando esta coluna explicou que empresas e bancos não estavam perdendo dinheiro com a queda do dólar. Ao contrário: as empresas vêm há anos realizando lucros fabulosos porque basta elas declararem, mesmo mentirosamente, que têm a intenção de exportar e recebem dólares, que os bancos vão buscar no exterior, com “adiantamento” da receita futura, e que o Banco Central troca por reais. Esse adiantamento, ou empréstimo, é feito a juros baixíssimos. Assim, as empresas recebem os reais e aplicam a juros altíssimos no mercado financeiro. Veja-se o que diz a respeito ao “Jornal do Brasil” um dos pais do Cruzado, hoje banqueiro e colaborador da equipe FHC/Serra, o economista Francisco Lopes: “o setor exportador (na verdade, qualquer empresa que declare que vai exportar) vem-se beneficiando da ciranda financeira (compra antecipadamente dólares, que são trocados por reais e aplicados no mercado, embolsando juros altos)”.
Moto-contínuo – E os bancos, o que ganham nessa história? É simples: os economistas ligados aos grupos poderosos decidiram que é preciso “dar incentivos”, prêmios, às empresas exportadoras. Elas pagam juros baixíssimos sobre os dólares que tomam emprestado, e aplicam no mercado financeiro a juros altos. E daí? Acontece que os bancos não iriam sofrer prejuízos ao emprestar a juros baixos, ora, pois. Quem paga a diferença? O Tesouro, claro. A classe média e o povão. A sociedade, que fica sem verbas para outros fins. Parece brincadeira, mas é isso mesmo: os bancos mantêm os juros lá nas nuvens, as empresas recebem juros nababescos ao aplicar o dinheiro do empréstimo. E quem paga a diferença? Todos nós. Incrível! Os economistas brasileiros inventaram um sistema tipo moto-contínuo, para gerar lucros para os grupos poderosos. Às custas do Tesouro, da sociedade.
Os bancos – Então é isso. A classe média e o povão, tão bombardeados com afirmações de que o rombo do Tesouro se deve a gastos excessivos do Governo com funcionalismo, aposentadorias etc. Na verdade, o Tesouro há muito tempo não tem rombo, quando – atenção, atenção – se faz uma comparação apenas entre a arrecadação e os gastos normais. O rombo só surge, na verdade, quando – na etapa seguinte – entram em conta também os bilhões de reais que são pagos, como juros, aos bancos e grandes investidores que compram os títulos do Governo. Com a equipe FHC, a monstruosidade cresceu – porque ela elevou os juros e tolerou a enxurrada de dólares. Até agosto, o Tesouro teve um saldo positivo de 6,6 bilhões de reais, com suas despesas normais. Um saldo, é claro, obtido às custas do freio na liberação de verbas, da “desgraceira à volta” – inclusive epidemias de meningite. Mas os juros altíssimos que o Governo paga aos compradores daqueles títulos, que representam a dívida interna do Governo, comem o saldo, provocam o rombo. Por que essa dívida cresce, se o Governo tem saldo em suas contas normais? Por causa da própria enxurrada de dólares que os bancos tomam emprestado no exterior para repassar às empresas pseudoexportadoras. Para quem duvida, veja-se o que diz o próprio “Jornal Estadão”, assumidamente pró-FHC e pró-conservadores, em editorial recente: “O BC, para controlar a liquidez (quantidade de moeda) do sistema, procurava neutralizar mediante a colocação de títulos da dívida pública que, ao crescer, exigia uma remuneração (juro) cada vez maior. Isso estava contribuindo para aumentar o déficit orçamentário”. Em bom português: o Banco Central, há anos, e agora mais do que nunca, emite títulos só para tirar de circulação o dinheiro emitido para trocar por dólares desnecessários e destinados apenas a engordar os lucros das empresas. Só que isso aumenta a dívida do Tesouro e cria o pretexto para os grupos poderosos forçarem novamente a alta das taxas de juros, ampliando o rombo do Tesouro. Moto-contínuo.
Em resumo: a grande imprensa, os economistas da equipe FHC/Serra, os economistas/banqueiros, certos analistas muito bem pagos, líderes empresariais que assumem falsamente pose de homens públicos, todos eles sabem muito bem que as análises econômicas predominantes no Brasil são uma grande mentira. Mentira sobre as causas do rombo do Tesouro, mentira sobre a taxa de juros, mentira sobre o rombo da Previdência, mentira sobre os gastos com o funcionalismo. Mentira, acima de tudo, sobre a “necessidade de reformas constitucionais” para salvar a economia e combater a inflação em definitivo.
Mente-se o tempo todo. Só por distração eles falam a verdade – como os exemplos acima provam.
Mostrar a realidade da economia não é uma questão de opção. É obrigação dos jornalistas que ainda acreditam na ética e no sagrado compromisso se informar corretamente o seu leitor, a sociedade, e combatendo a manipulação da opinião pública em proveito de grupos poderosos. Mesmo que seja mais rentável mentir. Muito mais rentável. É só olhar ao redor.