Jornal Folha de S.Paulo , domingo 27 de junho de 1982
Os dados otimistas sobre o aumento da produção industrial e das vendas do comércio estão levando o País a cometer um terrível equívoco, isto é, a acreditar que "a situação econômica melhorou". Na verdade, os problemas da economia estão-se agravando a uma velocidade inacreditável, ameaçando fugir totalmente ao controle do governo, se não houver uma intervenção imediata. Em Brasília, aparentemente, predomina a crença de que é possível "empurrar os problemas com a barriga" até novembro, isto é, até depois das eleições – para só então agir. O temor que surge, neste momento, é que o País não consiga chegar até lá, atingido por violenta "crise" e tensões sociais. No plano interno, a inflação dispara. No plano externo, os problemas criados pela dívida externa voltam a ficar dramáticos, com a ameaça de "falta de dólares" para honrar os compromissos do País – e novo ra¬cionamento de empréstimos, por parte dos banqueiros internacionais, como ocorreu no último trimestre de 1981 – a menos que o País "tome juízo". A encenação que o Ministério do Planejamento vem fazendo para enfrentar esses problemas não surtirá efeito, porque é a sua própria política, ou falta de política, que alimenta e realimenta as crises. Além de não atacar os problemas reais, a "braveza" do Ministério do Planejamento trará novos prejuízos ao País, como é o caso da planejada importação de determinadas matérias-primas e produtos industriais, a pretexto de forçar a baixa de seus preços. Isso só servirá para queimar dólares num momento em que o País já mergulha em uma crise cambial, e para criar desemprego.
OS BODES EXPIATÓRIOS
A gravidade do momento é de responsabilidade do Ministério do Planejamento, como se pode provar. O ministro e seus assessores, no entanto, procuram convencer o País de que são altamente eficientes, e que este é um país de incompetentes. Foi essa a acusação, de "incompetência", que fizeram contra o Congresso, ao ser rejeitado o "pacote da Previdência" – cuja ruína, em grande parte, se deveu exatamente ao desvio de seus recursos para obras faraônicas, projetadas pelos tecnocratas, como Itaipu. É essa, agora, a insinuação que as áreas delfinistas fazem contra os empresários do País ao "descobrirem" (estavam dormindo?) que a inflação de junho também disparou.
Sempre fugindo à sua responsabilidade, a superpoderosa equipe delfinista procurou novos "bodes expiatórios" para a carestia, e escolheu mais um: as remarcações de preços por causa do Finsocial, por "burrice" dos empresários. Saiu até uma historinha nos jornais, para mostrar o que teria acontecido:
"Ironiza-se, na Seplan, com o fato de que existem empresários que, acham que 0,5% de mil é cinqüenta. Um deles, em recente reunião com o ministro Delfim Neto, revelou que aumentou o preço de determinado calçado, que fabricava, de Cr$ 3.000 o par para Cr$ 3.150. Quando o ministro lembrou que o aumento deveria ser de apenas Cr$ 15 o par, causou surpresa e constrangimento."
MENTIRAS OU NÃO?
Uma história que merece tanto crédito quanto aquela contada pelos assessores delfinistas, quando houve um grande déficit do Tesouro em fevereiro: segundo eles o problema não existia, o que tinha havido, na verdade, fora um erro de Cr$ 20 bilhões em uma agência do Banco do Brasil do interior de São Paulo...
Para sorte do ministro, grande parcela dos empresários brasileiros realmente não sabe calcular, por exemplo, juros compostos; não sabe quanto paga efetivamente de juros aos bancos, beneficiados pela política do Planejamento... Mas querer que o País acredite que um empresário – e de prestígio suficiente para ser recebido pelo ministro – não saiba calcular 0,5% de qualquer coisa, é menosprezar a inteligência alheia e mesmo que, numa hipótese absurda, fosse verdade, seria preciso que centenas de milhares de empresários cometessem o mesmo erro, fossem igualmente "incompetentes", para provocar a carestia que está aí. O exemplo não significa absolutamente nada.
Diante das freqüentes versões desse tipo usadas pela equipe delfinista, pode-se levantar duas hipóteses. Haveria, no primeiro caso, a tentativa deliberada de mentir ao País. Ou haveria, na outra hipótese, uma perigosa crença, dos seus autores, em suas próprias mentiras. Em ambos os casos, perde o País, porque o resultado é o mesmo: persistência nos erros.
Já em janeiro a inflação disparava
A inflação brasileira não disparou agora, como as bravatas do Ministério do Planejamento querem fazer acreditar. A disparada começou no primeiro mês do ano, janeiro, com 6,3%; continuou em fevereiro, com 6,8%, acentuou-se em março, com 7,2%. Uma nítida tendência de alta, que teria exigido providências imediatas, da superequipe. O que ela fez? Nem precisa dizer: tirou historinhas do bolso do colete, afirmando que "a alta não preocupa", porque a inflação no trimestre ainda estava caindo em relação a 1982, com 21,8% em três meses, contra 24,1% em 1981.
Cegueira de quem só acredita em números. Em análise publicada pela Folha logo nos primeiros meses de abril, mostrou-se que a situação era grave, por uma série de diferenças entre 1981 e 1982. Resumidamente: no primeiro trimestre do ano passado, 1981, ainda havia escassez de alguns alimentos, por causa da frustração da safra anterior; nesse mesmo trimestre, começaram a liberação dos preços industriais; a inflação nos últimos meses de 1980 foi elevadíssima (7,6%, 7,6% e 5,9%), deixando uma "herança pesada" para o começo de 81, e assim por diante. Em 1982, "tudo" ajudava a queda da inflação, não se justificando a alta do trimestre: a liberação de preços já deveria ter esgotado seus efeitos, ao longo do ano anterior; havia superoferta de alimentos, com queda nos preços ao produtor; a inflação vinha em queda desde o último trimestre de 81, deixando uma "herança excelente" para 82, já que a correção monetária, a correção de aluguéis, a correção dos salários haviam entrado num ciclo descendente, com reajustes cada vez menores, "puxando a inflação para baixo", este ano. Não bastasse tudo isso, a própria situação internacional ajudava a queda da inflação brasileira: até o petróleo acusava reduções de preços, assim como todas as matérias-primas importantes, como metais, borracha etc.
Tudo ajudava, portanto, a queda da inflação brasileira. Ainda assim, ela subiu, no primeiro trimestre. O Planejamento não agiu, "não se preocupou" com isso, esperou até junho para esbravejar, ameaçar com importações etc. Pior ainda: enquanto isso, adotava uma série de de¬cisões que forçosamente provocariam inflação, ou reforçariam fatores inflacionários resultantes do próprio "modelo".
OS ERROS REPETIDOS
A inflação que aí está é filha da falta de política econômica, da improvisação, de erros deliberados (para beneficiar setores) ou não: Aço, nafta – matérias-primas produzidas pelas usinas estatais e pela Petrobrás. O Planejamento achatou seus preços em 1981, para que as indústrias que usam essas matérias-primas tivessem custos mais baixos e "pudessem exportar" (sempre o "modelo exportador"...). Depois, quando as siderúrgicas ficaram sem poder pagar seus credores, por causa dos prejuízos sofridos, os preços do aço foram violentamente aumentados.
Cigarros — o Planejamento vive concedendo perdão de impostos a Deus e ao Diabo e, depois, para aumentar a arrecadação, aumenta os preços dos cigarros (porque o imposto é calculado sobre o preço e também sobe, à medida que este avança).
Crédito rural — o País levou anos para montar um sistema pelo qual o governo comprava safras (através do Banco do Brasil), tirando o produto das mãos dos intermediários. Este ano, o Planejamento entregou o mar de dinheiro, destinado à comercialização a quem? Às in¬dustrias e ao comércio. Até uma criança – bem-intencionada, claro – podia prever que, colocando-se dinheiro nas mãos dos intermediários, aconteceria o que aconteceu: além da imposição de preços baixos ao produtor, os financiamentos possibilitaram a manutenção de estoques com fins especulativos, ou a imposição de preços altos ao consumidor.
Carne — o ministro diz estar muito bravo com a "especulação’’ com o boi gordo, nas Bolsas de Mercadorias. É mesmo? Mas o Planejamento até conseguiu, este ano, um decreto presidencial para perdoar o Imposto de Renda (para sempre) dos lucros que os especuladores tenham nessas Bol¬sas, a pretexto de "fortalecê-las". Por que não especular, com a ajuda do Planejamento?
Tolerância — não é preciso alongar a lista de erros, embora se pudesse lembrar ainda a liberação das exportações de óleo de soja, o preço do trigo fixado em dólar (!), as taxas de juros. Mas não se pode deixar de registrar que, muito bravos, os assessores do ministro dizem agora que "não vão mais permitir aumentos de 20% ao mês, como aconteceu no caso dos televisores". Antes, eles deixavam? Deixavam, sim. Eles sabiam dos aumentos. Sabiam, sim, porque podem acompanhá-los através dos jornais, e mesmo porque, ao que consta, as em¬presas continuam a comunicar seus preços ao CIP, embora pos¬sam aumentá-los livremente.
Em lugar de brecar os aumentos abusivos há três meses atrás, o Ministério do Planejamento, todo poderoso, única voz a mandar na economia brasileira, continuou a cometer erros e a divulgar suas versões estapafúrdias sobre a inflação: "ela não preocupa", ou "a culpa é do salário mínimo", "a culpa é dos barbeiros".
A culpa é do excesso de poder do Ministério do Planejamento, que, se analisar bem a situação atual, talvez encontre a resposta que procura: "Quem é incompetente neste País?"