Jornal Folha de S.Paulo , domingo 18 de abril de 1982
Num arrebatamento pouco germânico, o presidente da Volkswagen do Brasil, Wolfgang Sauer, engrossou na última semana o coro de empresários, analistas e técnicos oficiais admiradores do “modelo japonês”, apontado com freqüência cada vez maior como “um exemplo para o Brasil”. “Vamos imitar o Japão! Vamos partir para a guerra das exportações”, proclamou o entusiasmado empresário.
Sem partir para análises detalhadas, que não cabem aqui, não há a menor dúvida de que o Japão merece hoje a admiração e o respeito de governantes e técnicos de todo o mundo, por ter conseguido realizar o seu segundo “milagre”. País altamente dependente de petróleo importado, ele foi duramente atingido pelas elevações de preços da Opep, no primeiro momento – mas conseguiu enfrentar a tempestade, pagar a “conta petróleo”, e voltar a obter inacreditáveis saldos na balança comercial, isto é, realizar exportações tão fabulosas que elas são suficientes para pagar as importações e ainda deixar superávit.
O fato de o Japão ter conseguido resultados tão magníficos não significa, porém, que o seu “modelo” deva ser imitado, pelo Brasil, ou por qualquer outro país. Nem sempre “o que é bom para o Japão é bom para o Brasil”. Muito ao contrário.
PRIMEIRA CONFUSÃO
Antes de mais nada, é preciso deixar claro que grande parcela dos admiradores do Japão vêm cometendo grave equívoco em relação ao “milagre japonês”, atribuindo-o, de forma simplista, ao “crescimento das exportações”. Uma confusão entre causa e efeito, pura e simples: as vendas externas japonesas são apenas o efeito de uma ampla política de planejamento, destinada a reorganizar toda a economia a partir da “crise do petróleo”, para reduzir a dependência do país não apenas em relação a essa fonte de energia, mas também de outras matérias-primas. O Japão, em outras palavras, não fez seu “segundo milagre” às custas de exportações de qualquer jeito, a qualquer preço – mas graças a um planejamento global, destinado a resolver definitivamente (esta a palavra chave) os problemas de seu balanço de pagamentos, sua dependência do exterior. As exportações foram uma das armas e um dos efeitos dessa política, destinada a assegurar o futuro do país.
No Brasil, como se sabe, o ministro do Planejamento e seus assessores não acreditam em planejamento. Confessadamente. Preferem viver perigosamente, “de crise em crise” – se bem que não paguem o seu preço, que recai sobre os ombros dos empresários e do povo. Uma posição, de resto, bastante conveniente para quem deseja manter o poder, já que as “crises permanentes” permitem que se distribuam favores, incentivos, subsídios, sem prestar contas à Nação, sem levar em conta o custo social desses privilégios desses “remendos” eternizadores da miséria de milhões de brasileiros.
Assim, quando o presidente da Volkswagen pede que o Brasil imite o Japão, pode-se concordar e não concordar, ao mesmo tempo. Se ele diz que o Brasil precisa de planejamento, de uma política de longo prazo, da qual o esforço exportador seria apenas uma faceta, não há como não estar de acordo. Se ele está rezando pela cartilha do ministro do Planejamento (?), recomendando as eternas medidas mesquinhas e de alto custo social – como incentivos, subsídios, privilégios – às custas da Nação, não há como deixar de discordar dele.
SEGUNDA CONFUSÃO
Por confundirem causa (planejamento global) com efeito (crescimento das exportações), no caso japonês, os admiradores do Japão aceitam, tacitamente, que “a saída para o Brasil é exportar”.
Essa colocação é, mais uma vez, superficial – e fruto da confusão. Suponha-se que o Brasil resolvesse seguir o exemplo do Japão, no bom sentido, e partisse para o planejamento global, a longo prazo. Lógico que esse planejamento, por definição, teria que se basear nos problemas que afetam o Brasil e nas armas potenciais de que o País dispõe para enfrentá-los. Assim como pareceria insano que um técnico do governo japonês traçasse planos para seu país baseado nos problemas brasileiros, pode-se supor que o mesmo devesse ocorrer com os planejamentos brasileiros...
Surgem, a esta altura, as diferenças básicas entre Brasil e Japão, na área econômica, e que colocam em dúvida se o “esforço exportador” japonês é mesmo a saída para o Brasil:
O Japão é um arquipélago, sem terras para a produção de alimentos, sem matérias-primas (minérios, celulose, petróleo etc.) para sustentar sua economia: até areia o Japão tem importado, para a construção de prédios... Superpovoado e pobre em recursos naturais, o Japão seria, teoricamente, um país inviável, já que para alimentar seu povo ou abastecer sua indústria precisa importar tudo, literalmente. O Japão só se tornou viável – por razões que também não cabe analisar aqui – porque, tradicionalmente, se empenhou arduamente em exportar, para obter dólares e assim pagar suas importações. Atente-se bem: para o Japão, exportar sempre foi a única saída. A única forma de sobrevivência. É lógico que sua estratégia econômica se baseasse no esforço de exportar, ainda que com sacrifício, durante décadas, para seu povo.
E o Brasil? Qualquer pessoa de bom senso, mesmo que não goste de planejamento, pode concluir prontamente que a economia brasileira tem características exatamente opostas às do Japão. O Brasil é um país rico em recursos naturais: terras, minérios – e energia hidrelétrica, onde detém um potencial único no mundo ocidental. Com um planejamento correto, sua dependência das importações seria quase igual a zero, em comparação com o Japão. Logo, a necessidade de exportar também seria mínima, ao contrário do Japão. Como imitar o “modelo japonês”?
O Brasil deve imitar o Japão, partindo para o planejamento. Seu. Voltado para seu povo e seus empresários. E para sua soberania.