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  O fio da meada

Jornal Opinião , segunda-feira 29 de julho de 1974


Oswald de Andrade já sabia, e contava tudo em Marco Zero. O preto caiçara plantava seu arrozinho, comprava fiado na venda do turco, vinha a safra, pagava a dívida — ou deixava “para o ano”, se a colheita era ruim. Surgiu o japonês. Ofereceu financiamento, mandou assinar recibo. A safra foi ruim. O caiçara entregou sua terra em pagamento da dívida, e foi ser empregado do japonês. Nos anos 20.

Os gaúchos não sabiam. Vendiam sua lã aos turcos e armênios brasileiros dos lanifícios nacionais. Em 1973 surgiu a trading japonesa. Ofereceu preços incrivelmente altos pela lã. Comprou toda a produção. Fez fios de lã a preços incrivelmente baixos. Conseguiu o que queria: os lanifícios brasileiros não puderam mais vender seus produtos, pois tinham que pagar pela lã os mesmos altos preços que os japoneses, e não podiam cobrar pelo fio os mesmos baixos preços da trading japonesa. Também a trading estava sofrendo prejuízos, mas ela sabia o que queria, estava mesmo adotando uma política de dumping para arruinar os concorrentes. Veio 1974. As tradings japonesas continuam a manter o fio de lã a baixo preço. Os lanifícios brasileiros continuam sem poder comprar nada dos produtores. As tradings japonesas não compram nada dos produtores. O Rio Grande do Sul nada em um claro e sombrio mar de lã. Em julho de 1974.

Em julho de 1974, uma empresa multinacional é punida pela CACEX. Motivo: estava vendendo suco de laranja, brasileiro, a preços de dumping para arruinar três outras indústrias brasileiras concorrentes. Estava realmente atingindo seu objetivo, mas a este custo: redução na receita em dólares resultante da venda dos sucos e ruína de dezenas de milhares de citricultores, pois, diante dos baixos preços dos sucos no mercado internacional, as demais empresas tiveram que oferecer também preços baixíssimos pela laranja: a caixa, com mais de 20 dúzias, passou de Cr$ 12,00 para Cr$ 3,00. Objetivo a longo prazo da multinacional (a Citrosuco, controlada por grupos alemães): ficar no mercado como "única compradora", impondo baixos preços pelo resto dos tempos.

É lambem em julho de 1974 que a soja "dispara" no mercado norte-americano, e volta aos 250 dólares a tonelada, exatamente depois de já estarem vendidos praticamente 9/10 da safra brasileira, a preços abaixo dos 200 dólares. E às vésperas de começarem as exportações da safra — dos EUA.

Em julho de 1974, ainda, continuam paralisadas as exportações de milho, algodão — e café. O produtor de milho tem ofertas de Cr$ 20,00 pela saca do produto, cotado a Cr$ 40,00 no mercado internacional — e por isso mesmo recusa vender sua produção. Com a mamona, cujo óleo foi subitamente valorizado ante a crise do petróleo, o quadro não é diferente.

Benditas manobras internacionais, essas. Benditas, porque estão colocando a nu, em menos de um ano, a realidade de que muito se fugiu nos últimos anos. O mercado internacional de produtos e matérias-primas agrícolas é hoje um "negócio" mais importante que o falado petróleo. Dele, os EUA conseguiram arrancar dólares para salvar sua moeda. Dele, as trading companies japonesas arrancam a prosperidade sua – e de seu país.

Com um apertar da tecla de telex, o diretor de compra de uma trading pode arrasar dezenas de milhares de produtores de soja, ou de lã, ou de laranja, ou de algodão, ou de mamona. Roubar dólares de um país. Desorganizar a agricultura. Retardar o crescimento da economia.

Para atuar nessa selva de interesses, o Brasil vinha, ingenuamente, acreditando na possibilidade de deixar o crescimento do setor exportador entregue a um regime de liberdade e liberalidade total. A sede de lucros imediatistas por parte de organizações multinacionais comprometeu suas possibilidades, a longo prazo. As manobras do primeiro semestre deste ano revelaram a necessidade de organizar o setor exportador, assegurando-se seu controle não apenas por capitais nacionais — mas, também, por agentes que não visem a ganhos com a mera especulação nas cotações.

As cooperativas de produtores certamente ganharão um papel novo nesta nova fase, cabendo a elas formarem empresas de exportação, nos moldes das tradings, para acompanharem a evolução das cotações de seus produtos no exterior, e atuarem agressivamente no mercado, lutando contra manobras baixistas. Como representantes dos que permitam o planejamento da produção agrícola.

Além das cooperativas, outro agente ganhará um papel crescente nas trocas comerciais entre países. O próprio governo, através de tradings federais ou estaduais, tenderá a alargar sua atuação no setor.

Todo dia surgem projetos de investimentos "binacionais" ou "trinacionais", para exploração conjunta de um determinado setor econômico. Insistentemente aponta-se que o Brasil vem assumindo uma posição "subimperialista", ao procurar assegurar a eletricidade de Itaipu, ou o gás da Bolívia, ou o carvão da Colômbia, ou o cobre do Chile — materiais ou bens de que necessita — em troca de investimentos nesses países. No entanto, as acusações parecem ignorar que os projetos binacionais ou plurinacionais estão-se revelando uma tendência generalizada, com acordos semelhantes entre Argentina e Paraguai, Paraguai e México, México e Peru. Nesses acordos há, freqüentemente, uma “troca” de materiais, isto é, Brasil e México investem juntos, em território brasileiro, para produzir alumínio que será vendido ao México, e, simultaneamente, dentro do mesmo projeto, Brasil e México investem juntos, em território mexicano, para produzir fertilizantes que serão vendidos ao Brasil.

É evidente que essas “trocas” se concentram em bens considerados essenciais pelos governos de cada país. Não há “livre comércio” na acepção tradicional, mas “planejamento de trocas”, praticamente entre governos, exigindo a presença de organismos (ou tradings) estatais para conduzi-las. A tendência é um fenômeno mundial, de fácil explicação, correspondente ao quadro da economia internacional. Os países industrializados, atingidos em sua balança comercial pela crise do petróleo, impõem restrições às suas importações e, ao mesmo tempo, estabelecem preços sempre mais altos pelas máquinas e equipamentos que vendem aos países em desenvolvimento — em sua maioria também atingidos pelos gastos crescentes com petróleo. Esse quadro força os países em desenvolvimento a buscarem novos mercados e novos fornecedores entre seus próprios parceiros: explica-se assim que o Brasil "troque" alumínio por fosfato do Marrocos, hipoteticamente, em lugar de continuar comprando fertilizantes “sofisticados” dos EUA.

A crise do petróleo e as restrições ao comércio por parte dos países industrializados estão devolvendo o comércio internacional às suas origens milenares: o sistema de "trocas" substitui a moeda.

Paradoxalmente, isso pode ser um bem, um caminho para, no futuro, evitar as “sobras” e “excedentes” cíclicos de bens no mercado mundial — inclusive alimentos, cuja produção é periodicamente desestimulada pela queda de preços no mercado internacional, num mundo em que milhões morrem de fome.



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