Jornal Folha de S.Paulo , domingo 5 de setembro de 1982
Depois da Argentina, México e Cuba, outros países latino-americanos estão, às portas de renegociar sua divida externa: Bolívia, Equador, Honduras e, em menor escala, a Venezuela viram sua situação cambial agravar-se rapidamente, nas últimas semanas.
"A situação do Brasil, como afirma o governo, é bastante mais folgada, em termos de acúmulo de compromissos de curto prazo, do que a desses países. No entanto, a evolução dos acontecimentos está mostrando que a situação financeira internacional tende a tornar-se cada vez mais difícil, nestes próximos meses, atingindo também o Brasil. Ainda que o País não precise de uma ’renegociação’ de sua dívida, no sentido tradicional dessa expressão, não há dúvida de que o governo deveria preparar uma estratégia para ajustar a economia do País, reduzindo a sua atual dependência dos fatores externos. De posse desse plano, seria oportuno desenvolver conversações com os banqueiros internacionais para reduzir durante algum tempo, até que os ajustes fossem feitos – o peso que os compromissos da divida externa vem trazendo para a economia brasileira."
Coincidindo com a opinião predominante entre líderes empresariais e do sistema financeiro ouvidos anteriormente pela "Folha", a propósito da dívida externa, é essa, em síntese, a posição de Alain Belda, presidente da Alcoa do Brasil; Paulo Possas, vice-presidente da Corporação Bonfiglioli; e ainda de presidente de uma entidade empresarial que não deseja ser identificado. Mais otimista, Mário Garnero, presidente da Confederação Nacional da Indústria, defende reajustes na economia brasileira como forma de resolver, a médio prazo, os atuais problemas trazidos pelo endividamento externo — mas não atribui à situação cambial a gravidade entrevista por outros empresários.
Paulo Possas, também professor de Planejamento Estratégico, faz questão de frisar que foi mal-interpretado, em ocasiões anteriores, em que lhe atribuíram opinião favorável à renegociação da dívida externa. Dentro de sua especialidade, Possas se preocupa com análises globais e de longo prazo sobre a economia mundial, o capitalismo, as relações entre o 1° e o 3° Mundos. Nessas suas análises, o Ocidente caminha para uma grande crise, a menos que haja um reordenamento da ordem econômica mundial, um plano conjunto de desenvolvimento em que os paises ricos levem em conta os interesses e necessidades dos paises em desenvolvimento.
— Isto significa que o Brasil nada pode fazer, diante das perspectivas atuais, e deve ficar possivelmente à espera de uma mudança de mentalidade dos governos de países ricos?
— O que quero dizer é que acredito que a dívida externa brasileira realmente é bem administrada, com prazos de vencimento melhor distribuídos ao longo dos próximos anos, replica Possas. Em outras condições da economia mundial, o País poderia ficar tranqüilo. Mas, diante das aberrações surgidas no Exterior nos últimos anos, acredito que o Brasil precisa realmente realizar ajustes na sua economia, reduzindo a sua dependência externa com urgência, para não ser mais atingido pelas loucuras alheias.
“Os efeitos nefastos das loucuras alheias”
Entre as "loucuras alheias" e seus efeitos, Possas destaca a elevação dos juros internacionais, agravada pela política de Reagan, que desestimulou os investimentos (e, sem eles, o capitalismo entra em crise), agravou a situação dos países em desenvolvimento, alastrou a recessão: "Só um louco investe, num momento em que as aplicações financeiras rendem 16% (reais) ao ano, e as empresas oferecem um retorno de no máximo 6% ao ano", é uma das frases mais freqüentes em todas as análises do atual quadro internacional.
Possas é pessimista quanto às possibilidades de mudanças positivas no quadro mundial, em função da recente queda das taxas de juros nos EUA e no mercado internacional:
— Somente as taxas de curto prazo caíram nos EUA. As de médio prazo continuam elevadas. Qual o significado dessa contradição? É simples: a falência de bancos e grandes empresas levou o investidor a aplicar em títulos que lhe ofereçam maior garantia, isto é, as Letras do Tesouro norte-americano, permitindo a queda de suas taxas, a curto prazo.
Mas é um fenômeno passageiro, como pode ser visto na permanência de juros elevados nas aplicações de prazo maior.
O TEMOR DOS BANCOS
O presidente da Alcoa, Alain Belda, também teme que o Brasil sofra os efeitos das "loucuras alheias":
— Em nossos contatos com banqueiros internacionais verificamos que eles realmente confiam nas perspectivas do Brasil, sua capacidade de pagar os compromissos da dívida externa. Mas eles não podem deixar de ficar preocupados, diante do rápido agravamento da situação de um grande número de países, acelerando-se a deterioração do mercado financeiro internacional. Além do mais, os débitos da América Latina superam largamente as disponibilidades dos bancos norte-americanos, seus principais credores. Por isso, o Brasil poderá enfrentar dificuldades, nos próximos meses, para obter os recursos necessários à "rolagem" de sua dívida.
Belda ressalta que, infelizmente, o Brasil não pode “parar de pedalar”, isto é, tem que manter um ritmo de crescimento econômico para criar condições para o próprio pagamento dos compromissos da dívida. Ao mesmo tempo, porém, diz o presidente da Alcoa, o País precisa começar a criar condições para "respirar" no futuro – o que significa a adoção de uma política econômica clara, objetiva, de médio e longo prazos, e "que não temos".
Na própria área de exportações – essenciais para reduzir o ritmo de crescimento da dívida -, Belda aponta que o Brasil somente poderá aumentar seu poder de competição no Exterior aumentando a eficiência do funcionamento de suas empresas e de sua economia -"questão que desemboca, mais uma vez, na necessidade de uma política econômica definida".
O presidente da Alcoa condena a concessão indiscriminada de subsídios e incentivos, como forma de estimular as exportações ou em outras áreas da economia: "Há dez, quinze anos atrás, essa improvisação podia dar resultados, porque as dimensões da economia e dos negócios eram muitas vezes menores. Hoje, o próprio crescimento experimentado pela economia tornou esse caminho inviável; o governo, o Estado, não tem condições de suportar a imensa massa de subsídios nas mais diversas áreas.”
Na mesma linha de raciocínio, mas extremamente otimista, o presidente da Confederação Nacional da Indústria, Mário Garnero, afirma que as exportações brasileiras poderão crescer substancialmente a partir do momento em que o governo disponha de diretrizes econômicas para a área e para toda a economia.
Para Garnero, os subsídios à exportação deveriam ser concedidos de forma seletiva — "o MIC já vem realizando estudos nessa direção" —, isto é, eles seriam concentrados nos setores em que o País efetivamente tem condições de competir no Exterior:
— De nada adianta gastar recursos em incentivos à exportação de dezenas de milhares de produtos com pequeno poder de briga diante dos concorrentes, no mercado internacional.
Como desdobramento dessa orientação, Garnero defende a fabricação de produtos especialmente destinados ao mercado externo, ao contrário do que ocorre hoje, "quando as empresas tentam vender apenas os excedentes, o que sobra no mercado interno, ignorando as necessidades e características do mercado consumidor externo".
O presidente da CNI coloca ainda o combate à inflação — reduzindo-a para a faixa histórica de 20 a 25 pontos percentuais acima da inflação mundial – como uma prioridade nacional, inclusive do ponto de vista do esforço exportador: “Fala-se muito no estreitamento dos mercados externos. Mas é evidente que o Brasil vem perdendo para a concorrência também por causa da inflação galopante, que estoura todos os custos das empresas nacionais”.
Sempre preocupado com a melhor utilização de recursos, Garnero defende ainda que o Brasil concentre esforços também em matéria de mercados a conquistar. Para ele, a negligência em relação ao mercado dos EUA é incompreensível: “Se conquistássemos 1% desse mercado, isso significaria 2 bilhões de dólares em exportações por ano. Acho que o vulto dessas cifras justifica um esforço, inclusive político de maior aproximação com o governo dos EUA, para superar as dificuldades que vêm marcando as relações dos dois países, nos últimos tempos.”
Acreditando, finalmente que o Brasil deveria estabelecer planos para duplicar sua produção agrícola para 100 milhões de toneladas por ano, tornando-se o segundo maior exportador mundial nessa área, Garnero não vê motivos para o debate em torno da renegociação da dívida externa do País:
— A dívida existe, seus compromissos têm que ser honrados. Vamos fazê-lo através de políticas de austeridade e de diretrizes econômicas definidas, que permitam a utilização do imenso potencial do País. Isto será suficiente par manter a confiança que os banqueiros têm no Brasil.
A possibilidade de deterioração da situação financeira internacional afetar o Brasil é destacada por Garnero: “o Brasil continua a exigir que os empréstimos tenham um prazo mínimo de oito anos para pagamento, com 30 meses de carência. Isso significa que, antes de pensar em renegociação, o País poderia facilmente ter uma imensa quantidade de financiamentos, através de uma decisão simples se isso fosse necessário, frisa —: reduzir os prazos para seis anos, por exemplo.”