Jornal Diário da Manhã , quinta-feira 10 de novembro de 1983
Economistas, empresários, jornalistas saem correndo em defesa da Fundação Getúlio Vargas, ante o pedido, feito pelo ministro do Planejamento, para um reestudo dos índices da inflação de outubro. Infelizmente, mais uma vez fica patente o grau de desinformação e de preguiça que campeia neste País: como era previsível, coloca-se a FGV no altar, e xinga-se levianamente o ministro (que até pode ser xingado por outros motivos, muitos), a quem se acusa de querer forçar a Fundação a manipular os índices, para esconder a inflação. Também previsivelmente, por uma questão de “sofisticação”, passa-se a discutir se a “metodologia“, isto é, se as fórmulas de cálculo da Fundação são certas ou erradas, e se elas devem ser mudadas ou não. Esterilidade pura.
O que está em jogo é muito simples: é manipulação dos índices de outubro, mesmo. O DIÁRIO DA MANHÃ, que havia levantado a questão já há semanas, com base em suas pesquisas de preços, comprovou que a grande disparada dos preços do milho ocorreu entre o dia 5 e o dia 9 de setembro, quando o produto saltou de Cr$ 5.200,00 para Cr$ 10.000,00 a saca. De lá até hoje, o preço é o mesmo: Cr$ 10.000,00 a saca. Quer dizer, em outubro o milho teve uma alta igual a zero, ficou estável. A Fundação, no entanto, ao divulgar a inflação de outubro, afirmou que ela foi alta sobretudo por causa do milho, que teria subido 60% no atacado – em outubro. É falso, como as altas para outros alimentos no atacado, apuradas pela Fundação, também são falsas.
Qual a importância disso tudo? Não se trata de “apoiar” o ministro e “criticar” a Fundação, e vice-versa. O importante é isto: a Fundação falseou os dados da inflação de setembro, não incluindo no índice daquele mês toda a alta sofrida pelos preços dos alimentos. Quer dizer, em setembro, a inflação não foi de 12,8%, mas possivelmente de 17% ou 18%. Depois, a Fundação falseou os dados de outubro, incluindo neles a alta de preços ocorrida no mês anterior. Quer dizer: a inflação de outubro não foi de 13,3% mas de 8% a 9%.
Já que “tanto faz dar na cabeça como na cabeça dar”, como diziam os antigos, não estaria tudo certo, no final das contas, com a taxa de inflação de outubro compensando a de setembro? Não. Se a verdadeira taxa de setembro foi de 18%, e a de outubro de apenas 9%, o País está diante de uma drástica queda no ritmo inflacionário, que a sociedade continuou a ignorar, iludida pela alta taxa de 13,3% para outubro divulgada pela FGV.
Em poucas palavras: as manipulações da FGV (inaceitáveis, sob qualquer prisma) realimentaram o ambiente inflacionário, num momento em que era possível acelerar a queda da inflação, com imenso prejuízo ao país.