Jornal Folha de S.Paulo , quarta-feira 4 de novembro de 1981
Nem o Banco Central nem a Comissão de Valores Mobiliários - CVM adotarão qualquer medida em relação às Bolsas de Valores, "deixando que o mercado siga seu próprio curso". Essa decisão, segundo uma autoridade da área monetária, foi adotada durante reunião realizada sexta-feira última no Rio de Janeiro, com a presença do ministro da Fazenda, Emane Galveas, e do presidente do Banco Central, Carlos Langoni.
A posição oficial do governo foi assumida com base em explicações dos representantes da CVM, que exibiram toda a correspondência trocada entre esse órgão, encarregado de evitar distorções no mercado, e a direção da Bolsa de Valores do Rio, a propósito do funcionamento do mercado a futuro, foco dos problemas atuais nas Bolsas.
Ficou claro às autoridades que, desde o começo do ano, a CVM advertiu a Bolsa do Rio contra os riscos representados pelas excessivas facilidades oferecidas para as operações a futuro. A todas as observações da CVM, a Bolsa do Rio sempre respondeu que cabia a ela determinar as normas de funcionamento do mercado, dentro dos princípios de "auto-regulação" e não intervenção do governo nas áreas confiadas à iniciativas privada. Assim, a Bolsa do Rio não apenas rejeitou a proposta inicial da CVM, para que a margem (depósito) para os negócios a futuro fosse de 33% (a Bolsa a fixou em apenas 10%), do valor das operações, como se recusou a reajustá-la ou a adotar outras medidas contra o poder de manipulação de grandes aplicadores — mesmo quando o mercado já dava mostras de caminhar para uma "corrida":
— O governo, diz aquela autoridade monetária, chegou à conclusão de que qualquer medida que tomasse, mesmo para amenizar os problemas surgidos, seria utilizada contra ele próprio, governo. Mais claramente, se sobreviesse uma queda no mercado — como conseqüência natural da própria evolução dos acontecimentos —, a Bolsa do Rio tentaria transformar o governo em "bode expiatório", afirmando que a queda se devera à intranqüilidade gerada por sua eventual intervenção. O governo chegou à conclusão que não tem sentido repetir a mesma história de sempre, com o mercado invocando a "auto regulação" quando lhe interessa, nas teses de alta, e provocando a intervenção do Estado, quando surgem os problemas — para, ainda por cima, atribuir quaisquer conseqüências maléficas a essa intervenção.
A mesma autoridade monetária desmente veementemente que a injeção de dinheiro feita no "open" nos últimos dias pelo Banco Central seja uma forma indireta de tentar "socorrer” as Bolsas de Valores, diante dos problemas do mercado a futuro:
— Não haverá, repetimos, interferências diretas ou indiretas na evolução do mercado. Qualquer pessoa pode consultar as estatísticas e verificar que o Banco Central sempre injeta dinheiro no open, nos primeiros dez dias do mês, pois é uma fase em que o mercado e a própria economia precisam de mais recursos (por causa do pagamento dos salários pelas empresas, por exemplo). Não há nada de excepcional, portanto, na liquidez provocada pelo Banco Central no “open", nestes últimos dias: não seria justamente agora, no mês de dezembro, em que a procura por crédito aumenta — para pagamento do 13º salário, por exemplo —, que iríamos abandonar esse procedimento. Mas a quantidade de recursos injetados obedecerá exatamente às necessidades previsíveis da economia, sem nenhuma preocupação em aliviar as Bolsas.