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  Façam o jogo, senhores: recomeçou a especulação

Jornal Gazeta Mercantil , quarta-feira 4 de fevereiro de 1976


Numa economia viciada em inflação, e, mais ainda, viciada em ganhos fáceis, mal o governo corrige um foco de especulação, surge outro – prejudicando as empresas, o crescimento econômico, o país – e ameaçando a tranqüilidade social. É o que já começa a acontecer de novo no Brasil, nas barbas dos planejadores oficiais, que só vão acordar para o fenômeno – isto, se conseguirem livrar-se das “teorias” – daqui a uns meses, quando o país já tiver sofrido prejuízos irreparáveis.

Tão irreparáveis como os “rombos” provocados na economia pelos “open market”, sobre os quais se advertiu em 1973, 1974 e 1975 e que somente agora, três anos depois, são reconhecidos unanimemente – até pelos planejadores oficias. Tão irreparáveis como os “rombos” na balança comercial, resultantes da estocagem desenfreada de matérias-primas e “desova” de estoques das multinacionais, para os quais se chamou a atenção já em 1974 e que só provocaram medidas eficientes no apagar das luzes de 1975 - quando bilhões de dólares haviam sido desperdiçados, exigindo remédios drásticos que antes não seriam necessários: tumultuando a vida econômica do país com nova alta desenfreada de matérias-primas, como agora se observa, e que é negado pelos escalões governamentais.

Revisto o “open”, há um novo foco de especulação na economia brasileira: o mercado imobiliário. Especulação alimentada deliberadamente por um “lobby”. Ou especulação alimentada passivamente, pela negligência de áreas oficiais.

CICLO REPETIDO
Não é preciso ser economista. Qualquer observador que tenha acompanhado a vida do país nos últimos anos sabe que a especulação se desloca periodicamente de uma área para outra da economia, desorganizando-a. Ora há o “boom” na Bolsa (quase provocando um “encilhamento”), ora a alta dos preços das terras agrícolas (encarecendo a produção e tirando o poder de competição dos produtos brasileiros no exterior), ora a “explosão” das letras de câmbio, ora os estoques com matérias-primas, ora a “corrida” para o open, ora os imóveis de luxo.

Há quem alimente deliberadamente essa especulação (esse é apenas um dos fatores para que ela exista, frise-se): poderosos “lobbies” encontram porta-vozes na imprensa a ponto de – quem tem memória se lembrar ter-se visto o caso de um jornal diário do Rio onde “a Bolsa não caía nunca”.

Agora, o “lobby” é para puxar os preços dos imóveis: terras, casas ou edifícios. Com alguma antena, esse “lobby” poderia ter sido detectado já há algum temo, pois age com certo despudor: uma notícia sobre a alta dos preços dos materiais de construção, por exemplo, não é interpretada por seus porta-vozes como uma tendência contrária aos interesses da coletividade. Não: é ressaltado que isso é “vantajoso” para os compradores de imóveis, pois eles se valorizarão com a inflação.

Ontem, um porta-voz do “lobby” afirmava, sob o título “imóveis têm preços em alta e vendas crescem até maio”, coisas deste tipo: “a maior procura continua a ser por apartamento de até dois quartos, na Zona Sul (do Rio), com revendas (sic) ocorrendo no espaço de algumas horas (sic), registrando-se inclusive, leilões (sic, textualmente) quando mais de dois pretendentes ao imóvel são recebidos no mesmo horário pelo proprietário”.

“PUXADAS”, OUTRA VEZ
Há, assim, um claro “incitamento” à compra de imóveis – não como um fator de reativação da indústria da construção civil, o que seria saudável, mas como “jogo especulativo”. Da mesma forma que se criou um clima falso, de ganho fácil e rápido na Bolsa, em 1971/1972, apregoa-se agora, a possibilidade de ganhos mirabolantes com imóveis, sendo fácil prever as conseqüências de uma corrida para o setor.

Alguma dúvida de que esse incitamento exista? Diz o mesmo noticiário: “- Com uma inflação de 30% ao ano, qualquer imóvel tem que se valorizar pelo menos 60% - diz o empresário Mauro Magalhães.

“Para ele – prossegue a análise -, que comprou um terreno por Cr$ 150 mil e em pouco mais de um ano recebeu oferta de Cr$ 1 milhão 200 mil, construir e correr os riscos do mercado deixa de ser interessante (sic) no momento em que a simples valorização dos terrenos urbanos oferece a mesma rentabilidade”.

SOFISTICAÇÃO, OUTRA VEZ
Invocando o nome da economia de mercado, cometem-se crimes contra a economia de mercado, no Brasil. Quem tem memória, vai se lembrar que em 1972 e 1973 houve louca corrida (também) para os imóveis de luxo no Rio e São Paulo, época caracterizada pelos loucos ufanismos tipo “um terreno em Ipanema está valendo mais que um terreno em Wall Street”. E depois? Em 1974, o setor de construção entrou em crise, simplesmente porque havia comprado terrenos e sonegado imóveis com fins especulativos, “puxando” tanto seus preços que, a partir de certo ponto não havia quem os pudesse comprar, a menos que fosse para construir apartamentos de custo altíssimo, que não teriam compradores.

Na análise dessa crise, evitou-se cuidadosamente a palavra especulação, para afirmar que o setor tinha realizado uma “estocagem” de terrenos e imóveis, e agora estava com falta de capital de giro. Sofisticações...

Pelo visto, o setor dedica-se novamente à saudável tarefa de estocar terrenos, como revela o sr. Mauro Magalhães, mas não para construir e sim para revender. Uma saudável atividade, evidentemente.

QUEM PAGA
É um sofisma a afirmação generalizada de que, em uma economia de mercado, não se pode conter a especulação – pois era isso que se dizia em relação ao “open” até que, agora, vai-se discipliná-lo (isto é administrar, que é o papel presumido das autoridades monetárias). O que é preciso ser entendido por todos, pelo empresário ou pelo cidadão comum, é que essas “ondas especulativas” que periodicamente desorganizam a economia brasileira, são alimentadas pela ação ou omissão oficial.

Como? É fácil entender: as “especulações cíclicas” no Brasil não são feitas preponderantemente – atente-se – com recursos próprios dos especuladores. Ela é alimentada com o crédito, oficial ou privado. Quando o BNH ou as Caixas Econômicas “soltam as rédeas” do crédito, é aquela festança entre os incorporadores (que, como diz o sr. Mauro Magalhães, não querem incorporar ou construir, mas estocar terrenos). Quando o crédito é farto para as grandes empresas, ainda que falte para o pequeno e médio empresário, é grande a corrida à estocagem de matérias-primas, ao “open”, à especulação imobiliária.

Atenção: para combater esses “ciclos especulativos”, o país não precisa “apertar” o crédito, ou combater a poupança. Em seus tempos de assessor da Confederação Nacional da Indústria, o ministro da Fazenda defendia o crédito seletivo. É disso que o país precisa: crédito amplo, mas destinado às empresas que produzem. Não, à especulação ou à estocagem, a até de terrenos, para fins de revenda.



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