Jornal Diário Popular , segunda-feira 18 de janeiro de 1999
O governo deu uma série de vantagens lucrativas para os bancos, fingindo que o objetivo era a redução dos juros para os trabalhadores, classe média e empresários. Na verdade, as decisões, mais uma vez, vão apenas aumentar os lucros dos bancos, como esta coluna mostrou ontem. O próprio Banco Central repete os argumentos falsos dos banqueiros, e diz que os juros não podem cair já principalmente por causa da alta inadimplência, isto é, os pagamentos em atraso. Os pobrezinhos dos banqueiros, diz o governo FHC/Fraga, são obrigados a cobrar juros altos devido a esses criminosos, os consumidores, que tomam empréstimos, gastam utilizando o cheque especial ou os cartões, e não pagam suas dívidas. Bancos e o Banco Central deveriam ser até interpelados na Justiça para comprovarem suas acusações contra o cidadão brasileiro, principalmente sobre estes pontos:
Margem de lucro – o próprio Banco Central divulgou, junto com o pacote, a informação de que os bancos gastam, “na média” (atenção para essa expressãozinha malandra) 1,67% ao mês, para captar o dinheiro do público, isto é, atrair dinheiro de depósitos, que saem de graça para eles, aplicações em títulos como os certificados de depósito a prazo, que mal pagam 1,0% ao mês, etc. Isto é, o próprio Banco Central diz que o dinheiro é obtido de graça, ou praticamente de graça, pelos bancos. E o próprio Banco Central diz que o “lucro” (ou spread) dos bancos é, na média, de 6,8% acima daqueles 1,67%.
Inadimplência – ainda agora, na divulgação do pacote, técnicos do Banco Central elaboraram estudo que desmascara o governo. Eles lembram que os juros são malucos também no cheque especial, que somente é concedido a clientes com “cadastro limpo”, selecionados e que ao menor deslize perdem a possibilidade de continuar usando esse crédito. Por isso, dizem os técnicos do BC, não há possibilidade de inadimplência elevada. Logo, os juros altos não se justificam.
Criminosos – o Banco Central tem o dever moral de revelar os dados sobre inadimplência, banco por banco (não é preciso dizer seus nomes, basta dar um número para cada um). Razão dessa exigência? Para evitar que o Banco Central venha com o truque de divulgar só a “média” do índice de inadimplência que, como toda média, é sempre enganosa. Basta existirem dois ou três bancos, ou duas ou três financeiras com inadimplência nas nuvens para “puxarem” a média para cima. De dois anos para cá, todo mundo viu certos bancos e financeiras oferecerem crédito até em quiosques, até em estações de metrô – a taxas indecentes de 13% ao mês, 300% ao ano. Era previsível que grande parcela dos “clientes” não pudessem honrar seus compromissos. Perguntas: essa oferta de crédito não foi literalmente um crime contra a economia popular? Por que o Banco Central a tolerou? As taxas de inadimplências nessas instituições são iguais às do restante do setor? Todos os bancos podem continuar cobrando juros escorchantes a pretexto de compensar a inadimplência?