[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto
data
veiculo
tema
Palavra-chave
Voltar

  Desemprego, esse grande equívoco

Revista da Fenae , abril de 1998


Neste país de modismos chamado Brasil, o debate sobre o desemprego não está conseguindo escapar da regra geral: ele também está tomando rumos equivocados, impedindo que a sociedade encontre soluções. Afirma-se que "o desemprego é inevitável, diante da modernização e conseqüente avanço no uso da tecnologia". E proclama-se ainda, como fez o presidente Fernando Henrique Cardoso, que a criação de empregos "depende de investimentos", isto é, de gastos com a construção de fábricas, usinas, rodovias, aberturas de minas, etc. Em resumo: adia-se uma possível solução para o dia-de-são-nunca, fortalece-se a sensação de impotência dos brasileiros diante de um "problema mundial". A realidade é bem outra. O diagnóstico foi feito às avessas. As taxas de desemprego no Brasil poderiam recuar, e recuar rapidamente, com políticas sensatas.

Investimento, equívoco - O presidente FHC aponta a necessidade de investimentos, recursos. No entanto, esse diagnóstico - como aconteceu na recessão do começo dos anos 80 - ignora um dado fundamental: em épocas normais, para criar vagas no mercado de trabalho, realmente é necessário construir novas fábricas, usinas, etc. No Brasil de hoje, porém, o problema é inverso: as fábricas, usinas etc. já existem, as máquinas já existem - o que falta, exatamente, são empregarem centenas de milhares de pessoas (400 mil demissões somente na indústria, desde o Real). Para reduzir, e reduzir imediatamente, o desemprego no Brasil. Portanto, basta atacar a real origem dos problemas, a saber: criar consumo para a produção local. Aqui, desemboca-se mais uma vez nas verdadeiras raízes da crise nacional: a economia segue rolando ladeira abaixo porque o poder aquisitivo do povo brasileiro está sendo destruído, há anos, por uma política suicida.

Escancaramento às importações, conseqüente desemprego, achatamento de salários", congelamento dos ganhos do funcionalismo, abandono da agricultura (na hora da comercialização, sobretudo) são fenômenos que se realimentam, derrubam o consumo e a produção, montando um quadro recessivo. Tudo, reforçado ainda pela manutenção de taxas de juros abusivas para o consumidor e clientes dos bancos (cheques especiais, cartões de crédito etc.), verdadeiro "confisco" da renda das famílias.

Traçado esse diagnóstico, fica claro que a questão do desemprego poderia ser atacada de imediato, com a reversão das diretrizes que o governo tem adotado. Aumentar as tarifas de importação de alguns produtos, que foram exageradamente rebaixadas pelo governo, estimularia a indústria local e reabriria vagas no exterior. Garantir preços adequados ao agricultor, na comercialização da atual safra, tirando-os das mãos dos intermediários, aumentaria a renda no interior do país, criando mercado também para os produtos industriais. Mais vendas, mais empregos, mais salários em determinados setores significariam efeitos multiplicadores sobre toda a economia, reativando-se a produção e os negócios.

É óbvio que, paralelamente, novos investimentos também teriam efeitos sobre a economia. Teriam, entenda-se bem, se o governo não cometesse novos erros. Desgraçadamente, eles são a constante. Nos últimos dois anos, o país faz gastos - e não "investimentos" - maciços no setor de energia e telecomunicações. Mas, como já se apontou aqui nesta coluna, os projetos e obras nesses setores estão sendo tocados também com equipamentos, peças, componentes e até matérias-primas importados. Não representam "investimentos" impulsionadores da economia, porque não estão criando encomendas, produção, salários, dentro do Brasil. No caso das telecomunicações, a entidade que representa a indústria de peças e componentes pediu ao governo que haja o uso obrigatório de um volume mínimo de produtos nacionais.

No começo do mês de março, surgiu o anteprojeto do governo atendendo aparentemente essa reivindicação. Por que "aparentemente"? O índice de obrigatoriedade sugerido está entre míseros 5% e 10% de peças nacionais. Ridículo. A indústria nacional continuará a ser massacrada. Os empregos continuarão a ser criados lá fora, no país-matriz.



Acompanhar a vida do site RSS 2.0 | Mapa do site | Administração | SPIP Esta obra está licenciada sob uma Licença CreativCommons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil