Jornal Folha de S.Paulo , domingo 3 de abril de 1983
A sociedade brasileira está diante de mais dois "mistérios": um gigantesco estouro no crédito rural, aquele mesmo que costuma ser desviado para a especulação financeira, e o desaparecimento do gigantesco estoque de carne, nada menos de 260 mil toneladas que deveriam evitar a alta de preços do produto, e sumiram. Os mistérios, claro, são só aparentes.
Para quem conhece o grau de fraudes, favoritismos, conivência que o Brasil atingiu na área da economia, é fácil decifrá-los.
Crédito Rural
O diretor do Banco Central, José Kleber Leite de Castro, anunciou na última semana que, em fevereiro, os bancos comerciais destinaram nada menos de Cr$ 375 bilhões ao crédito rural, ou Cr$ 100 bilhões acima do que a lei os obriga, pretensamente em empréstimos a agricultores. Na quase totalidade (Cr$ 350 bilhões) esse rio de dinheiro teria ido para o custeio, isto é, o preparo de terras, plantios culturais. Os números são um mistério: a época de plantio, no Centro-Sul, que responde pela quase totalidade das safras brasileiras, ocorre no último trimestre do ano (safra das águas).
Para onde estaria indo a dinheirama, emprestada a apenas 35% a 60% ao ano, com a diferença entre esta taxa e a inflação paga pelo Tesouro? Só em janeiro e fevereiro os bancos "destinaram" Cr$ 553 bilhões ao crédito rural. Isso é a metade do Cr$ 1 trilhão que deveriam aplicar no ano todo, com desembolsos maiores evidentemente, no final do ano, na época do plantio. Será que esse dinheiro a 35% ao ano está sendo aplicado na compra de títulos, a 130% ao ano, com bancos e aplicadores rachando os lucros?
No final do ano passado, quando a "Folha" deu destaque a declarações sobre volumosos desvios no crédito rural, o Banco Central, o Ministério da Agricultura e quejandos prontamente desmentiram. Poucos dias depois, admitia-se que as irregularidades realmente existiam.
No ano passado, quando as denúncias surgiram, as portas já estavam arrombadas, o máximo que se podia fazer era punir os responsáveis pela fraude. Este ano, não. É preciso investigar o que está ocorrendo, rapidamente, e cortar o mal pela raiz. O combate às fraudes não é apenas uma questão moral, como muita gente pensa. Não. Acontece que as fraudes, o amoralismo, sangram o Tesouro (via subsídios aos especuladores), provocam inflação (ante a perda do controle na política monetária), elevam os juros nas outras áreas na economia (em que se alega existir falta de crédito) e assim por diante. É preciso entender de uma vez por todas que a visão, corrente no Brasil, de que "especulação" e "fraude" são sinônimo de "esperteza", "sorte de quem pode", ignora que elas trazem prejuízos imensos à economia e ao povo. O país todo paga por elas.
O caso da carne
Desde 1974, o governo, através da Cobal, comprava gado na época da safra, do boi gordo, encarregando os frigoríficos de abatê-lo e estocar a carne resultante, através de congelamento. Ganhava o produtor, que tinha um preço mínimo garantido pelo governo na fase de oferta excessiva (safra, estação das águas), e ganhava o consumidor, pois a carne estocada era vendida a preços controlados pelo governo, na entressafra (seca), quando o gado emagrece e não vale a pena abatê-lo. No ano passado, mudou o esquema: atendendo aos grandes grupos, o governo deu o dinheiro aos frigoríficos, para que eles próprios comprassem o gado e estocassem a carne: dinheiro suficiente para estocar 260 mil toneladas.
Agora, os preços da carne começaram a subir, o governo resolveu que os estoques deveriam começar a ser vendidos. Resposta dos frigoríficos: não há estoques. Só 3 mil toneladas. O que foi feito das 257 mil toneladas restantes? O consumidor comeu? Mas como? Os frigoríficos não vivem dizendo que o consumo caiu 30% em 1982? Ainda há um mês atrás, eles não afirmavam que a situação estava tão ruim, tão ruim, que os governos estaduais deviam reduzir os impostos (ICM) que o setor pagava, para baratear a carne e aumentar o consumo?
Se os frigoríficos não fizeram os estoques, vão ser punidos por terem usado o dinheiro subsidiado do Tesouro com outros fins, especulativos? E se alegarem que exportaram, vão ser perdoados?
Nesse grande mistério dos estoques "evaporados", há outro "mistério" para intrigar o povo: o que faziam a Cobal, o Ministério da Agricultura, a Cacex, o Banco Central, os ministros, o governo durante esses meses todos? Não sabiam que os estoques não estavam sendo formados, ou que o dinheiro estava sendo desviado, ou o produto exportado? Impossível acreditar. Então, não se diz que os ministros e assessores são competentes, dedicados, aplicados? Se o são, sabiam de tudo. Nesse caso, o que teria havido? Conivência?
O povo é que não pode pagar por mais esse "arrombamento de porta". A carne uruguaia, a carne argentina estão muito mais baratas que o produto vendido no Brasil. Se a escassez foi provocada por fraudes, que se importe, agora, para conter os preços. Sem prejuízo de punição aos fraudadores. E, quem sabe, aos coniventes com os "arrombadores de portas".