Jornal Folha de S.Paulo , segunda-feira 9 de agosto de 1982
A dívida externa brasileira deverà chegar a 75 bilhões de dólares no final deste ano, com um salto de 20% sobre o total de 61,4 bilhões de dólares registrado no final de 1981, superando largamente as previsões de um aumento inferior a 15%, feitas pelo governo no começo do ano. Em lugar de crescer 9 bilhões de dólares, a dívida externa terà então engordado em mais 13 bilhões de dólares, em 1982.
Além desses compromissos reconhecidos como "dívida externa" pelo governo brasileiro, o Brasil devia ainda mais 12,9 bilhões de dólares no final de 1981, como débitos de curto prazo, isto é, para pagamento no prazo máximo de um ano — e que por isso não são incluídos na "dívida oficial". Mesmo que esses compromissos a curto prazo não sofram nenhum acréscimo em 1982, a soma entre eles e a dívida oficial revelará um débito total de quase 88 bilhões de dólares para o Brasil, no final deste ano.
O rápido agravamento da situação cambial do País vinha sendo apontado, hà meses, por economistas e líderes empresariais que sugerem a renegociação da dívida externa — sem que o governo admitisse oficialmente a extensão do problema. Nas últimas semanas, contudo, o tema tem provocado preocupação crescente em àreas oficiais ou paraoficiais, com a circulação de relatórios reservados e estudos em que se discute, exaustivamente, as alternativas de que o Brasil dispõe para enfrentar a deterioração de suas contas externas. Aponta-se, nesses estudos, que o Brasil està extremamente vulneràvel diante dos problemas que vêm atingindo a economia mundial, com nímero crescente de países enfrentando a impossibilidade de continuar pagando seus compromissos externos — o que leva os banqueiros a uma cautela cada vez maior, na concessão de novos empréstimos. As ameaças à segurança do País, nessa àrea, são reforçadas pelo tamanho da dívida de curto prazo, apresentada, como aponta uma dessas anàlises, por "compromissos a serem pagos dentro de um ano se não houver renovação dos créditos. Em uma situação de crise de liquidez (internacional) estas linhas de crédito podem não ser renovadas... e se essa dívida for multo elevada, o País ver-se-a impossibilitado de fazer frente a seus compromissos externos".
O AGRAVAMENTO
No começo deste ano, os ministros da àrea econômica divulgaram projeções de longo prazo — até 1990 — para a evolução da dívida externa brasileira. Considerava-se, nessas estimativas, que ela ainda cresceria no màximo à taxa de 15% em 1982, mas iria reduzindo gradativamente o seu ritmo de expansão, ano a ano, evoluindo finalmente a 10% ou 11% ao ano.
Tais projeções, otimistas, se baseavam em análises, também otimistas, dos técnicos oficiais, para as àreas de exportações e investimentos estrangeiros., bem como para o nível dos juros internacionais. Nenhuma dessas estimativas se confirmou no primeiro semestre, e não há perspectivas de mudanças bruscas no quadro, pois elas dependeriam fundamentalmente da reativação da economia mundial — e solução dos problemas dos países, como o Brasil, em dificuldades para pagar seus compromissos externos.
Assim, dentro das condições atuais, e com base nos resultados do primeiro semestre, pode-se prever que a dívida externa brasileira crescerá 13 bilhões de dólares, e não 9 bilhões como estava previsto. É importante entender que esse problema não aparecerá apenas no final do ano: na verdade, como os ingressos de dólares têm sido inferiores às estimativas, e as saldas têm sido maiores do que se esperava, é evidente que o governo jà vem enfrentando problemas espinhosos, na administração das contas externas.
Ponto por ponto, eis o atual quadro da dívida externa do País: * Balança comercial — previu-se inicialmente um saldo de 3 bilhões de dólares, isto é, as exportações superariam as importações em 3 bilhões de dólares. Pode-se supor que havia esperança de um saldo de 1,5 bilhão de dólares a cada semestre. De janeiro a junho, ele foi de apenas 250 milhões de dólares, isto é, o governo contou com 1,2 bilhão de dólares a menos para atender aos compromissos externos. A estimativa de um superàvit de 3 bilhões de dólares foi revista para um bilhão de dólares, que ainda pode ser considerada otimista já que as exportações brasileiras estão caindo cada vez mais, num mercado mundial cada vez mais difícil: até março, seu recuo havia sido de 4,4%: em junho, a queda em relação ao primeiro semestre de 1981 Jà subia a 8.5%.
* Investimentos estrangeiros — o relatório semestral do Banco Central fornece os dados relativos apenas ao período de janeiro a março de 1982. Isto é, ao primeiro trimestre do ano. O resultado é ultradecepcionante: a entrada de capitais estrangeiros teria alcançado apenas 500 milhões de dólares e, como empresas brasileiras investiram no exterior (Banco do Brasil, basicamente), houve ainda uma salda de 200 milhões de dólares. Assim, no trimestre, o saldo de investimentos externos foi de apenas 300 milhões de dólares. Mesmo que nos outros três trimestres a entrada de capitais se mantivesse em 500 milhões de dólares, as saldas caíssem para 100 milhões de dólares, o saldo seria de 400 milhões por trimestre, ou 1,2 bilhão em nove meses que, somados aos 300 milhões do primeiro trimestre, totalizariam 1,5 bilhão de dólares. Melo bilhão de dólares abaixo dos 2 bilhões previstos — e bem longe dos 3 bilhões a que ministros da área econômica fazem menção freqüentemente. Estaria ai um rombo de 500 milhões de dólares, em relação à estimativa oficial — e que na pràtica deve ser multo maior. Por quê ? Porque os 300 milhões "Investidos" no primeiro trimestre nem sempre representaram "entrada" real de dólares: nessa cifra, està englobado também o valor de relnvestlmentos, isto é, reapllcação de lucros (em cruzeiros) obtlos por multinacionais que operam no Brasil.
* Juros — previa-se que o País gastaria 9,5 bilhões de dólares, este ano, no pagamento de Juros. No primeiro semestre, houve um "estouro" de um bilhão de dólares. As taxas de juros internacionais (Ubor) caíram em Julho, mas esse nível mais baixo somente será cobrado a partir da renovação de cada contrato de financiamento (o que ocorre a cada seis meses). Assim, ainda neste segundo semestre os empréstimos ao Brasil estarão rendendo os mesmos juros elevados da primeira metade do ano. Na melhor das hipóteses, o estouro do segundo semestre serà de 500 milhões de dólares, que, somado à despesa extra de um bilhão na primeira metade do ano, representarão uma salda imprevista de mais 1,5 bilhão de dólares.
Somando-se a redução do superávit da balança comercial ao aumento na salda de dólares via juros (e mesmo que as demais despesas nao cresçam), tem-se uma diferença de 4 bilhões de dólares, sobre o aumento de 9 bilhões de dólares inicialmente previstos para a dívida externa brasileira em 1982, totalizando o crescimento de 13 bilhões no endívidamento externo do País.
SEM RESERVAS
Além de precisar de 13 bilhões de dólares em novos empréstimos para cobrir esse rombo, o Brasil necessitaria levantar mais 8 bilhões de dólares, no transcorrer do ano, para pagar as amortizações (prestações) da dívida antiga.
Total de dinheiro que o Brasil precisa conseguir no Exterior em 82: 21 bilhões de dólares. Uma cifra ainda mais preocupante porque o nível das reservas cambiais brasileiras — que poderiam ser utilizadas em situações de emergência, para salvar compromissos — estão ao baixo nível de 6,9 bilhões de dólares, segundo o governo.