Revista Isto É , quarta-feira 6 de junho de 1979
Com Simonsen, a redescoberta de velho dilema
O ministro Simonsen divide o mundo em pessoas oníricas, isto é, sonhadoras, e pragmáticas. Os oníricos pensam que podem melhorar a situação dos povos através de propostas simples, ingênuas. Os pragmáticos consideram que a realidade é a realidade, imutável diante das teorias. Em sua fala no Congresso, o ministro Simonsen diz que "boas safras agrícolas podem ser o caminho para que a inflação baixe". Com um adendo: "Desde que, concomitantemente, se mantenha a demanda (de alimentos) sob controle". Eis aí o pensamento pragmático que caracteriza os economistas/tecnocratas. Em português claro, o ministro está dizendo que os preços dos alimentos podem cair, desde que não se permita que dezenas de milhões de brasileiros passem a comer, pois isso aumentaria a demanda de alimentos. É preciso, então, manter "a demanda sob controle". Como isso é feito? Através de medidas que impeçam o aumento do poder de compra das faixas mais pobres da população – já que são elas que mal comem há séculos e que, com mais dinheiro nas mãos, certamente passariam a fazê-lo. Um abuso.
SEM MÁSCARA
O país precisa aprender, de uma vez por todas, a enxergar qual o mundo real que existe por detrás da linguagem dos economistas/tecnocratas. Aí entenderá que, na realidade, evitar que milhões de brasileiros permaneçam na situação de miséria atual não é um problema incontornável. Mas uma opção de política econômica. Assim, quando o governo Figueiredo aceitou os argumentos de Simonsen para reajustar em apenas 45% o salário mínimo, estava agindo pragmaticamente. O problema que um aumento maior poderia trazer à economia não era, apenas, uma questão de aumentar os custos das empresas. Não. O problema é que ele poderia fazer o pobre querer comer. Aumentaria a demanda de alimentos. E, pragmaticamente, é preciso mantê-la sob controle. Quando as opções de política econômica são analisadas com clareza, colocando-se de lado o linguajar abstrato, não se pode deixar de ver que o comportamento tecnocrático é muito mais chocante do que estamos habituados a acreditar. A miséria absoluta para milhões não é uma "etapa" no processo de crescimento. É uma opção fria, pragmática, para que a "economia funcione bem" para quem já é privilegiado. No caso dos alimentos, "controlar a demanda" significa, para quem leva seu raciocínio às últimas consequências, impedir que milhões comam – para que as faixas da população com renda mais alta possam comprar alimentos mais baratos.
MUITO PRAGMATISMO.
Em 1969, décimo aniversário da Sudene, o trabalho de um tecnocrata do órgão fazia uma avaliação de longo prazo sobre a evolução do mercado de trabalho na região. Sua conclusão: "A curva de oferta de mão-de-obra deverá cruzar a curva de oferta de trabalho por volta de 1990". O que essa análise pragmática queria dizer no mundo paradoxalmente real dos oníricos? Que só daí a vinte anos a oferta de empregos no Nordeste seria igual à oferta de mão-de-obra que chegava ao mercado. Ou, melhor ainda: se 1 milhão de nordestinos chegasse à idade de trabalhar, em 1990, haveria à sua espera 1 milhão de empregos. O pragmático tecnocrata não se preocupava com os 15 ou 20 milhões de nordestinos que, nesses vinte anos, não teriam encontrado emprego, continuariam na situação de subempregados ou desempregados, rolando pelas favelas e mocambos. O desencontro das “curvas” de oferta e procura de mão-de-obra durante vinte anos em resumo, significava, no mundo real que pelo menos duas gerações de nordestinos continuariam a morrer como moscas, a produzir legiões de subnutridos, estropiados, Severinos. Uma condenação fria. Porque, no mundo pragmático, no mundo econométrico, as curvas e índices é que importam.
SEM DISFARCE.
O ponto máximo da mentalidade pragmática, no Brasil, foi evidentemente atingido com o autor do "milagre", o ministro Delfim Netto — que, como Simonsen, também usava largamente a expressão "ingênua" em relação a qualquer proposta de maior atenção a milhões de brasileiros — e menor aos índices. Pragmaticamente, Delfim Netto resolveu fazer a economia funcionar. Optou pela concentração da renda, pelos benefícios às grandes empresas, aos conglomerados financeiros, pelos investimentos maciços no rico São Paulo, porque com isso as taxas de crescimento, as curvas de crescimento, apresentariam uma evolução mais rápida. Pragmaticamente, ignorou-se o que significam, no mundo real, maiores índices de mortalidade infantil, de desemprego, de miséria absoluta. Uma opção. Pragmática. Distante das propostas dos oníricos — mesmo porque, para milhões de brasileiros, a opção foi um pesadelo.
EM TEMPO.
O governo Figueiredo precisa decidir se é pragmático ou onírico. Se acredita que há formas de abrandar a miséria de milhões de brasileiros – ou se mantê-la é a melhor opção, para a economia. Não há motivo para adiar a revisão da política salarial, agora que os principais movimentos reivindicatórios já arrefeceram – e a ninguém parecerá que o governo está decidindo "sob pressão". Os reajustes trimestrais ou quadrimestrais são uma forma de garantir o poder de compra – sobretudo de alimentos – de milhões de trabalhadores. Eles podem ser até progressivos: 80% da taxa de inflação no trimestre, para quem ganha até três salários mínimos; 50% de três a seis; 30% daí para cima, por exemplo. Como milhões de brasileiros são desempregados ou subempregados, é preciso pensar também em dar-lhes "salários" pagos pelo próprio governo, a exemplo dos programas assistenciais de outros países capitalistas. Já se mostrou aqui nesta coluna, que os gastos necessários a tais programas seriam surpreendentemente baixos, ridículos mesmo, ante os rios de dinheiro que o governo “doa”, através de incentivos e subsídios, a segmentos privilegiados da sociedade. Mais ainda: é preciso cuidado, muito cuidado, para que não se tente repetir o "milagre", desta vez na agricultura, concedendo vantagens aos grandes grupos empresariais que queiram investir na área – enquanto milhões de lavradores continuarão na miséria. Há cheiro de "milagre" no ar.
1 - Os acertos, com isenção As análises publicadas em ISTOÉ sobre os "pacotes" contra a inflação destoaram do festival de pessimismo que os recebeu: apostou-se, aqui, nos efeitos das medidas na área de abastecimento e controle de preços da indústria, condenando-se apenas o fato, comprometedor, de o mercado financeiro ter recebido um tratamento muito mais brando, privilegiado, em relação aos demais. A alta de preços de maio, na faixa de 2,5% a 3,0%, muito abaixo dos 5,8% de março, mostra, mais uma vez, a necessidade urgente de o país analisar com menos emocionalismo as medidas que surgem na área econômica. O pessimismo eterno pode render bons dividendos políticos, mas, seguramente, não atende aos interesses da nação.
2 - Os índices, sem manipulação Como sempre, não faltará quem coloque o resultado de maio em dúvida (neste estranho Brasil, só se dá crédito a estatísticas oficiais quando elas revelam problemas, situações desfavoráveis, catástrofes. Quando as estatísticas são favoráveis, imediatamente se afirma que elas são falsas, manipuladas). Para contestar esse ceticismo profissional, é bom lembrar que os dados de abril da Fundação Getúlio Vargas, que apontaram uma inflação de 3,8%, também foram recebidos com insinuações de manipulação — inclusive pelos órgãos ligados à área agrícola, em Brasília. O fato é que todos os índices de preços, relativos a abril, que vêm sendo divulgados não apenas confirmam os resultados da FGV, como são até melhores, situando-se abaixo dos 3,5%. Em São Paulo, por exemplo, os índices do DIEESE, o insuspeitíssimo órgão ligadoí aos sindicatos de trabalhadores, anunciou um índice de custo de vida de 3,3% em abril.
3 - Um “estouro” no futuro? Ah, dizem os amantes da inflação, acontece que esse resultado é fruto do "acordo de cavalheiros" para os preços de alimentos e do "congelamento" para os preços dos produtos industriais, por parte do CIP. São medidas artificiais, que "represaram" os preços e que têm sessenta ou noventa dias de duração previstos no "pacote". Findo esse prazo, os preços vão "estourar". Uma "torcida" pela inflação, absolutamente sem base na realidade. No caso do CIP, por exemplo, o órgão calcula que a soma de todos os reajustes de preços que ele rejeitou — dentro das novas normas — provocaria uma alta de 0,8% no índice de inflação, isto é, quando os critérios atuais forem abandonados, a taxa de inflação cresceria em apenas 0,8% — e, de qualquer forma, já se anuncia a intenção de não se conceder tais aumentos de uma só vez, mas escalonados, na base dos 0,2% ao mês, durante quatro meses — ou cinco —, como compensação às empresas pela espera.
4 - A especulação com alimentos E os preços do arroz, feijão, milho, soja, cebola, ovos, hortifrutigranjeiros, brecados com o anúncio de importações ou com os acordos de cavalheiros? Raciocinar ao menos uma vez não faz mal a ninguém: a) os preços desses produtos haviam disparado por manobras especulativas; b) normalizado o abastecimento, ou cortado o ímpeto especulativo, não há motivo para novas altas — havendo a possibilidade, mesmo, de novos recuos. Excesso de otimismo? Não. A especulação está ficando clara, impedindo a continuação de altas artificiais. Um exemplo: o preço dos ovos subiu cerca de 50% no começo do ano, de 13 para 20 cruzeiros a dúzia no varejo (tipo grande). Agora a avicultura paulista se declara em crise, com "excedentes" — e preços em baixa —, porque a produção crescera e a demanda se retraiu. Outro exemplo: a cebola passou de 8 para 20 cruzeiros o quilo; agora os produtores gaúchos pedem o socorro do governo para escoar o produto encalhado, revelando claramente que houve retenção, em fevereiro/março, para forçar os preços.
5 - O apoio aos especuladores Um parênteses: o governo está comprando essa cebola sonegada, pagando ao produtor (ou intermediário?) gaúcho um preço altamente remunerador, de7/8 cruzeiros o quilo. A decisão é ainda mais estranhável porque a região gaúcha em que ocorreu a sonegação, este ano, é a mesma que reteve a cebola no ano passado, levando seus preços a 85 cruzeiros o quilo para o consumidor. Outra decisão estranhável do governo: financiar a "retenção" de matrizes (vacas) e reprodutores (touros), pelos pecuaristas, como forma de acelerar a reposição do rebanho nacional. Por que estranhável? Entende-se que os criadores até desistam do ofício e matem ou vendam vacas e touros em épocas em que os preços da carne estejam desestimulantemente baixos. Mas, com a alta de 100% para a arroba de carne em poucos meses, quem pensaria em fazer isso? O mal é que o financiamento para "retenção" é inflacionário: em poucos dias, os preços de vacas e touros duplicaram. Quer dizer, logo os pecuaristas vão alegar que a carne precisa ser aumentada novamente. Aqui, o governo inflaciona.
6 - Tarefa para Farhat E o caso do arroz, feijão, milho, soja? Oficialmente, a estação das chuvas termina em março. Este ano, tem havido chuvas praticamente a cada dez dias, no Centro-Sul do país, mantendo a umidade do solo e aumentando as colheitas da chamada "safra da seca" ou "safrinha do inverno". Por isso mesmo, a oferta daqueles produtos cresceu — e até os preços do feijão no atacado estão "frouxos" nas últimas semanas. Assim, num balanço final: quer para produtos industriais, quer para alimentos, as perspectivas são mais favoráveis no presente. Lógico que não adianta uma realidade favorável se a sociedade não fica tomando conhecimento dela, isto é, se o clima inflacionário persiste, com manchetes rasgadas para a alta de preços e silêncio em torno de resultados favoráveis. A máquina oficial precisa preparar, com urgência, nova blitz de divulgação, valendo-se dos resultados de maio — e contestando as previsões irrealisticamente pessimistas de novo "estouro" nos preços. E se a geada causar estragos? Mais um motivo para intensa mobilização da máquina de divulgação, mostrando detalhadamente a real extensão das perdas. E mais um motivo, óbvio, para redobrar a fiscalização contra os especuladores.