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  Inflação e Maquiavelismo

Jornal Folha de S.Paulo , domingo 16 de agosto de 1992


É urgente a revisão da política de combate à inflação, marcada por conhecidas distorções. Somente uma sociedade traumatizada pelo risco de explosões inflacionárias aceita passivamente, como está ocorrendo no Brasil, uma estratégia que, basicamente, se limita a, de um lado, manter na miséria milhões de assalariados, aposentados, funcionários e, de outro lado, aumenta novamente a riqueza de minorias que participam do jogo de ganhar juros. É correto propor ajustes na política antiinflacionária, tornando-a mais efetiva. Só que os caminhos escolhidos com esse objetivo têm sido equivocados: insiste-se em fazer previsões alarmistas sobre possível aceleração da inflação, tática que só aumenta os temores da sociedade – e, ironicamente, reforça a “imutabilidade” da política do ministro Marcílio.

É o que se vê, mais uma vez, neste momento. Apesar do recuo nas taxas de inflação de julho apuradas pelos principais institutos de pesquisas (Fipe, FGV, Ordem dos Economistas), economistas e consultores estão tentando convencer a sociedade de que o índice de agosto deve saltar para mais de 23%, não faltando quem fale em 25%. Pior ainda: prevêem alta acentuada a partir de outubro, por causa do novo salário mínimo e da “entressafra”.

Em ambos os casos, as análises são no mínimo levianas: fazer previsões com base nos preços de uns poucos itens leva a conclusões equivocadas. Para justificar o pessimismo em relação a agosto, por exemplo, fala-se que, na última quinzena de julho, houve grande alta no atacado para os alimentos, ainda não plenamente repassada naquele mês para o consumidor, no varejo e, por isso mesmo, não captada nos cálculos dos índices de inflação. Numa tentativa de análise mais completa, o que os dados mostram efetivamente é muito diferente. A curto prazo, as taxas de inflação “semanais” divulgadas pela Fipe e outras instituições podem subir (ou não). Mas a taxa final do mês de agosto, da inflação mensal, continua oferecendo possibilidade de queda, tendência não descartável também para setembro e outubro. Eis os dados que justificam essas afirmativas:

Combustíveis
As análises pessimistas estão ignorando que, no mês de julho, tanto álcool quanto gasolina subiram mais de 30% - e, para agosto, o aumento anunciado até agora foi de 24%. Da mesma forma, em julho houve violentos reajustes de tarifas de ônibus urbanos nas principais capitais, chegando a 32,03% em São Paulo, segundo a Fipe. Para agosto, a alta adotada na capital paulistana até o momento caiu para 18,75%, ou quase a metade do reajuste de julho.

Vale dizer: as análises pessimistas para agosto estão ignorando que o setor de transportes (combustíveis e tarifas) definiu até aqui uma alta sensivelmente inferior para agosto (depois, atenção, de ter sido um dos poucos “puxadores” dos índices em junho e julho). Só aí, pode-se ganhar de 0,50 a 0,60 ponto percentual na taxa de inflação do final do mês de agosto. Ridículo? Não. Capaz de compensar aumentos na área de alimentos. O feijão, por exemplo, tem um peso de cerca de 0,80 no cálculo da taxa de inflação da Fipe. Isto significa que, mesmo se ele subisse improváveis 80%, provocaria uma inflação de 0,64% (isto é, 80% multiplicado por 0,8) – que seria anulado pela “queda” de 0,60 ponto percentual em transportes.

Preços livres
As análises pessimistas para agosto estão ignorando também que, no mês de julho, dos sete grupos de produtos e serviços pesquisados pela Fipe, nada menos de cinco mostraram queda no ritmo da inflação (ver tabela). Apenas dois grupos acusaram aceleração: transportes, pelos motivos vistos acima (e já superados em agosto), com 28,36%, e saúde, como 22,96%.

É importante notar que, nesses dois casos, a aceleração decorreu de “realinhamentos”, respectivamente dos salários de motoristas, e de remédios. Eis aqui um ponto essencial para avaliar as perspectivas da inflação brasileira também a médio prazo, para setembro e outubro no mínimo. O que os resultados de julho apurados pela Fipe mostram é que os setores com preços liberados há mais tempo não oferecem maior preocupação, pois mantêm a desaceleração. Como eles são a maioria absoluta (cinco setores), pode-se inferir que a tendência geral da inflação é efetivamente de queda. O quê ainda impediu um recuo maior? Exatamente um resquício da “herança” dos tempos de congelamento, dos choques, que exigiu agora realinhamentos (salários e preços de remédios).

Indexação
Aqui, entra em cena um fator essencial para avaliar a tendência de inflação. A economia brasileira continua largamente indexada. Contratos, salários, aluguéis sofrem reajustes trimestrais, quadrimestrais ou semestrais – o que significa que a inflação “velha” acumulada nesses períodos continua a ter um peso muito forte na definição dos custos das empresas (e brasileiros em geral) hoje. É óbvio que quanto maior for a “inflação velha” acumulada, mais difícil e lenta a queda da inflação, hoje.

E o fato essencial, ignorado nas análises pessimistas, é que apesar da exasperante lentidão na queda da inflação, os índices de correção estão em declínio. Não por mágica, mas porque as taxas inflacionárias de 25% ou mesmo superiores do final de 1991 e começo de 1992, vão ficando para trás, isto, é, vão sendo substituídas pelos índices mais baixos dos meses recentes. Ora, é óbvio que se as empresas vão enfrentando reajustes cada vez menores, para salários e outros custos, é óbvio, repita-se, que a tendência da inflação é descendente.

Como ignorar isso, e sair por aí, “chutando” taxas de 25% ou mais para setembro/ outubro? Puro palpite, pernicioso por criar expectativas inflacionárias. Infundadas. Só para reforçar: o reajuste quadrimestral dos salários foi de 130% em junho, 124% em julho, e, agora, 119,5% em agosto. Da mesma forma, o reajuste semestral dos aluguéis passou de 272% em maio para 249% em junho. O próprio salário mínimo deve subir 120% em setembro – um índice de impacto, mas abaixo dos 140% de maio. Atentar para esses índices não significa festejar a queda, irritantemente lenta, da inflação. Significa apenas que é preciso avaliar qual a tendência. E ela é de declínio. É isso que está em jogo.

Atacado e varejo
As previsões de que os preços dos alimentos provocariam estragos na taxa de inflação de agosto também são precipitadas, e por vários motivos. Primeiro: nem sempre houve essa defasagem tão grande entre atacado e varejo. No caso do feijão, por exemplo,segundo a FGV, ele subiu 34% no varejo, isto é, acima dos 28,5% de alta para os cereais, no atacado. Segundo: algumas “disparadas” de preços, no final de julho, foram ultrapassageiras, seguidas de queda nesta quinzena de agosto.

É o caso das verduras e legumes, como transparece da comparação entre os preços dos dia 7 e do dia 13 de agosto (quinta-feira) no Ceasa paulista: alface Cr$ 18 mil e Cr$ 12 mil a caixa; tomate, Cr$ 23 mil e Cr$ 15 mil; abobrinha, Cr$ 21 mil e Cr$ 15 mil. A própria cebola, uma das maiores altas de julho, com até 70% de avanço no atacado, despencou tanto em agosto que está arruinando produtores.

Terceiro motivo para questionar as previsões pessimistas: a simples estabilização de preços no começo de agosto, no atacado, já seria suficiente para que os preços no varejo também deixassem de subir na segunda quinzena deste mês – e isso seguraria a taxa de inflação do final do mês (mesmo que, repita-se, as próximas taxas semanais acusassem alta). É o caso da carne: segundo o DataFolha, o produto de primeira (patinho) passou de Cr$ 8.500 para Cr$ 11 mil (alta de 30%) em apenas quinze dias, de 21 de julho a 5 de agosto.

A partir daí, veio a estabilização ou alta moderada (de Cr$ 11 mil para Cr$ 11.400, alta de 3,6% na semana seguinte). Fica claro, portanto, ser prematuro, e arriscado, afirmar que o custo dos alimentos fará a inflação subir 2% ou 3% na taxa (atenção) no final de agosto.

Entressafra
Finalmente, prevê-se alta para setembro ou outubro por causa da “entressafra”. Ora, o problema do país este ano não é de escassez, e sim de superoferta de cereais e grãos. Estão “sobrando” mesmo, 7 milhões de toneladas de milho, 5 milhões de toneladas de arroz e 700 mil toneladas de feijão. Sobra até leite, com aumento de 10% na sua produção, e queda de 25% no consumo de queijos e de 35% para iogurtes... (sintomático: até em padarias há leite longa vida em oferta).

Em conclusão, o declínio nos índices de correção (“inflação velha”), o final do realinhamento de preços antes controlados e a inexistência de problemas de abastecimento de alimentos apontam para a possibilidade de uma inflação descendente, mesmo que em ritmo irritantemente lento, incompatível com os sacrifícios a que a sociedade vem sendo submetida. Claro que fatores políticos ou outros, imprevisíveis, não permitem a ninguém garantir que a queda é inevitável. Mas os fatores econômicos em cena são esses. Ignorá-los, e simplesmente apregoar que a inflação vai subir nos próximos meses, é leviandade. Ou maquiavelismo.



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