[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto O jornalismo nunca passou por uma fase tão ruim, não só o econômico, mas como um todo

  É hora de voltar a crescer

quarta-feira 13 de março de 1991


Em entrevista exclusiva ao jornalista Aloysio Biondi, a ministra Zélia garante que a recessão vai deixar de avançar

Expressão serena, sorrisos freqüentes. Sentada em um sofá do seu gabinete em Brasília, a ministra Zélia Cardoso de Mello exibe a tranqüilidade de quem completou uma travessia. Sua aparência não traz qualquer lembrança da imagem tensa, rosto crispado e com sinais de exaustão que ela vinha exibindo praticamente desde o início do ano. Nenhum sinal da carga de trabalho de 15 horas diárias, das 8 às 23, e das exaustivas negociações com líderes empresariais, políticos e sindicalistas em busca de um acordo para a aprovação do Plano Collor II, afinal obtida no começo da semana. “Agora está tudo indo bem”, repete ao longo da entrevista exclusiva concedida a VISÃO, na última quarta-feira, “restando apenas ao governo fazer uma administração cuidadosa, dia a dia, da evolução da economia”, para evitar surpresas. “Entramos em uma nova etapa”, confirma, “em que a recessão vai deixar de avançar e a economia poderá experimentar um crescimento gradual”, graças inclusive ao aumento da massa de salários aprovada dentro do acordo com o Congresso. Com sua franqueza, que mesmo os inimigos reconhecem, a ministra Zélia Cardoso de Mello não foge às perguntas sobre suas decepções ou surpresas agradáveis, que teve com políticos, empresários, banqueiros, sindicalistas e mesmo a imprensa, em sua atuação à frente do Ministério ao longo de um ano. Mesmo ao fazer críticas, no entanto, a ministra procura demonstrar compreensão, não revelando nenhum ressentimento contra os autores dos violentos ataques de que ela e sua equipe foram alvo, diariamente, por mais de dois meses. “o que importa é que o clima mudou. Nós também mudamos de atitude, partimos para a negociação. Agora, está havendo entendimento com os empresários, banqueiros, sindicalistas, políticos, e isso amplia as possibilidades de êxito do combate à inflação”, insiste, para lembrar, entre sorrisos, que o mercado financeiro não explodiu, a poupança cresceu e até o custo da cesta básica caiu, em São Paulo. A travessia ficou para trás.

VISÃO – O Plano Collor foi aprovado pelo Congresso, graças a intensas negociações com os parlamentares. Como a ministra vê as perspectivas da economia daqui para frente? ZÉLIA - Sempre acreditei que chegaríamos a um acordo com o Legislativo. Os resultados do diálogo foram positivos, pois a votação no Congresso resolveu na verdade, um impasse que estava estabelecido há alguns meses (desde o primeiro choque) em torno da questão salarial. Isso foi muito importante, muito positivo. Na substância, o Plano foi aprovado. Alguns pontos importantes foram suprimidos, mas essas mudanças não afetam muito a essência do Plano.

VISÃO – Em outras palavras, o Plano agora está institucionalizado, afastando incertezas... ZÉLIA – De agora em diante, temos a questão da administração do Plano, especialmente na área de abastecimento e preços. Temos de garantir o abastecimento e preços. Temos de garantir o abastecimento e fazer a flexibilização de preços (descongelamento gradual) de modo que não haja problemas na cadeia produtiva. Para isso, temos de contar com alguma cooperação dos agentes econômicos...

VISÃO – A sra. acredita nessa cooperação? ZÉLIA – De modo geral, sim. Mas há problemas. Por exemplo, questão dos pneus. Temos informação de que as empresas dispõem de pneus, em estoque. Mas não querem entregá-los aos distribuidores, ao varejo. Então isso é uma ação típica não-cooperativa, não colaborativa.

VISÃO – O governo dispõe de recursos legais para impedir esse tipo de atitude? Ou vai recorrer apenas a medidas econômicas para evitá-las? No caso da carne, por exemplo, todo mundo fica curioso para saber como é que desta vez o produto voltou a ser vendido, depois de ter “desaparecido”... Que instrumentos de pressão o governo utilizou para que os pecuaristas e frigoríficos recuassem? Afinal, eles sempre derrotaram o governo, ao longo dos últimos anos... ZÉLIA – É uma negociação que sempre se mostra muito difícil. Mas o governo usou apenas instrumentos de política econômica para conseguir a normalização... A solução foi conseguida com a autorização das importações sem pagamento de impostos (tarifa zero). Os pecuaristas fizeram suas contas, e chegaram à conclusão de que não valia a pena continuar retendo o boi. Por causa das taxas de juros altas, o custo de manter o produto estocado subiria muito. E a carne importada (da Argentina, Uruguai e Paraguai) chegaria rapidamente ao país, a um custo mais baixo: Cr$ 3 mil a arroba, contra Cr$ 4 mil ou até Cr$ 4,5 mil no mercado interno. Não havia condições de manter os preços que estavam sendo praticados. Recorremos, portanto, a medidas econômicas. É a única linguagem compreensível para os empresários.

VISÃO – As previsões pessimistas sobre o choque repetem o argumento de que ele veio em má hora, porque a indústria reduziu sua produção no último semestre do ano passado, e, assim, não teria estoques. Quando o consumo subir, dizem essas análises, surgiria a cobrança do ágio, desmoralizando o congelamento e o próprio plano. No entanto, o DCI (Diário do Comércio & Indústria) publicou, na semana passada, pesquisa da Fundação Getúlio Vargas, com depoimentos das próprias empresas, mostrando a existência de estoques nas indústrias em janeiro, inclusive estoques acima do normal em pelo menos 15 setores, até mesmo de eletrodomésticos... ZÉLIA – Pois é. Ao contrário do que se dizia... Essa confusão dos empresários... Aliás, os empresários estão vendendo bem, houve aumento muito importante nas vendas nos últimos dez dias, sem problemas de falta de mercadorias...

VISÃO – As vendas cresceram em alguns setores específicos? ZÉLIA – Eletrodomésticos, bens duráveis em geral...

VISÃO – Quer dizer que já havia uma reação nas vendas. O que vai acontecer agora, com a aprovação da nova política salarial, pelo Congresso? As análises econômicas ainda não tomaram muito conhecimento das mudanças ocorridas, mas o fato é que a nova fórmula de reajuste salarial vai trazer vantagens bem mais amplas do que se previa. Não foi uma forte virada na política econômica? A ministra não teme que o aumento da massa salarial traga pressões sobre o consumo e os preços? ZÉLIA – Realmente, houve a mudança. O crescimento da massa salarial vai permitir que o consumo se recupere. Mas não tememos uma explosão do consumo. Na verdade, os agentes econômicos já perceberam que, com a mudança, nós sinalizamos no sentido de que chegamos ao patamar máximo da recessão possível. Então, não haverá aprofundamento da recessão. Com isso, imagino que, até em função de todo esse programa que está sendo implantado, as empresas entendam que ele implica maior ou menor distribuição de renda. Imagino que as empresas que haviam diminuído sua produção devem agora estar refazendo suas estratégias. Com isso, tenho a impressão de que vamos conseguir evitar gargalos na oferta de produtos (que poderiam provocar pressões sobre os preços). Além disso, os estoques não estavam tão baixos. Isso também significa que a possibilidade de aumentar rapidamente a produção é maior (devidos aos estoques de matérias-primas, peças, etc.). De qualquer forma, essa nova fase da economia será administrada com muito cuidado e competência, para evitar problemas...

VISÃO – Com o aumento da massa salarial, e principalmente para os trabalhadores que ganham menos, o consumo de alimentos tende a subir. Não podem surgir desequilíbrios e pressão sobre os preços? ZÉLIA – Mas nós estamos nos preparando, desde já, para evitar problemas. Há duas ações cruciais de gerenciamento do Plano que estão recebendo muita atenção da equipe: abastecimento e preços. Especificamente em relação aos alimentos, já estão sendo discutidas medidas para garantir o aumento da oferta de certos produtos. Tanto a concessão de crédito, para ampliar a produção, como a eventual necessidade de importações...

VISÃO – O governo pensa em alocar recursos para financiar “safrinhas” de feijão no segundo semestre, por exemplo? ZÉLIA – Estamos pensando nisso. O crédito deve estar saindo.

VISÃO – Ministra sabe-se que uma “bolha de consumo” pode surgir quando as taxas de juros são baixas, porque elas desestimulam o investidor, que prefere então sacar seu dinheiro e gastá-lo. No dia do choque, a senhora foi à televisão anunciar a desindexação da economia, o fim do BTN e a criação da Taxa Referencial de Juros. Ao divulgar a primeira TR, que significava um rendimento de 5% para a caderneta de poupança em fevereiro, a sra. procurava demonstrar a população que essa seria uma taxa atraente. Não houve quem ficasse surpreso, ou apreensivo: como é que a ministra vai querer que a população entenda que esse é um bom rendimento, quando todo mundo – naquela época – está falando de uma inflação mensal de 20%? Temia-se que a população corresse para o consumo, ou mesmo para o dólar e ouro, explodindo o Plano... Não foi muita ousadia? ZÉLIA – Foi bem, não foi? O investimento não fugiu da caderneta de poupança, tanto que, ao contrário do que se previa, o saldo das cadernetas subiu em fevereiro, isto é, depósitos superaram os saques...

VISÃO – Mas foi uma surpresa, não foi? ZÉLIA – Eu achava que era possível, embora realmente fosse uma mudança arriscada. Mas acho que tudo foi bem. Muito bem. A poupança cresceu. Com relação às taxas de juros, a grande questão que a gente tem que enfrentar, agora, é fazer com que o spread seja reduzido, isto é, a diferença entre os juros cobrados das empresas, nos empréstimos, seja reduzida. Essa é a questão que prejudica a indústria (levando os empresários a se queixarem dos juros). No Brasil, realmente os spreads são muito elevados, a diferença realmente é grande. Mas isso não tem jeito (de combater com medidas de política econômica).

VISÃO – A redução da “sobretaxa” nos juros, então, depende da boa vontade dos banqueiros? A senhora acredita na possibilidade dessa cooperação? Já tem havido um diálogo nesse sentido? ZÉLIA – É possível. A Febran – Federação dos bancos – tem tido atitudes muito positivas, particularmente seu presidente...

VISÃO – Mesmo em relação ao Fundão? ZÉLIA – É... Com o Fundão, não tanto...Mas os empresários estão descobrindo que o Fundão não é aquele bicho-de-sete-cabeças...

VISÃO - ...O mercado financeiro acabou funcionando com maior tranqüilidade, os juros estão mais baixos, até os CDBs (Certificados de Depósitos bancários) renderam abaixo de 10% ao mês na última segunda-feira... ZÉLIA - ...Então, não é uma boa notícia para o país?

VISÃO – A sra. não tem medo de que os recursos, com os juros baixos, sejam canalizados para o consumo? ZÉLIA – Não tenho, não. Tudo caminhou bem até aqui. O câmbio estava preocupando um pouquinho (por causa das tentativas de especulação com o dólar, no black), mas ontem (terça-feira) melhorou.

VISÃO – Quer dizer que a situação é tranqüila, em relação ao quadro que se tinha há duas, três semanas? ZÉLIA – Está tudo indo bem. Não queremos esconder que temos problemas. Mas o ambiente mudou muito. A própria imprensa mudou, dá pra perceber. Logo após o choque, nos dias 1º, 2 e 3 de fevereiro, havia uma unanimidade de críticas na imprensa, num tom que dificilmente se viu nos últimos anos. Foi irracional. A irracionalidade foi demais. Por exemplo, na hora que a CUT se juntou ao movimento Pensamento Nacional de Bases Empresariais e outras entidades para condenar a unificação das datas-bases...

VISÃO - ...que era uma antiga reivindicação da CUT... ZÉLIA – Pois é, a CUT se juntou a empresários para condenar aquilo que ela própria pedia. Qual o pretexto? Que unificação estava sendo feita através de uma medida provisória. Ahhh, assim não há diálogo possível. É muita irracionalidade. Deixa-se a questão substantiva de lado, que é a unificação, para discutir o acessório...É muito irracional... O debate ficou muito irracional, naqueles dias...

VISÃO – É esse quadro que está mudando? ZÉLIA – Exatamente. A situação está melhorando. Temos problemas a administrar, mas tem havido avanços. Agora temos que nos antecipar aos problemas na área de abastecimento. E precisamos estar muito atentos à questão dos juros, para que as taxas não fiquem negativas. Mas, num balanço geral, o plano está indo bem.

VISÃO – Ao completar um ano no Ministério da Economia, a sra. poderia fazer um balanço e identificar as surpresas agradáveis e desagradáveis? ZÉLIA – Não faz um ano ainda... Mas o trabalho que executamos até agora vale por três anos. Agora, como surpresas desagradáveis, eu apontaria justamente dois tipos de comportamento: a irracionalidade e a deslealdade de líderes de alguns setores... Nós aceitamos críticas, discussões, mas realmente não dá para lidar com esses dois comportamentos. Brigo pelas minhas idéias, mas sou uma pessoa leal em todas as circunstâncias e não gosto de gente desleal. Do lado das surpresas agradáveis, a maior delas foi toda essa negociação com o Congresso Nacional. Acho que foi muito boa, também com os partidos de oposição... (A entrevista, a esta altura, foi interrompida por uma chamada telefônica que caiu “direto” no telefone da ministra. Ela responde várias vezes: “Não, não é aqui”, diz um “de nada! ao “obrigado” vindo da outra linha, e desliga. Depois, rindo, explica: “Queriam saber se aqui tinha uma liquidação de geladeira, ventiladores, eletrodomésticos...”).

VISÃO – Voltando à negociação com o Congresso. A sra. atribui os resultados à própria renovação do Congresso, à preocupação dos políticos com o agravamento da crise, ou também pesou a mudança de atitude do governo? ZÉLIA – Acho que foi por um conjunto, todas essas coisas. Acho que a nossa posição (disposição para negociar) também mudou. Meu balanço, de um ano, é muito positivo. Nós fizemos muita coisa. Dentro do que nós encontramos, nós fizemos muito, nós conseguimos muito: afinal, recebemos um país endividado, com um Tesouro enfrentando déficits incríveis, inflação indo a 80% - e, mesmo assim, conseguimos dar início a reformas profundas, estruturais, destinadas a modernizar a economia. Mas, infelizmente, a imprensa demora para perceber, a sociedade demora para perceber, até porque todos os focos de atenção estão concentrados nos números, nos índices de inflação. Não é só um problema nosso. A história mostra que foi sempre assim: como a atenção da sociedade está concentrada na inflação, então se desconsideram coisas importantes que foram feitas. E nós fizemos coisas importantes nas áreas de política industrial, reforma administrativa, desregulamentação, e da dívida externa. Estamos enfrentando uma negociação duríssima com os credores, sem apoio interno. As pessoas se esquecem disso.

VISÃO – A senhora espera terminar logo essa negociação? ZÉLIA – Temos feito esforços, mas é uma negociação dura. Voltando ao nosso balanço, temos feito uma série de coisas que não têm sido consideradas. Eu me sinto muito bem, estou tranqüila. Claro que ainda temos muito a implantar, porque isso é um processo que demanda tempo. Vamos continuar a reforma administrativa, a negociação da dívida externa e implementar, realmente a política industrial e a abertura do comércio exterior. Mas repito que o balanço é muito positivo e me sinto animada. Demos passos decisivos. Meu balanço é muito positivo. Me sinto tranqüila, realizada. E animada.

VISÃO – Ministra, vamos insistir: por que tanta resistência dos empresários ao choque? Nunca se havia visto, no Brasil, ataques em linguagem tão pesada como os que a senhora recebeu, desde janeiro. O ministro Delfim Neto, recentemente dizia que vocês, da equipe econômica, eram “deuses ou imbecis”, e... ZÉLIA – (...sorrisos...)

VISÃO - ...a imprensa publicou. Ataques como esse, de desgaste de imagem, foram freqüentes desde janeiro. Como se explica? Só o conservadorismo dos empresários? Desejo de “fazer” outro ministro? Volta ao passado? ZÉLIA – O choque é uma mistura de tudo isso. Interesses contrariados. Uma certa tentativa de volta ao passado. Mas, também, um desconhecimento do estilo e personalidade do presidente da República. Por isso, essas articulações nunca me afetam, me preocupam. Quanto mais surgem articulações contra um ministro, mais o presidente da República fortalece. Sempre foi assim. Em janeiro do ano passado, antes da posse do governo, a imprensa foi inundada por notas que diziam que eu não seria ministra, que o Simonsen teria sido escolhido, que o presidente havia ido ao Rio para conversar com ele às escondidas, pretexto para uma consulta ao dentista, e assim por diante. No final das contas... não havia nada disso.

VISÃO – Voltando aos empresários: houve alguma mudança em seu relacionamento com o governo, em relação ao passado, e que poderia motivar esse descontentamento? ZÉLIA – Quer que eu fale mesmo sobre isso? Pois bem. O empresariado sempre teve acesso, e mesmo poder sobre o ministro da Fazenda, e até mesmo sobre o presidente da República. E isso não acontece neste governo. Essa é a mudança fundamental.

VISÃO – Como a senhora vê o comportamento da população em meio a esse quadro todo? Os empresários falam muito em desabastecimento, a imprensa noticiou falta de produtos já no segundo dia do Plano. No entanto, o consumidor não partiu para uma “corrida aos estoques”, aparentemente não confiou nas previsões... ZÉLIA – Se a imprensa tivesse influência sobre a população em geral, o presidente Collor não teria sido eleito. Nunca houve uma campanha como a que ele sofreu contra sua candidatura, principalmente nos primeiros meses, quando as pesquisas apontavam apenas um traço em sua popularidade. Se dependesse da imprensa, o Plano teria fracassado no primeiro ou segundo dia após sua edição. Mas agora, isso é que é importante, o quadro está se modificando rapidamente. Houve um entendimento com o Congresso. Está havendo diálogo com os empresários. O tom da imprensa está mudando. Com a definição da política salarial, demos o sinal de que a recessão não vai ser aprofundada, a economia deve voltar a ter um crescimento gradual, e vamos administrar essa nova fase para garantir o sucesso do Plano. Acreditamos que está tudo bem. Há muito a fazer, mas tudo vai caminhar bem.



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