Jornal Folha de S.Paulo , terça-feira 9 de março de 1982
A queda dos preços do petróleo no mercado mundial traz – por paradoxal que pareça – novas ameaças à economia mundial, e ao Brasil em particular, nestes próximos meses. Sem medo de exagerar, pode-se dizer que o mundo caminha para um novo “choque do petróleo”, ainda que às avessas, exigindo decisões urgentes dos governos para superar seus efeitos, sob a pena de caminhar-se para um período de depressão mundial.
A nova crise pode ser explicada em poucas palavras: os países exportadores de petróleo, com a violenta queda nas suas exportações e, agora, recuo nos preços, vêm perdendo uma fábula de dólares, por ano. Todos eles, como se sabe, vinham usando o dinheiro do petróleo, desde 1973 na implantação de gigantescos planos de investimentos: construção de siderúrgicas, parques petroquímicos, ferrovias, rodovias, planos habitacionais e assim por diante. Como se tratava de países com baixo nível de desenvolvimento, essa arrancada de modernização de suas economias só poderia ser feita à custa de importações maciças, por falta de indústria local, seja de máquina, equipamentos ou eletrodomésticos e roupas, ou mesmo de simples matérias-primas (e alimentos). Esses países, assim, também assumiram pesados compromissos no exterior, aplicando os dólares obtidos como petróleo em compras externas.
O abarrotamento do mercado internacional do petróleo atingiu violentamente os países da Opep. Segundo os dados mais recentes, de onze países participantes da organização, apenas quatro não estão, a esta altura, enfrentando o problema velho conhecido do Brasil, a saber, déficits na balança comercial, com os gastos em importações superando as receitas das exportações. Calcula-se que os países da Opep, como um todo, possam enfrentar um déficit estimado entre 20 e 60 bilhões de dólares este ano – tudo dependendo do comportamento do mercado mundial do petróleo, daqui para a frente.
Essa situação nova traz problemas – provisórios, dependendo das providências dos governos dos demais países – à economia mundial, porque os déficits estão levando as nações da Opep a reverem seus planos de investimentos, dilatando os prazos de execução de projetos e cancelando encomendas feitas a outros países. A tendência é grave, porque, desde 1973, os países produtores de petróleo, subitamente enriquecidos, figuraram como os grandes clientes para as exportações dos países industrializados e mesmo em desenvolvimento.
Pode-se alegar que o raciocínio é incorreto, isto é, unilateral, lembrando-se que os problemas dos países da Opep, e seus efeitos sobre a economia mundial, seriam contrabalançados pela melhora na situação econômica dos países importadores. Gastando menos com petróleo – via redução do consumo, ou via estabilidade de preços, que representa uma queda na prática, diante da inflação mundial – países como o Brasil reduziram seus déficits comerciais e poderiam aumentar outras importações para alimentar sua indústria, isto é, poderiam “reativar sua economia”.
Engano: a médio prazo, o encharcamento do mercado mundial do petróleo é inegavelmente uma bênção para a economia ocidental, mergulhada há quase uma década na “crise de energia”. Mas, a curto prazo, há também um “choque”, uma fase de transição a superar. Por quê? Porque a economia de países como o Japão, Alemanha Ocidental, os EUA, a França, os países industrializados enfim, são largamente dependentes dos mercados externos. Sua indústria é movimentada às custas de exportações, e não do mercado interno. Assim, no momento em que as dificuldades da Opep acarretam perdas de encomendas, suas economias são intensamente atingidas – e elas já vivem um período de características recessivas.
Demanda interna
Una tentativa de superar o impasse teria que ser rapidamente implantada pelos governos desses países, através de medidas destinadas a reativar a demanda interna. Se a estratégia desse resultado – que de qualquer forma demandaria algum tempo, alguns meses -, o aquecimento do mercado interno dos países industrializados acabaria resultando em maiores importações de matérias-primas e produtos fornecidos pelos países em desenvolvimento, como o Brasil, que, então, também veriam suas exportações crescerem, e aumentariam suas compras junto aos países ricos. Em resumo, para a economia mundial colocar-se em marcha – sem as compras maciças dos países da Opep – será preciso primeiro detonar um processo de aumento da demanda nos países ricos, a que se seguiria um aumento das exportações dos países em desenvolvimento que, finalmente comprariam mais das indústrias dos países ricos, isso leva tempo.
O Brasil será particularmente atingido por esse período de transição. Importando atualmente não mais que 700 mil barris diários de petróleo para o consumo interno, o País economizaria algo como 500 milhões de dólares por ano, caso houvesse uma redução média de dois dólares no custo de um barril – queda que a Opep tenciona evitar, em sua próxima reunião do dia 19. Em compensação, os déficits dos países produtores de petróleo podem ser um golpe mortal no processo de aumento de exportações brasileiras. Como se sabe, o grande salto nas vendas externas de manufaturados brasileiros nos últimos anos se deveu aos mercados novos – sobretudo esses países produtores de petróleo. E também os países socialistas, como a Polônia e a Romênia, que, este ano, já avisaram a todos os credores que entraram em moratória, isto é, suspenderam o pagamento de sua dívida externa, temporariamente, desejando renegocia-la a prazos mais longos.
Resta ver se o Brasil escapará de igual sorte, ante o súbito estreitamento de mercados promissores, e o novo período de incertezas para a economia mundial. Brasília já deve estar com as barbas de molho.