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  A ministra, a CUT e os empresários

Revista Visão , quarta-feira 21 de novembro de 1990


Decididamente, a tentativa de chegar ao pacto social vai mal – e por isso vai forçar o governo a continuar aplicando uma política de combate à inflação que, inevitavelmente, levará o país a uma recessão. Uma nova reunião em busca de acordo estava prevista para a última semana – e ela foi adiada pelo governo, a pretexto de que não surgiram propostas concretas por parte dos empresários e trabalhadores, para discussão na mesa de negociações.

Líderes empresariais e sindicais discordam e espalham aos quatro ventos que o governo é que não quer o entendimento e vem agindo autoritariamente, e disparam novos petardos contra a ministra da Economia. As acusações são procedentes? Ou na verdade entidades empresariais e sindicais não desejam um acordo coisíssima nenhuma por motivos insondáveis, entre eles a “fritura” da ministra? Na última reunião efetivamente realizada em busca do pacto, dia 30 de outubro, em Brasília, a ambigüidade do comportamento da CUT e lideranças empresariais ficou clara.

A reunião foi um malogro total e seus porta-vozes martelaram na tecla do “autoritarismo” do governo. Ora, como já se comentou nesta coluna (“O pacto no país do Carnaval”, edição de 7-11-90), as propostas levadas a Brasília eram um deboche, não havia nada de concreto nelas a ser negociado com o governo. Está lançado, aqui, um desafio para que aquelas lideranças desmintam a afirmação, mas desmintam com fatos, não com mais palavreado vazio. O desmentido é impossível, porque a afirmação pode ser comprovada através dos próprios documentos que empresários e sindicatos levaram à reunião.

No caso dos empresários, basta citar um ponto para avaliar a falta de objetividade (intencional?) de suas posições. O que é que se espera dos empresários, em um pacto social? Que, obviamente, eles assumam algum compromisso em relação à remarcação de preços, dentro da política de combate à inflação. Que eles façam propostas para facilitar a estabilização de preços, que podem incluir até – por exemplo – sugestões de redução de determinados impostos cobrados na venda dos produtos ou sobre serviços, para que as empresas reduzam ou mantenham preços. Pasme-se (e repete-se aqui o desafio para que a afirmação seja contestada): na proposta dos empresários a palavra “preços” não aparece uma única vez. Não se toca no assunto “preços”, como se inflação não fosse alta de preços. Isso lá é proposta de quem quer entendimento? E os empresários ainda têm a coragem de dizer que o pacto não avança porque o governo é autoritário...

E a CUT? Em meados do ano, as lideranças sindicais reclamavam que o governo era autoritário, que os trabalhadores não estavam sendo ouvidos sobre a política econômica etecétera e tal. Lá por setembro, Brasília lançou a proposta de entendimento nacional (ou pacto social), com a formação de seis comissões de empresários, trabalhadores e governo, para discussão das diretrizes econômicas que o país deveria adotar nas mais diversas áreas e que desenharão a “cara” do Brasil do futuro: que setores industriais devem ter apoio do governo? O que é prioritário em termos de investimento: rodovias ou educação? – e assim por diante. A CUT e outras entidades sindicais estavam sendo atendidas: também queriam coisas mais práticas, imediatas: era preciso que o entendimento nacional cuidasse também dos problemas atuais, da inflação, do achatamento e dos salários, da recessão. Foram atendidas – foram criadas duas subcomissões para cuidar desses assuntos, dentro do pretendido entendimento nacional. Pois bem: depois de exigirem que aqueles temas fossem rapidamente discutidos, as entidades – supunha-se – iriam apresentar propostas sobre eles, nas reuniões do pacto. Em relação às perdas salariais, por exemplo, acreditava-se que – dentro de um pacto – surgiriam sugestões para uma reposição por parcelas, ao longo de alguns meses, para evitar impactos inflacionários. Como poderiam surgir propostas para que os salários fossem aumentados indiretamente, através da redução de determinados impostos pagos pelo trabalhador/consumidor – como foi feito por exemplo dentro do pacto social de Israel – e que tanto os empresários como sindicalistas conhecem bem, pois foram até lá para ver o seu funcionamento.

O longo documento da CUT fala, concretamente, em propostas para salários? Não. O longo documento da CUT diz que a inflação não é o único problema brasileiro e vem com longa relação de conhecidas mazelas da economia nacional que devem ser atacadas – um programa de longo prazo, óbvio. Não falta sequer um longo capítulo sobre a dívida externa, condenando-se a política do governo nessa área. Em resumo: quando o entendimento nacional foi lançado, a CUT e outras lideranças sindicais exigiram que se discutissem coisas concretas, de caráter urgente, como salários e inflação/recessão. Na hora de apresentar propostas, a CUT vem com um tró-ló-ló interminável sobre os problemas de longo prazo. Foge do curto prazo. Ou, pior ainda – e o documento da CUT está à disposição de quem quiser, para que não se duvide do resumo que fizemos -, a certa altura, o documento sindicalista diz incisivamente, curto e grosso, que a reposição salarial é urgente, não comporta “comissões” (para estudá-la), exige medidas imediatas.

Em resumo, dentro do pacto caberia aos trabalhadores negociar uma solução para a questão salarial. Caberia levar propostas nesse sentido. Mas tudo que a CUT faz é dizer que não negocia nada, não aceita a formação de comissões para discutir o assunto: quer a reposição, já e já. Isso lá é proposta? É disposição de negociar? Depois, é só sair por aí dizendo que a ministra da Economia é autoritária, não concede nada, não cede nada e pronto. Como é fácil dizer que o governo suspendeu a nova reunião do pacto, marcada para a semana que passou, por autoritarismo. Os fatos mostram que não havia nada a discutir, porque nem empresários nem trabalhadores apresentaram proposta em seus documentos. Não se sabe por que motivos, mas essas lideranças se comportam como se estivessem interessadas em que os problemas da economia se agravem, com recessão e desemprego. Maquiavelismo?



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