[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto Eta cabe&ccedl;as velhas, reacionárias, destas chamadas elites e formadores de opinião do Brasil
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  A poluição e a política de (des)emprego

Jornal Diário da Manhã , quinta-feira 11 de agosto de 1994


Como o Governo alimenta os poderosos grupos econômicos, contribuindo para piorar as condições sociais do povo

Poluição brutal em São Paulo e outras capitais do País. Inauguração de uma nova fábrica da Rodhia no interior paulista, a mais moderna da América Latina, totalmente automatizada, isto é, operada por computadores, e por isso mesmo com apenas 8, repetindo, 8 operários. A primeira notícia, sobre poluição, é apresentada como um fenômeno provocado pela seca, pela falta de chuvas. A segunda notícia, sobre a fábrica da Rodhia, é alardeada como outro exemplo fascinante de como o Brasil está caminhando para a modernidade, rumo ao Primeiro Mundo.

Na verdade, estão em cena duas gigantescas tragédias, meros exemplos, dentre milhares, de como poderosos interesses econômicos dominam o País, com a conivência de governantes. Meros exemplos, ainda, de como a sociedade brasileira está anestesiada, paralisada diante das maiores aberrações. Incapaz de compreender sua própria desgraça.

Decididamente, o Brasil é um país com vocação suicida.

A TRAGÉDIA DA POLUIÇÃO
Os dantescos níveis de poluição alcançados em São Paulo, neste ano, causam um clamor. Seus efeitos são visíveis demais, com toda a população sendo atingida por doenças respiratórias, reações alérgicas, sem ação de mal-estar. No entanto, por mais dramática que a situação pareça, ela é apenas a revelação de um problema permanente, que diariamente atinge a população não apenas da cidade de São Paulo, mas de todas as capitais e mesmo de cidades de porte médio onde haja grande número de automóveis e veículos em geral. Este ano, tenta-se colocar a culpa em São Pedro, que não tem mandado chuvas em volume suficiente.

Mas o fato é que a poluição está castigando a população durante todo o tempo, provocando milhares de mortes “silenciosas”, ao longo do tempo, com o surgimento e evolução de doenças – de câncer a problemas circulatórios e cardíacos – cujas origens não são identificadas oficialmente. É inacreditável, mas a população de São Paulo e outras capitais, todos os dias, caminha silenciosamente para o matadouro, e bovinamente não se rebela contra os seus assassinos. Assiste a morte de pais, mães, filhos, irmãos, entes queridos, sem esboçar um gesto de reação contra a poluição. Sem nada exigir dos governantes.

A TRAGÉDIA DA MANIPULAÇÃO Os automóveis brasileiros poluem o ar. Matam. Graças ao poder dos grupos econômicos, das entidades empresariais, e dos políticos com elas acumpliciados há décadas. Os automóveis brasileiros matam, com a autorização dos governantes, e com o beneplácito da imprensa.

Há uns dez anos, o Governo federal iniciou estudos para estabelecer exigências de fabricação dos autoveículos, com o objetivo de chegar à fabricação de motores “mais limpos”, isto é, que produzissem menos gases e substâncias venenosas, poluidores do ar – e assassinos silenciosos de todos nós. Como nós estamos no Brasil, aconteceu o inevitável: os estudos para salvar a população acabaram sendo transformados em leis que autorizaram a continuidade da poluição, isto é, a manutenção do genocídio silencioso. Tudo, com fantástica manipulação da opinião pública. Como assim? Os estudos do Governo baseavam-se na experiência de outros países, isto é, verificavam qual era a “quantidade máxima” de cada gás ou substância que os motores podiam expelir, no exterior. A proposta era estabelecer os mesmos limites para a indústria brasileira. No entanto, a pretexto de que não era possível mudar os motores dos veículos da noite para o dia, foram estabelecidas metas a serem atingidas a cada ano. Neste país em que a classe média e o povão não têm o mínimo valor para as elites, aconteceu o indecente: o Governo estabeleceu, para os anos seguintes, falsas metas. Como assim? Suponha-se que, no Brasil, os motores produzam 200 miligramas de um gás venenoso qualquer, e nos outros países o limite seja de 100 miligramas, isto é, a metade. Se o Governo quisesse realmente defender a saúde da população, exigiria que os níveis absurdos, de 200, fossem sendo reduzidos, a cada dois anos por exemplo, para 180, depois 160, depois 140, e depois 120, para finalmente chegar ao padrão internacional de 100. Não foi o que aconteceu. Com a pressão da indústria automobilística, o Governo estabeleceu como “metas a serem atingidas”, nos primeiros anos, aqueles 200 – absurdamente altos, e que os motores dos carros (atenção) já alcançavam... neste país, hipócrita, os serviços de relações públicas da indústria ainda passaram a vender, à opinião pública, a idéia de que nossos carros eram tão modernos, tão modernos, que “já haviam alcançado os limites impostos pelo Governo...” O oposto à verdade. A mentiralhada de sempre.

A TRAGÉDIA DA APATIA
No ano passado, no Salão do Automóvel, a entidade ambientalista mundial Greenpeace tentou chamar a atenção da opinião pública brasileira para a tragédia permanente do envenenamento coletivo provocado pelos automóveis. Alguns de seus participantes escalaram um grande painel do salão tentando criar impacto. Ganharam poucas linhas na imprensa, além da foto habitual. A sociedade brasileira continuou desinformada sobre a poluição causada pelos automóveis. Agora que o problema chega a proporções dantescas neste inverno seco, quem sabe as entidades ecológicas tomam a iniciativa de mobilizar a sociedade para exigir que os governantes deixem de ser cúmplices com os interesses econômicos? É nobre defender o “mico-leão-dourado”. É nobre defender o “ipê-amarelo”. Mas que tal defender a saúde de nossos filhos, irmãos, pais, mães, entes queridos? Nossa própria vida?

A TRAGÉDIA DO DESEMPREGO
Qual o significado da expressão “política econômica” em qualquer país? Por ela, entende-se o conjunto de diretrizes, medidas, que a sociedade – através dos governantes, meros administradores – adota para chegar ao bem-estar, para o conjunto dessa mesma sociedade. Vale dizer: política econômica não é, simplesmente, buscar o crescimento da produção industrial, concedendo privilégios, isenção de impostos, juros vergonhosamente baixos aos grupos empresariais. “Política econômica”, para proporcionar bem-estar ao conjunto de cidadãos, deve ter como objetivo a criação de empregos, para criar renda, e aumentar o consumo de alimentos, gerando novamente empregos, renda, mais mercado para a própria indústria e assim sucessivamente. O Brasil não tem mais uma “política econômica”. Adotou uma política de “crescimento e modernização da indústria” desprezando completamente a necessidade de criação de emprego, de renda, de mercado, de consumo. O exemplo da Rodhia mostra as aberrações dessa política, ou pretensa política. Isso está acontecendo em todo o País: há meses, houve a inauguração em Fortaleza de uma indústria em que o trigo era despejado na entrada e saía, na outra ponta, já sob a forma de macarrão, bolachas, bolos. Total de operários: sete. Só. Em pleno Nordeste, uma fábrica totalmente automatizada. Com empréstimo de bancos oficiais. O Brasil não tem uma política de desemprego. Marcha cegamente para o aumento da miséria, dos assaltos, da violência. Pelas mãos dos grandes grupos econômicos. Um suicídio coletivo.

NOVA REGRA DO IR TRAZ GANHOS
Os números parecem inexpressivos, migalhas mesmo. De qualquer forma, o aumento da dedução por dependente para quem paga Imposto de Renda na fonte trará ganhos proporcionalmente maiores para os assalariados com renda mais baixa, trazendo alguma folga para o orçamento doméstico. A partir deste mês, o abatimento por dependente passa de R$ 24,82 (ou 40 Ufirs) para R$ 62,07 (equivalentes a 100 Ufirs). Houve, portanto, uma correção correspondente a 150%, que representará a entrada, na economia, de R$ 32 milhões por mês ou R$129 milhões a mais em circulação até o final do ano.

Na ponta do lápis, tomando-se alguns exemplos hipotéticos, o “impacto” dessa medida, alardeada pela equipe econômica como uma grande vantagem, sobre a renda total dos assalariados, tende a variar entre um máximo de 2% a pouco mais do que 1%. Para os assalariados com renda de R$ 1 mil e três dependes, por exemplo, o desconto do IR, a cada mês, baixa de R$ 42,68 para R$ 20,42 – uma redução, como se percebe, de aproximadamente 52%. Mas quando se calcula aquele ganho como uma proporção de renda total (aqueles R$ 1 mil hipotéticos), a vantagem parece menos representativa, correspondendo a exatos 2,2%. Ainda assim, são pouco mais do que R$ 22 acrescidos à renda líquida.

À medida que cresce a renda, os ganhos baixam proporcionalmente, como mostra tabela nesta página. Uma pessoa com três dependentes e ganho de R$ 3 mil por mês passará a descontar de seu salário R$ 499,69, ou menos de 8% abaixo dos R$ 542,43 descontados até agosto. A “vantagem” equivaleria, neste caso, a R$ 42,74 ou apenas 1,4% da renda bruta (considerando-se, para todos os casos, assalariados com uma só fonte de renda).

Em setembro, as pessoas físicas com renda até R$ 620,70 estão isentas do IR. A faixa seguinte engloba as pessoas com salários acima de R$ 620,70 e até R$ 1.210,36, sujeitas a uma alíquota de 15% sobre a renda líquida (após deduzidas as despesas com Previdências, dependentes e pensão alimentícia e a parcela da renda equivalente a R$ 620,70). Para quem tem renda acima de R$ 1.210,36 e até R$ 11.172,60, a alíquota sobe para 26,6% e a parcela a deduzir será de R$ 878,29. Com renda acima de R$ 11.172,60, o contribuinte está sujeito a uma alíquota de 35% após os abatimentos e deduzida a parcela correspondente a R$ 3.348,68.



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