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  O mundo vai mudar

Jornal Diário Popular , terça-feira 6 de junho de 2000


Quando uma família gasta mais do que ganha, você sabe o que acontece: ela se endivida, acaba perdendo o crédito, ninguém mais aceita seus cheques ou ‘‘papagaios’’. Ela é forçada a reduzir seu consumo, economizar, bem como procurar aumentar sua renda — para pagar dívidas, ‘‘limpar’’ seu nome e voltar a ter crédito. Com os países não é diferente. Quando um país importa mais do que exporta, vai perdendo o crédito, ninguém mais aceita sua moeda ou seus títulos, porque eles viraram ‘‘papagaios’’ sem valor, que dificilmente serão pagos. Como sair desse atoleiro?

Os países gastadores são obrigados a desvalorizar sua moeda, como aconteceu com o real no começo do ano passado. Por quê? Porque, com a desvalorização, as importações ficam mais caras (você precisa de mais reais para comprar o mesmo tanto de dólares, correspondentes ao preço da mercadoria)... e as mercadorias brasileiras ficam mais baratas, em dólar (porque você precisa de menos dólares para comprar o mesmo tanto de reais, correspondentes ao preço da mercadoria).

Isto é, torna-se possível reduzir as importações e aumentar as exportações, reequilibrando-se o orçamento em dólares do país gastador (no caso do Brasil, esse objetivo não foi alcançado porque as multinacionais agora dominam a economia do País). Todos os países sempre foram obrigados a respeitar essa regra: desvalorizar a moeda, para eliminar ‘‘rombos’’ em dólares.

Todos os países? Todos, com uma exceção: os EUA. Por quê? Como esta coluna já analisou anteriormente, há décadas e décadas os EUA têm um rombo gigantesco em seu comércio com o resto do mundo, com as importações superando imensamente as exportações. Mas os norte-americanos não foram forçados a desvalorizar o dólar, para reduzir as importações e aumentar as exportações, por um motivo ilógico: simplesmente, os EUA emitem dólares e títulos para pagar suas compras em outros países e sua dívida externa, calculada entre 7 e 8 trilhões (trilhões, mesmo), de dólares.

Isto é, o dólar deveria cair, mas como os outros países continuaram a aceitá-lo como forma de pagamento, ele ficou firme e até subiu acentuadamente em 1999. Assim, a tão falada ‘‘prosperidade incrível’’ da economia norte-americana, nos últimos anos se deveu em grande parte ao valor totalmente falso do dólar. Desde o ano passado, porém, o ‘‘rombo’’ do comércio dos EUA dobrou, dos já fantásticos 15 bilhões de dólares por mês, para até 30 bilhões de dólares. Por mês. A falsa valorização do dólar continuou nos últimos meses, aparentemente sustentada pela ‘‘euforia’’ em torno das Bolsas de Valores norte-americanas. Agora, com ações, vai chegando a hora da verdade. De meados de maio para cá, o dólar já caiu 9%no mercado mundial, na comparação com o euro, a moeda única dos países da União Européia. A queda pode marcar o início de uma nova era na economia mundial, com a Europa tomando parte da liderança econômica e política que os EUA — e sua moeda — desfrutaram nas últimas décadas. O mundo vai mudar — ou, na verdade, já mudou, na surdina. As transformações atingem também o Brasil, como se verá amanhã.



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