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  O desmonte do BB

Jornal Folha de S.Paulo , terça-feira 9 de abril de 1996


O governo FHC impôs novos prejuízos ao Banco do Brasil. Em fins de março, o BB foi obrigado a engolir a "renegociação" de US$ 1,7 bilhão em títulos da dívida externa (os MYFDA), que o Tesouro deveria ter pago há muito tempo.

Arbitrariamente, eles foram trocados por novos papéis (os NTN), que, ainda por cima, pagarão menos de 20% ao ano (juros de apenas 6%, mais correção cambial). Somente a metade, portanto, do rendimento que o mesmo governo FHC paga aos bancos privados e investidores que compram títulos do Tesouro no mercado interno.

A operação lesiva foi rejeitada durante meses pela diretoria do BC, que afinal se dobrou à imposição do governo. Ela foi concluída às vésperas (20/03) do anúncio da falsa "Operação de Salvamento" do BB, verdadeira cortina de fumaça para a "Operação Afunda BB" que está em marcha.

Na ponta do lápis, o "socorro" de R$ 2,3 bilhões (líquidos) do Tesouro ao BB, sob forma de aumento de capital, é uma farsa. Ele nunca precisaria existir se o governo FHC parasse de aplicar calotes sobre calotes no BB, dos quais os exemplos mais gritantes são a (falsa) troca de dívidas dos agricultores por títulos e o (falso) pagamento de R$ 2,2 bilhões de dívidas atrasadas do próprio Tesouro _além da troca de títulos da dívida externa, vista acima.

* Agricultores - o governo fez um acordo (justificável, em princípio) para parcelar as dívidas dos agricultores em até dez anos.

Na prática, o esquema seria este: o Tesouro pagaria os R$ 7 bilhões ao BB e os agricultores passariam a dever ao próprio governo.

O pagamento ao BB seria em dinheiro? Não. Em títulos do Tesouro. Quais as vantagens para o BB? Como as dívidas estariam "pagas" (com títulos), seriam eliminadas dos balanços, isto é, os prejuízos que hoje representam desapareceriam.

Segunda vantagem: em tese, se a diretoria do BB quisesse, poderia vender os títulos no mercado, fazer dinheiro para emprestar e faturar juros.

Nada feito. A equipe econômica, durante meses, recusou-se a pagar a dívida de R$ 7 bilhões _mesmo com títulos.

Como assim? O governo quer ir "pagando" o BB também em prestações, isto é, entregar ao banco entre R$ 500 milhões e R$ 700 milhões em títulos por ano, na mesma proporção do parcelamento (até dez anos) concedido aos agricultores.

Resultado: nem o BB limpa o balanço, eliminando os prejuízos, nem fica com títulos para vender, fazer dinheiro e aplicar.

Dívidas atrasadas

O BB diz que o Tesouro lhe deve R$ 5,5 bilhões, por operações diversas feitas a mando de equipes econômicas _algumas delas, dos anos 80... Após muita negociação, em setembro do ano passado o governo anunciou que pagaria R$ 2,2 bilhões, continuando a discutir os outros R$ 3,3 bi. Não pagou.

Mais prejuízos

A equipe FHC quer aumentar os prejuízos do Banco do Brasil nos próximos balanços. Como? Vai obrigar o BB a lançar como prejuízo todo empréstimo feito cujo pagamento esteja atrasado. Inexplicável. As regras do próprio Banco Central dizem que os empréstimos com garantia (fazendas, imóveis, carros etc.) podem atrasar até 180 dias.

Imagem

O estardalhaço em torno das falsas dificuldades do BB pode afugentar clientes, provocando a perda de aplicações e depósitos. O BB, graças à sua rede de agências em todo o país, ocupa posições de liderança nas aplicações de em fundos de investimentos (R$ 10 bilhões em 1995, primeiro lugar), poupança, capitalização e por aí afora.

Vesgueira

A saída para aumentar a lucratividade do BB _mesmo com os calotes da equipe econômica_ é fechar agências e cortar pessoal? Ou usar a rede, até nos cafundós do Judas, onde não há bancos privados, para captar dinheiro e emprestá-lo?

BNDES generoso

A Vale do Rio Doce pagou 0,785% de comissão a bancos e corretores internacionais para organizarem, conquistarem aplicadores e colocarem títulos no mercado mundial.

O BNDES está pagando 2,5%, mais 0,7% eventualmente, a bancos e corretores que meramente organizam leilões de lotes de ações nas Bolsas brasileiras, durante um único pregão.

Perguntinha

Em 1994, o BB girou R$ 9 milhões em recursos que o Tesouro lhe entregara para realizar pagamentos em nome do governo (fornecedores etc.).

Em 1995, o repasse caiu para R$ 1,5 bilhão. Quem girou a diferença de R$ 7,6 bilhões?



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