Jornal Gazeta Mercantil , sábado 20 de setembro de 1975
A Vale do Rio Doce foi autorizada, na última semana, a devastar a última reserva florestal de toda a região Sudeste: o Congresso aprovou a destruição total da flora centenária de uma área de 130 mil hectares, no Sul da Bahia, para plantar pinus ou eucaliptus e depois fazer papel. A iniciativa só pode ser elogiada: como ela foi aprovada em plena semana da “Festa da Árvore”, mostra que o país não está disposto a hipocrisias, e resolveu revelar, de vez, que a preocupação com a flora e o equilíbrio ecológico não passa de encenação. Para que a comemoração fosse completa, só faltou uma medida: a criação de “ordens honoríficas” para homenagear os brasileiros que mais se destacam na “guerra ao verde”, na destruição da flora, na detonação de um processo de deterioração do solo e do clima. É pena. A oportunidade era de ouro: afinal, os técnicos da Vale do Rio Doce poderiam inaugurar brilhantemente a galeria de devastadores ilustres. Eles mereceriam, no caso, a “Grã-Cruz do Machado”, pois já conseguiram, seis anos atrás, destruir as florestas do Espírito Santo, para plantar pinus e eucaliptus, e produzir celulose. Agora, vão fazer o mesmo no Sul da Bahia: por que o país não reconhece seus méritos?
HONRA AOS HERÓIS
A entrega de comendas e medalhas poderia ser emocionante: uma solenidade em Tubarão, em Santa Catarina, ou em Recife, que foram arrasados por inundações com prejuízos de bilhões de cruzeiros ao país, além das tragédias humanas. A escolha é perfeita: afinal, dizem os técnicos oficiais, esses desastres, essas inundações, esses deslizamentos se devem ao desmatamento, à falta de cobertura florestal nas bacias dos rios.
Mas outros heróis do desmatamento, da guerra ao verde, deveriam também ser lembrados:
Os funcionários do DNER é que cortam a vegetação das faixas marginais das rodovias, e ateiam fogo, destruindo não apenas a flora das faixas como provocando incêndios florestais e em pastagens. Eles fazem isso há décadas, merecem a “Medalha dos Incendiários Persistentes”, que certamente deveria ser atribuída também aos seus superiores de todos os níveis.
Os dirigentes de institutos de arquitetos, que afirmam que esses profissionais nada devem fazer contra a sanha imobiliária, pois, “como profissionais, só executam ordens”. Para eles, a “Medalha da Indiferença Remunerada”.
Os governadores e prefeitos que até hoje não criaram ou não colocaram em funcionamento os Conselhos Florestais, municipais e estaduais, para evitar o desmatamento em um país já ultra-desmatado. Por sua hierarquia, fazem jus à “Comenda da Irresponsabilidade Oficial”. Os urbanistas, que mutilam praças a pretexto de modernizá-las, ou distribuem panelões e tachos horrendos pelas avenidas das capitais, em substituição a canteiros – e ao verde. Para eles, a “Ordem do Modernoso Empetecado”, ou a “Medalha do Olha-como-eu-sou-genial”.
Empresários que usam desfolhantes químicos em regiões pioneiras. Fazem jus a homenagens ainda a definir.
Prefeitos que entregam a conservação de praças e ajardinamentos a empresas “paisagísticas” particulares, que plantam árvores, flores, recebem dinheiro para preservá-las, mas simplesmente as abandonam à morte. Para eles, a “Medalha da Falsa Eficiência da Descentralização”.
Dirigentes municipais que continuam a ordenar, todos os anos, a poda destruidora de árvores das ruas e que nunca poderiam ser podadas, em lugar de usar seus funcionários para acompanhar o crescimento das árvores recém-plantadas, cortar os “brotos-ladrões”, estaquear as mais frágeis, proteger as mais visadas. Fazem jus à “Comenda da Repetição Maniqueísta”.
E OS ANTI-HERÓIS
Para a entrega das honrarias, aos heróis menos graduados, as cerimônias poderiam ocorrer em qualquer ponto do Brasil onde a existência do verde, de cobertura vegetal, fosse inferior a 2% - isto é, em 99% da área do País atingida pela urbanização. Se a confecção de medalhas para todos os heróis não esgotasse os estoques de metais do País, podia-se pensar ainda em uma “coletivização” fraternal das homenagens. Mas como esse esgotamento seria quase certo, poderiam ser conferidos pergaminhos, ou “Diplomas de Ingênuos”, aos jovens que participam das festas escolares de plantio de árvores, ou as pessoas que recebem rosinhas oferecidas por Prefeituras e saem alegres, pelas ruas, acreditando que já há mentalidade florestal, ecológica, em seu país.
O coroamento das comemorações seria um ato público no qual fossem declarados “inimigos públicos” as pessoas que descobrem que o “horror ao verde” está presente, sobretudo, nas áreas que têm poder de decisão. Pessoas para as quais a única demonstração de que o País está interessado no problema ambiental, no problema florestal, seria a adoção de uma única medida, óbvia: que 1, 2 ou 5% do dinheiro arrecadado do imposto de renda, para florestamento ou reflorestamento, fosse destinada à fiscalização, para evitar a destruição da flora, que se faz até na periferia das cidades, porque o IBDF – Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal não existe como órgão fiscalizador. De que adianta plantar um milhão de árvores, em um projeto de reflorestamento numa única região, se cem milhões de árvores, se o verde, estão sendo destruídos no Brasil inteiro por falta de fiscalização – e mentalidade conservacionista.
Não há perigo de que essa tese, óbvia, seja acolhida. Felizmente, o País não admite hipocrisia: nada de reflorestar áreas devastadas ou conter a devastação. O mérito, como no caso da Vale, é destruir florestas, exterminar o verde, provocar tragédias como os deslizamentos de Tubarão, o “entupimento” de represas como de Furnas, a poluição de São Paulo, a desertificação do Vale do Paraíba, as cidade tragadas pela erosão no Paraná, a caatinga e as secas no Nordeste (resultantes da devastação).
Aos heróis que obedecem essa máxima, as homenagens do País na Semana da Árvore. Sem hipocrisia.