Jornal Diário Popular , domingo 4 de junho de 2000
No ano passado, o governo FHC/FMI planejou monstruosa reforma para o Banco Central, que, entre outras distorções, extinguia a fiscalização contra a lavagem de dinheiro, o narcotráfico, o contrabando, em várias regiões do País. A aberração era tamanha que o Congresso Nacional aprovou um projeto especial suspendendo a reforma — com o apoio de todos os partidos. Neste momento, está em marcha outra aberração ainda mais monstruosa, crime de lesa-pátria que comprometerá o futuro do Brasil e do povo brasileiro, e que exige idêntica união dos partidos. A opinião pública ainda não entendeu a gravidade da monstruosidade, mas lideranças políticas como (respeitando a ordem alfabética) ACM, Lula, Sarney, Maluf, Simon e tantos outros homens públicos sabem o que está ocorrendo e não podem permanecer de braços cruzados. É preciso agir, mobilizar todas as bancadas, imediatamente.
Todos os dias, surgem notícias de que empresas que foram compradas, sobretudo por multinacionais, e, principalmente, as ex-estatais, estão ‘‘fechando’’ seu capital, ou, como no caso da Telefônica, forçando a troca por papéis do grupo comprador. Seguramente, 99% dos brasileiros não sabem o significado e as conseqüências dessas operações, que se tornaram possíveis com leis aprovadas dentro das ‘‘reformas’’ do governo FHC — ou haveria um clamor popular contra elas. Mas o Congresso sabe, e não pode ser cúmplice desse crime. Em poucas palavras, esses grupos, que haviam comprado 20% ou 30% do capital das empresas estatais nos leilões realizados pelo governo, agora procuram ficar donos de fatias maiores das empresas, propondo a compra das ações pertencentes aos outros acionistas — centenas de milhares ou milhões deles, no caso das telefônicas.
Isso é uma monstruosidade total. Uma loucura que somente poderia ocorrer no Brasil. No mundo todo, em todos os países capitalistas, ocorre exatamente o contrário. Todas as grandes empresas — da Volkswagen alemã à Microsoft norte-americana, da EDF francesa à Mitsubishi japonesa — têm milhões de acionistas, isto é, a sociedade, a classe média, os trabalhadores, todos participam dos lucros obtidos por essas empresas.
Não é nenhum favor — ao contrário do que o povo brasileiro é levado a pensar, quase sempre. O direito à participação é legítimo, pois por mais brilhante que seja um empresário, ele só prospera utilizando toda a infra-estrutura construída, ou todo o sistema econômico (mercado consumidor, fornecedores etc.) montado com o trabalho de toda a sociedade. Uma empresa não produz mercadorias, ou mesmo sequer teria como distribuir mercadorias, se não existissem as usinas hidrelétricas, as rodovias, as ferrovias, os portos ou mesmo a mão de obra treinada com recursos diretos ou indiretos da sociedade. O que está acontecendo no Brasil é uma negação absurda do próprio capitalismo. Não é nenhuma força de expressão: o patrimônio construído pelo esforço do povo brasileiro, representado pelas empresas privadas ou ex-estatais, está sendo saqueado por grupos empresariais, sobretudo estrangeiros, com efeitos terríveis, como se verá amanhã. É preciso barrar o processo já. O Congresso precisa agir.