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  O Brasil está de joelhos. E o Congresso?

Jornal Folha de S.Paulo , quinta-feira 11 de junho de 1998


É hora de o Congresso parar de brincar de ser mero apêndice do Planalto e tomar posição diante da gravidade da situação da economia nacional, antes que seja tarde demais.

Em dias recentes, o Tesouro esteve literalmente às portas da falência, do “encilhamento” – pois é esse o significado do fato, pouco noticiado pela imprensa, de o Tesouro ficar vários dias sem conseguir vender seus títulos no mercado financeiro e, conseqüentemente, sem dinheiro para recomprar os títulos antigos que iam chegando a sua data de resgate... “Quebra”, mesmo.

Como a equipe FHC escapou temporariamente da enrascada? Ressuscitou a correção monetária, ou o “espírito dela”, vendendo títulos que terão seus rendimentos calculados somente na data do resgate, tomando-se como base as taxas de juros que tiverem sido pagas no mercado durante o período da aplicação.

Em bom português: os aplicadores e banqueiros, nacionais e internacionais, não confiam mais na capacidade de o governo e o Brasil honrarem seus compromissos: por isso, “sabem” que os juros vão subir ainda mais; por isso, não aceitam contratar a taxa de juros na hora da compra dos títulos, exigindo que eles sejam calculados somente na hora do resgate.

O Brasil já está quebrado, de joelhos, diante dos credores internacionais. Os juros pós-fixados para os títulos do governo foram um estratagema para ganhar tempo, pois nada resolvem. Os problemas da economia persistem, os credores sabem disso, e voltarão com novas exigências, até que se chegue a um ponto insustentável.

Qual a saída que a equipe FHC está tentando para essa armadilha? Resposta: Vender as empresas estatais do setor de telecomunicações e as empresas energéticas o mais rápido possível, vale dizer: a qualquer preço e nas condições mais vergonhosas e lesivas à sociedade possíveis, impostas por grupos internacionais ou até nacionais.

É por isso que o Congresso deve intervir com urgência na questão, impedindo erros e distorções, cujos efeitos se prolongarão para todo o sempre.

Na área de telecomunicações, o governo não apenas abandonou as diretrizes anunciadas pelo então ministro Sérgio Motta, mas, o que é importante, está mentindo quando diz que vem seguindo a tendência mundial de “abertura”, para modernizar o setor.

Controle total para grupos estrangeiros, liberdade para importar equipamentos com destruição da indústria brasileira, “esquartejamento” da Telebrás em empresas regionais: todas essas decisões, anunciadas nas últimas semanas, são exatamente o contrário do que vem ocorrendo nos países ricos ou mesmo nos outros países dominados pelo FMI, como a vizinha Argentina.

Essas mentiras do governo FHC foram desmoralizadas pelo professor Luciano Coutinho em seu artigo publicado por esta Folha no último domingo, de leitura obrigatória pelos deputados e senadores respeitáveis deste Brasil.

Como explicá-las? O governo FHC está se curvando à chantagem de países e grupos estrangeiros (ou não), tentando obter dinheiro para cobrir o rombo. Mas esse dinheiro será insuficiente para dar solução definitiva ao problema. De nada vale, portanto, “privatizar” a preço vil e com distorções, se daqui a algum tempo a quebra será inevitável. Cabe ao Congresso impedir essas operações de lesa-sociedade.

Eles dizem, mas...

Nordeste - Na célebre entrevista nos jardins do Palácio, o presidente FHC diz que seu governo está realizando obras de irrigação na região. Esta Folha foi conferir. Resultado: de R$ 1,6 bilhão que o Orçamento deste ano havia fixado para as obras mencionadas pelo presidente, até 10 de abril haviam sido liberados apenas R$ 80 milhões, isto é, tão somente 5%. Desses R$ 80 milhões, nada menos da metade, ou R$ 40 milhões, foi para o tucano Tasso Jereissati, do Ceará... Só 5%, transcorrido mais de um trimestre...

Feijão e arroz - a Conab diz que o abastecimento de feijão voltará à normalidade a partir de julho, com a colheita das lavouras irrigadas. Mas elas representam só 300 mil toneladas, ou apenas 10% da produção anual de 3 milhões de toneladas... E poderá ser menor se houver geadas... Quanto ao arroz, a produção prevista de 9,5 milhões de toneladas será ainda menor, caindo para 8,8 milhões de toneladas. Isso para o consumo anual de 12 milhões de toneladas. Faltam, portanto, nada menos que 3,2 milhões de toneladas. Os preços continuarão subindo. Tudo porque o governo FHC não compra mais as colheitas dos produtores para formar estoques a ser vendidos em situação de emergência.



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