Jornal Folha de S.Paulo , domingo 27 de outubro de 1996
Correria em Brasília. As exportações estão caindo, as importações continuam a crescer. Resultado: outubro vai apresentar novo rombo na balança comercial (exportações-importações), dessa vez em valores elevados, trazendo o risco do provocar uma fuga dos investidores/especuladores externos.
Risco de crise cambial, com todas as suas conseqüências. Tudo imprevisível? Não. Como esta coluna vem dizendo há meses, o "rombo" é resultado, antes de mais nada, da própria política do governo FHC, que escancarou o mercado brasileiro às importações (e é mentira que isso seja uma exigência da "globalização", como se verá a seguir). O rombo é conseqüência, também, de falso otimismo e arrogância da equipe FHC/BNDES, que se recusa a enxergar problemas, xinga os não-adesistas, vive afirmando que dificuldades são passageiras _e, de quebra, apresenta incompetência para analisar tendências. O desastre da balança comercial mostra que a sociedade brasileira não pode continuar aceitando passivamente essa política econômica suicida, semeadora de crises.
Em maio, diante do rombo de abril, Maurício Cortes, assessor encarregado da área de comércio exterior, dizia não haver motivos para preocupação, pois, segundo ele, o primeiro trimestre do ano é sempre mais fraco em exportações, porque ainda não começou o embarque das safras agrícolas.
O especialista estava redondamente enganado, como esta coluna procurou alertar na ocasião: na verdade, o rombo tendia a ser maior, estava mascarado por um fenômeno, a saber, volumosas exportações de soja, óleo e farelo, de estoques velhos, já no primeiro trimestre do ano.
Em junho, novo déficit. Aí, foi a vez de o secretário de Política Econômica da Fazenda, José Roberto Mendonça de Barros, repetir o que faz todos os meses: disse que o fenômeno era passageiro, "já esperado". O secretário desmentia-se (como sempre) a si mesmo: no começo de junho, ele dizia que "a expectativa é que o comércio exterior tenha desempenho muito favorável" nos meses futuros.
A incapacidade de análise por parte da equipe FHC/BNDES estava clara nessas previsões. Na época, esta coluna apontava que as exportações deveriam apresentar resultados cada vez piores, por motivos simples: queda previsível nas vendas de soja e derivados (exportados antecipadamente), recuo nas vendas de celulose, que bateram recordes em 1995, e enfrentar, em 1996, queda de até 50% nos preços mundiais; idem para produtos siderúrgicos, diante da saturação do mercado mundial.
Isso, do lado das exportações. Em relação às importações, esta coluna previa o seu avanço devido não apenas à "abertura". Apontava também a necessidade de comprar alimentos no exterior: trigo, milho e arroz. Por quê? Por causa da violenta redução na produção brasileira. Culpa de São Pedro? Não. Porque a equipe FHC decidiu forçar o produtor a plantar menos em 1995, para não "precisar comprar estoques". Agora, o país importa.
O governo FHC alega que abriu o mercado a importados e às múltis para forçar o empresário brasileiro a reduzir custos, aprimorar a tecnologia _e preparar-se para a "globalização". Lérias. O leitor tome nota desse dado: a maioria dos produtos importados pelo Brasil está pagando apenas 2% de imposto ("tarifa modal"). Ou sete vezes menos que os 15% cobrados pelo Japão. E dez vezes menos que os 20% da Coréia. O produto brasileiro não pode concorrer com as importações. Daí a "torra de dólares", a quebradeira e o desemprego. Desnecessários.