Jornal Folha de S.Paulo , sexta-feira 27 de novembro de 1981
A opinião pública nacional é periodicamente varrida por ondas de indignação, sempre que toma conhecimento de acordos Internacionais ruinosos assinados pelo Brasil, sejam eles de grandes dimensões, como é o caso do Programa Nuclear, ou mais modestos, a exemplo das importações desnecessárias impostas por governos e bancos de países ricos. Pensa-se, equivocadamente, que tais acordos resultam do "impatriotismo" de ministros e tecnocratas. Quando não de interesses inconfessáveis. Na verdade, tais acordos ocorrem basicamente por força do problema da dívida externa. Isto é, todas as vezes em que ela cresce desmedidamente, há falta de dólares para pagar os juros, amortizações e importações. O País mergulha em uma crise cambial – e, aí, é obrigado a aceitar as condições impostas pelos credores onternacionais, inclusive "governos amigos": importa o que não precisa, ou permite a desnacionalização de setores antes reservados à empresa nacional, até por questões de segurança nacional.
Entende-se assim (mas não se aceita) que, no ano passado, o Ministério do Planejamento defendesse a execução do projeto Grande Carajás, para aproveitamento das riquezas naturais da Amazônia, a "toque de caixa". O Brasil estava mergulhado em grave crise cambial, os banqueiros internacionais e governos amigos cortavam o crédito, não havia dólares para pagar importações essenciais, o País parecia em um "beco sem saída". Atrair grupos, que aplicassem dólares na Amazônia, era a solução defendida pelo Planejamento.
Hoje, já não se pode entender que o Ministério do Planejamento queira executar o Grande Carajás de qualquer jeito, concedendo vantagens inacreditáveis às multinacionais e governos estrangeiros (são eles, na verdade, que estão interessados em usar terras da Amazônia, "alugadas" pelo governo brasileiro, para formar imensas "plantations" destinadas à produção de alimentos e produtos energéticos, a serem exportados para seus próprios países. As empresas formadas com esse fim servirão apenas de "biombo" a seus governos). Não se pode entender essa insistência, pois a situação cambial do Pais é outra. As taxas de juros internacionais caíram da casa dos 20 para 13%, e essa queda de 7% representa uma economia de 3,5 bilhões de dólares por ano (cada 1% corresponde a no mínimo 500 milhões de dólares em juros). Prevê-se um superávit na balança comercial, hipótese que ficou bastante fácil de concretizar-se diante da melhora prevista para a economia mundial e o comércio internacional, em 82. Há mais, porém: o aumento na produção do petróleo, pela Petrobrás, concretizado e previsto, mudou radicalmente as previsões para as importações do produto, estimando-se agora gastos substancialmente mais baixos, no decorrer dos próximos anos. A dependência ficou menor.
Essa "folga" cambial, assim, deve ser aproveitada para que o País debata e reveja as condições e prazos previstos para a implantação do Grande Carajás. Com menos pressa, o programa poderá ser executado sem necessidade de oferecer vantagens indevidas aos sócios estrangeiros. Sem necessidade de assinar contratos ruinosos. Sem ampliar, em resumo, a própria dívida externa – e sem trazer novos sacrifícios para o provo brasileiro: mesmo as terras, que o governo pretende entregar, arrendadas, a governos e grupos de outros países, podem ser usadas para a fixação de centenas de milhares de famílias hoje marginalizadas. A última chance para o País resolver uma questão social explosiva.