[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto O que somos hoje? Um quintal dos países ricos? Não. Somos um curral
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  O Brasil não fica no Hemisfério Norte

Jornal Folha de S.Paulo ,


Os empresários e ministros brasileiros que vêm defendendo um “alinhamento” do Brasil com os EUA – se estão agindo de boa fé e não por motivos outros, poderiam meditar um pouco sobre suas propostas, a partir do noticiário dos últimos dias. Segundo esses empresários e ministros, o Brasil já é uma potência, detém o sétimo ou oitavo maior PIB – Produto Interno Bruto do mundo, e só por um “complexo de inferioridade”, ou por uma “falta de solidariedade”, insiste em considerar-se um país em desenvolvimento e, como tal, participar de organizações e “blocos” que tentam defender os interesses do chamado Terceiro Mundo.

Se o Brasil reconhece que ”já é um país desenvolvido”, dizem os mesmos personagens, perceberia que os seus interesses coincidem com os interesses dos demais países desenvolvidos, em todas as áreas, e passaria a defendê-los, dando de ombros aos problemas dos “pobres”. Em poucas palavras, o Brasil se “alinharia” aos EUA e passaria a apoiar as teses norte-americanas na ONU, no Gatt, na FAO, na Unctad, no FMI e no escambau, em todo o tipo de assunto: concordaria e defenderia os pontos de vista do governo Reagan, de que os países pobres (em nome da “liberdade de investir”) devem escancarar as portas às multinacionais, mesmo que isso destrua empresas nacionais e promova um desenvolvimento falso que, como no caso do Brasil, leva ao mortal endividamento externo; o Brasil concordaria e defenderia as propostas do governo Reagan, de que os países pobres (sempre em nome da “liberdade de comércio”) não devem tentar conter as importações de mercadorias norte-americanas, mesmo que isso aumente sua dívida externa e os leve ao desastre; o Brasil concordaria e defenderia finalmente, para não alongar mais a lista, as propostas do governo Reagan também no plano da política internacional, apoiando intervenções armadas em países, como os da América Central, atingidos por guerras civis, etc.

Segundo os empresários e ministros, esse “alinhamento” traria vantagens fabulosas ao Brasil, que receberia um “tratamento especial” por parte dos EUA.

A notícia de que o governo Reagan vai propor que os outros países exportadores de alimentos também reduzam sua produção (v. Tendências Internacionais, na página 25) para combater os “excedentes” mundiais, exige meditação por parte desses personagens. Surgida no exato momento em que os problemas dos países pobres são discutidos em reuniões do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, a iniciativa dos EUA mostra o divórcio que continua existir entre o Norte e o Sul. Ao norte, os países ricos (pois a Comunidade Econômica Européia também deseja a redução da produção agrícola) mantêm uma postura imutável, não tomam conhecimento de todas as propostas surgidas nos últimos anos na FAO, na Unctad, na Comissão Brandt, em favor de uma nova Ordem Econômica Mundial – em que a integração das economias dos países ricos e pobres permitisse o aumento da renda, a redução da miséria, a redução da fome para centenas de milhões de seres humanos do 3º Mundo. Impermeáveis a essa tragédia humana, os EUA e demais países ricos continuam a apontar a mesma saída que sempre apontaram: reduzir a produção, reduzir o nível de emprego, aumentar a fome, aumentar a miséria. Fácil. Simples.

Honestamente, os ilustres empresários e ministros acham mesmo, de boa fé, que o Brasil já pertence ao clube desses ricos e egoístas países do Hemisfério Norte? Que seus problemas são iguais? Que o país não tem dezenas de milhões de miseráveis, de famintos, subempregados e desempregados? O que é bom para os EUA é bom para o Brasil? Mesmo?



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