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  Há reativação, dizem empresas

Jornal Gazeta Mercantil , sábado 6 de setembro de 1975


Houve acentuada recuperação da economia brasileira no segundo trimestre do ano, e a tendência está se acentuando neste semestre, segundo os dados levantados junto às próprias empresas, pela Fundação Getúlio Vargas. A nova “Sondagem Conjuntural” – pesquisa trimestral baseada em formulários preenchidos por 1.655 empresas do setor de indústria da transformação – revela que, no primeiro trimestre do ano, a economia realmente atingiu “o fundo do fosso”, reativando-se a partir de abril. No período de janeiro a março, a demanda pelos bens produzidos por aquelas empresas cresceu para apenas 27% delas, avançando para 40% no segundo trimestre; enquanto para o terceiro trimestre, nada menos de 53% das empresas prevêem um mercado ainda mais forte, com a demanda intensificada. Inversamente, no primeiro trimestre, houve queda na demanda para os produtos de nada menos de 45% das empresas, participação que se reduziu a 22% no segundo trimestre do ano, enquanto para o terceiro trimestre apenas 8% das empresas vêem indícios de redução na demanda.

A mesma tendência à recuperação é observada em todas as demais áreas, segundo os dados da Sondagem, relativos ao primeiro e segundo trimestres, respectivamente: em relação aos estoques houve aumento para 32% e 25% das empresas, respectivamente: a produção subiu para 33 e 49% das empresas, respectivamente (para o terceiro trimestre, 53% das empresas prevêem aumento da produção, 39% acreditam em estabilidade, e apenas 8% acreditam em queda); em relação à mão-de-obra, apenas 6% das empresas acreditam que precisarão dispensar pessoal no terceiro trimestre, contra 13% no segundo trimestre, 15% no primeiro trimestre, e 18% no último trimestre de 1974. Esses dados, que refletem a evolução da economia trimestre a trimestre, se contrapõem aos resultados divulgados durante a semana, sobre o comportamento da economia durante o primeiro semestre. Como tais resultados se referiam a todo o semestre, os índices estão “puxados para baixo”, indicando modesto crescimento para a produção industrial. As dúvidas surgidas quanto ao critério técnico na elaboração e análise de determinados índices semestrais podem ser plenamente medidas com o exemplo do aço. A própria revista “Conjuntura Econômica”, da Fundação Getúlio Vargas, distribuída esta semana e que reproduz a “Sondagem Conjuntural”, faz um retrospecto do primeiro semestre do ano, onde afirma, a propósito da produção siderúrgica: “houve certo arrefecimento no crescimento da produção de aço em lingotes”, e atribui o fenômeno às importações excessivas e “à diminuição do ritmo de expansão da economia brasileira, induzida pelo crescimento menos rápido dos níveis de demanda”. No entanto, a mesma revista, em outra Seção, adota um outro critério e analisa a evolução por trimestre, alterando-se o quadro radicalmente: enquanto no semestre toda a produção de aço em lingotes cresceu de apenas 6,9%, houve um salto de 16,3% no segundo trimestre, em relação à produção do primeiro. As distorções dos dados que englobam todo o semestre podem ser ainda melhor avaliadas com a evolução da produção de ferro gusa em São Paulo, segundo dados da mesma “Conjuntura”: no semestre, houve queda de 4,3% em relação a 1974; mas houve um salto de 75% no segundo trimestre, em relação ao primeiro. Por que a diferença dos resultados entre os dois trimestres? Basicamente porque a indústria siderúrgica enfrentou problemas no suprimento de carvão, nos primeiros meses do ano, recuperando-se quando esse problema foi resolvido. A reativação da produção industrial era um dado previsível, a partir do momento em que as vendas do comércio do Rio e São Paulo acusaram aumentos reais em maio, junho e julho últimos, com avanços reais de até 15%, no Rio. Reduzidos os estoques do comércio, forçosamente as encomendas à indústria teriam que ganhar novo alento. A recuperação nas vendas sugere um aumento do poder aquisitivo do consumidor, através da nova política salarial adotada desde fins de 1974. Mesmo esse fenômeno tem sido minimizado nas análises que se baseiam nos resultados do semestre como um todo: ainda no final da última semana, a Fiesp distribuiu um balanço dos resultados do semestre. Nela, entre outras interpretações, dá a entender que o consumidor ainda continua endividado, e sem poder de compra: “Os reflexos da falta de liquidez, que afetou o sistema nos seis primeiros meses do ano, podem ser mais bem observados através do comportamento dos títulos protestados no município de São Paulo e do movimento (do Serviço) Central de Proteção ao Crédito... Quanto ao movimento do SCPC, observa-se que o número de consultas, no período considerado, apresentou retração de 13,4%, refletindo queda (SIC) nas vendas dos bens de consumo por parte durável do comércio”. Ao ignorar os dados largamente divulgados pela imprensa, os analistas da entidade empresarial deixaram de levar em conta a evolução do movimento do Serviço Central de Proteção ao Crédito; após vários meses em que o movimento de consultas foi inferior aos resultados de iguais meses em 1974, as consultas ao SCPC chegaram a 76 mil em junho último, ou 20 mil a mais que em 1974, e a 396 mil em julho, ou 30 mil a mais que em 1974. O resultado de julho é, ainda, o mais alto dos últimos 16 meses (excetuados, logicamente, os resultados dos meses de maio e dezembro).

A dúvida injustificável

Em algumas áreas, tenta-se contestar que o aumento do número de consultas ao SCPC represente uma “volta do consumidor” ao mercado, afirmando-se que ele, ao contrário, refletiria uma procura maior do crédito pessoal isto é, “papagaios bancários” e empréstimos junto às financeiras. A tese se choca de pronto, com o avanço nas vendas anunciadas oficialmente pelo comércio lojista do Rio e São Paulo. Não bastasse essa evidência, porém outros dados permitem, também, demonstrar que o movimento do SCPC está diretamente ligado ao aumento do poder aquisitivo do consumidor, e não ao seu endividamento. Efetivamente, além do número de consultas ter aumentado, cresceu fortemente nos últimos meses o número de consumidores reabilitados que estavam com seu crédito cortado, por não terem saldado compromissos anteriores, e que conseguiram colocá-los em dia. Ao mesmo tempo, o número de “novos negativos”, isto é, pessoas que atrasaram pagamentos, vem-se situando, todos os meses, abaixo dos índices de 1974.

A diferença dos trimestres

Segundo outras análises da “Conjuntura Econômica”, a recuperação da produção industrial, a partir do segundo trimestre, é claramente retratada nestes resultados, que revelam os acréscimos e produção no segundo trimestre, em relação ao primeiro trimestre, em 1974 e 1975:

- Laminados: aumento de 7,6% em 1974, e de 15% em 1975.

- Cimento: 5,8% em 1974 e 11,1% em 1973.

- Consumo industrial de energia elétrica: 5,2% em 1974 e 6,6% em1975.

- Venda de eletrodomésticos: queda de 7,6% em 1974 e elevação de 6,9% em 1975.

- Produção automobilística: aumento de 1,4% em 1974 e 8,2% em 1975.

Ao analisar os resultados da Sondagem, a Fundação Getúlio Vargas aponta as exceções (“Discrepâncias mais significativas”), isto é, os setores onde a recuperação ainda não foi detonada, parcial ou totalmente:

- Bebidas: “redução da produção (que pode ser atribuída à retração sazonal da demanda)”;

- Celulose, papel e papelão – “evolução negativa da produção, devido a uma não esperada retração na demanda”.

- Automobilística: “as empresas informantes acusaram certa insuficiência da procura (demanda) e, assim, mantiveram estáveis os níveis da produção” (no semestre).

- Produtos de matérias plásticas: “as indicações empresariais revelaram que o comportamento da produção e da procura foi preponderantemente estável”.

Para os setores de papel e papelão, e de produtos de matérias plásticas, pode-se apontar a formação de grandes estoques (especulativos ou por temor à “escassez”) como uma das causas no atraso da recuperação.

Emprego e ociosidade

Com esse quadro, segundo ainda a Fundação Getúlio Vargas, manteve-se a utilização da capacidade do setor de indústria de transformação como um todo: “Ao início de julho, esta indústria continuava operando ao nível de 87% de utilização média dos equipamentos, mesmo – frise-se – após as ampliações da capacidade instalada realizadas no período abril/junho. Os mais altos níveis de utilização da capacidade de produção foram encontrados, então, nas indústrias da borracha (95%) e química (91%), enquanto os mais baixos níveis o eram nas indústrias de produtos de matérias plásticas (74%) e mobiliário (78%).

Quanto ao nível de emprego, a Fundação aponta “alguma ampliação dos efetivos de mão-de-obra”, que, segundo a Fiesp, teria atingido 3,3% no semestre. Dados da Secretaria do Planejamento de São Paulo, por outro lado, revelam de o nível de oferta de emprego no primeiro semestre como um todo esteve abaixo dos resultados de igual período de 1974, mas já em junho, se notava a reação com o avanço de 5% sobre o mesmo mês do ano passado. Essa tendência é confirmada na “Sondagem Conjuntural”. Segundo análise da Fundação, “para o período julho/setembro, os empresários projetam ampliar seus contingentes de mão-de-obra, devendo-se assinalar que as expansões mais generalizadas estão programadas pelas indústrias de vestiário, calçados e artefatos de tecidos, borracha, têxtil, e mobiliário.

Finalmente, uma análise da evolução dos pedidos em carteira revela avanços generalizados, à exceção exatamente dos setores “problemáticos” já apontados.

A surpresa do sextor têxtil

A “Sondagem” revela o bom desempenho do setor de “bens de capitais”, resultado previsível diante da nova ênfase dada pela política econômica à produção interna de equipamentos. Mas, contrariando as previsões, houve nítida recuperação também para os setores de bens de consumo que se acreditava estarem em dificuldades. A indústria têxtil, por exemplo, acusou sensível melhora na demanda: do primeiro trimestre para o segundo ela aumentou para 20% e 57% das empresas, respectivamente; houve aumento de produção para 16% e 45% das empresas, respectivamente, com previsão de aumento para 54% das empresas, no terceiro trimestre. A contratação de novos empregados foi feita por apenas 16% das empresas, no primeiro trimestre, e por 33% no segundo, prevendo-se 37% para o terceiro; as dispensas ocorreram em 20% das empresas no primeiro trimestre, em 9% no segundo, devendo reduzir-se a 5% das empresas, no terceiro. A indústria têxtil, que tinha uma capacidade ociosa de apenas 6% em julho de 1974, viu-a elevar-se para 15% em janeiro deste ano, reduzindo-se a 11% em julho último.

Vestuários e confecções

Expansão da produção e da demanda no segundo trimestre beneficiaram o setor de vestuário, calçados e artefatos de tecidos. Apesar da produção ter-se expandido no período, diz a análise da Sondagem, registrou-se redução nos estoques, sendo seu nível considerado normal, no início de julho, pela maioria das empresas. Houve ainda um aumento da capacidade instalada do setor, e de seu contingente de mão-de-obra, tendo-se mantido elevado o grau de utilização da capacidade (87%). No início de julho, a demanda (interna e externa) se mostrava predominantemente normal, e, para alguns segmentos, forte: houve uma reversão da situação observada nas sondagens anteriores, quando o nível da demanda se situava entre normal e fraco. Nada menos de 83% das empresas previam demanda ainda mais forte para o terceiro trimestre, contra 75% já beneficiadas pela ampliação do mercado no segundo, e apenas 27% no primeiro.

Alimentos

A perda de poder aquisitivo do consumidor, durante 1974, havia trazido sérios problemas de demanda ao setor de alimentos. No primeiro trimestre, apenas 30% das empresas acusaram demanda maior, e 34% acusaram demanda menor; no segundo trimestre, houve aumento para 50% das empresas, e queda para apenas 15% (prevendo-se queda para tão somente 4% delas no terceiro trimestre). A capacidade ociosa, que chegara a 22% em outubro de 1974, reduziu-se para 15% em julho último. Há problemas específicos para alguns subsetores, como laticínios, às voltas com escassez de matéria-prima, devido à entressafra da pecuária leiteira. Também o grupo “conservas alimentícias” (exceto carne e pescado) continua a apresentar problemas de demanda em julho, embora seus estoques tivessem sido reduzidos às custas de redução no nível de produção). Para óleos e gorduras comestíveis, o quadro permanecia indefinido, com parte das empresas acusando aumento da demanda, em julho, e outras registrando redução.

Mecânica: os investimentos

Beneficiadas pelo aumento da demanda, as empresas do setor de indústria mecânica realizaram ampliação das instalações e aumentaram seu número de empregados (fenômeno ocorrido nas empresas responsáveis por 47% do faturamento do setor). O nível dos estoques fora considerado “forte” por 23% das empresas em outubro de 1974, e por apenas 15% em julho último. Houve aumento na demanda para 31% das empresas no primeiro trimestre, para 42% no segundo, e 56% acreditam nessa tendência, para o terceiro.

Dentro do setor, os produtos de máquinas motrizes não elétricas assinalaram, preponderantemente, aumento de produção no segundo trimestre, embora tenha havido também indicações de queda. O grupo equipamentos industriais para instalações hidráulicas informou desempenho melhor que no primeiro trimestre, com a produção mostrando-se estável ou em alta. Quanto à demanda, informantes responsáveis por 54% das vendas indicaram-na estável, mas, à época do inquérito, seu nível era considerado de normal a fraco.

Elétrico e comunicações

A indústria de material elétrico e de comunicações – aponta a análise da Fundação Getúlio Vargas – registrou crescimento da demanda e ampliação generalizada da produção durante o segundo trimestre de 1975. Em diversos subsetores houve aumento de mão-de-obra empregada e ampliação das instalações. Para o resultado, pesou bastante o desempenho dos grupos equipamentos para comunicações e – outra surpresa- eletrônico domésticos. Também para os fabricantes de equipamentos para produção e distribuição de energia elétrica e aparelhos elétricos para fins industriais, comerciais e técnicos, ocorreram ampliações significativas da produção embora os informantes indicassem estabilidade na procura. Em relação aos grupos de eletrodomésticos e material eletrônico, não houve evolução uniforme da produção. Contudo, a ampliação da demanda permitiu a “desova” de estoques acumulados em períodos anteriores, segundo a análise da Fundação Getúlio Vargas.

Pago o preço da estocagem

A indústria de produtos de matérias plásticas foi um dos setores mais atingidos pela formação de volumosos estoques a todos os níveis: pelos fabricantes, pelo comércio revendedor, pelos consumidores finais. Deste o terceiro trimestre de 1974, o peso dessa estocagem – motivada principalmente pelo alarmismo em torno da “escassez” de matérias-primas – fez-se sentir. Houve queda na demanda, no final de 1974, para 49% das empresas, ampliando-se este resultado para 60% no primeiro trimestre de 1975. Já no segundo trimestre, no entanto, apenas 22% das empresas acusavam queda na demanda, enquanto apenas 4% acreditavam na manutenção da tendência no terceiro trimestre. Inversamente, apenas 19% das empresas acusaram maior demanda no segundo trimestre, e 55% acreditam em recuperação no terceiro. Enquanto 26% das empresas dispensaram empregados no primeiro trimestre, apenas 1% pensa em fazê-lo, no terceiro; ao mesmo tempo, 25% das empresas pensam em fazer ampliações de pessoal, no terceiro trimestre.

Perfumaria e limpeza

No primeiro trimestre, o setor de perfumaria, sabões, detergentes, glicerinas e velas também enfrentou um quadro difícil com queda de demanda para 53% das empresas, e aumento para apenas 30% delas. No segundo trimestre, inverteu-se o quadro: 77% das empresas acusaram aumento na demanda, e apenas 2% acusaram redução. Para o terceiro trimestre, 61% das empresas esperam novo aumento da demanda, mas 17% acreditam na redução. Nada menos de 41% das empresas realizaram demissões no primeiro trimestre, contra 18% que realizaram admissões.

Material de transporte

Enquanto a venda de automóveis costuma oferecer problemas, os demais ramos da indústria de material de transporte tinham outro comportamento, bem mais favorável. Segundo a Fundação Getúlio Vargas, apesar dos estoques de carros, “importa observar, no entanto, que o grupo indústria naval aumentara o grau médio de utilização dos equipamentos, mesmo após as generalizadas ampliações realizadas no segundo trimestre. O grupo caminhões, ônibus e semelhantes indicou operar com insuficiência de estoques e praticamente estar operando à plena capacidade, enquanto o grupo veículos ferroviários permanecia impedido de expandir a produção devido à insuficiência de matérias-primas”.



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