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  O Brasil e a ameaça dos avestruzes

Jornal Folha de S.Paulo , terça-feira 4 de junho de 1996


A equipe FHC continua a demonstrar total incapacidade de avaliar as tendências da economia _e, por isso mesmo, de tomar decisões corretas.

Os meses de abril e maio deveriam ter sido a "tábua de salvação" da economia, com alguma possibilidade de dar início à reversão da recessão.

Além das tradicionais vendas do Dia das Mães, a demanda deveria ter sido impulsionada pelo aumento da renda no interior, com a dinheirama resultante da comercialização das colheitas deste ano.

A recuperação dos negócios da indústria, alimentada por esses dois fatores, poderia ter efeitos multiplicadores nos demais setores da economia, tirando-a do atoleiro.

Todas essas expectativas foram frustradas, mantendo as perspectivas sombrias para os próximos meses. A equipe FHC nada vê. Mantém o seu "otimismo".

* Estatísticas enganadas - Pode-se alegar que os dados da Fiesp mostraram um crescimento de 3,8% para a indústria paulista em abril, "interrompendo uma queda de 11 meses", conforme os jornais. Aqui, entra em cena outro pecado da equipe FHC: deixar-se embalar por estatísticas enganosas.

O INA, índice que mede o crescimento ou queda do setor, é calculado com base em vários indicadores; número de trabalhadores ocupados, horas pagas, consumo de energia elétrica e, finalmente, vendas da indústria aos atacadistas.

Pois bem: todos esses indicadores caíram, com uma única exceção: as vendas, que subiram apenas 5%, pouquíssimo para o mês que antecede o Dia das Mães.

A utilização da capacidade instalada continuou a cair, de 76,3% para 75,5%. E o consumo de energia elétrica pela indústria, na região da Eletropaulo (único dado disponível), recuou nada menos que 18%.

Para completar: até o setor de eletroeletrônicos, sobre cuja expansão se faz grande alarde, aumentou suas vendas em apenas 3% sobre março _e, agora, segundo reportagem desta Folha, enfrenta uma retração desde meados de maio.

Da mesma forma que a venda de veículos pela indústria aos revendedores caiu 6,3% sobre março _ e, mesmo assim, as revendedoras passaram a acumular 19 dias de estoques.

* Avestruzes - Indiferente a essa realidade, a equipe FHC aproveitou o final do mês para apresentar novo balanço da economia. Otimista, claro.

Segundo a Fazenda, a inadimplência está menor, o número de cheques sem fundos está caindo, as falências também, e a inflação vai ficar na casa de 1% até o final do ano "porque o preço do trigo e do milho já está recuando".

Tudo somado, a economia vai crescer 3,5% em 1996. De sobra: as exportações continuam acima do ano passado e a balança comercial vai ter saldo positivo no segundo semestre.

Sem dólares

No primeiro semestre, as exportações crescem com as embarcações de soja, a preços elevados neste ano. No segundo semestre, crescerão os gastos com a importação de trigo e milho, a preços também elevadíssimos.

Ignorância

A safra de trigo de inverno dos Estados Unidos teve redução de 12% sobre 1995. A safra de primavera também está sendo prejudicada pelo clima. O plantio está atrasado: só 46% da área até 20 de maio, contra 81% "normais".

Sem fundos

Em abril, o número de cheques fundos sem continuou na faixa de 3,9 por mil: quatro vezes o número de épocas normais (espertamente, o Ministério da Fazenda comparou esses 3,9 por mil com o resultado recorde de junho do ano passado, de 5,1 por mil. Há avestruzes manipuladores...)

Falências

O número de falências requeridas em São Paulo recuou ligeiramente em abril _mas já havia voltado a subir na primeira quinzena de maio. E as ações de despejo no Fórum paulistano chegaram a 4.400, ou mais 75% sobre abril de 1995.

Prioridade

Em março, a seca no Sul, seguida de enchentes, destruiu lavouras de feijão e milho em Santa Catarina.

O governo FHC prometeu míseros R$ 1,5 milhão para milhares de pequenos produtores comprarem sementes de milho e feijão e plantarem de novo.

Queixa do secretário de Agricultura catarinense: "até hoje não recebemos nem sequer uma parte (tostão) desse(s) recurso(s)". Reforma agrária às avessas.



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