Jornal Diário Popular , quinta-feira 10 de fevereiro de 2000
A Fiat e a Ford anunciam novas férias coletivas, de 20 dias, para seus operários. Motivo, de sempre: as vendas do setor despencaram mais 18% em janeiro, estão na faixa dos 80.000 veículos por mês, menos da metade dos 180.000 mensais vendidos há dois anos. E os estoques da indústria e revendedoras — apesar da suspensão da produção em dezembro — estão acima dos 110.000 veículos, suficientes para mais de 40 dias de vendas, no ritmo atual. Na mesma toada da crise, em janeiro o número de imóveis residenciais para alugar, vazios, sem inquilinos, subiu novamente, para 30,5 mil unidades, contra 1.700 antes do governo FHC. Quase 20 vezes mais. Para coroar, outro fato raríssimo na história do País: o consumo de gasolina caiu quase 10% no ano passado — em grande parte, é óbvio, por causa dos aumentos de preços, mas, de qualquer forma, retrato da perda de poder aquisitivo da população.
Para quem não acredita só em estatísticas, outro termômetro da recessão pode ser descoberto simplesmente andando pelas principais ruas e avenidas das cidades. Quem olhar ao redor, vai ver dezenas e dezenas de imóveis utilizados para fins comerciais, com as portas fechadas, ostentando faixas de ‘‘aluga-se’’, verdadeiro cemitério de empresas que quebraram: de lanchonetes a academias de ginástica, de escritórios de advocacia a oficinas mecânicas, de lojas de decoração a videolocadoras. Abrindo parêntesis: esse cenário desolador confirma o que a experiência mostra, isto é, em fases de grande crise, as estatísticas sobre falências e concordatas são enganosas, não mostram a realidade, porque milhares de pequenas e médias empresas simplesmente encerram suas atividades, sem sequer cancelar seu registro na Junta Comercial e Secretaria da Fazenda (porque, para ‘‘fechar’’, elas precisariam liquidar todos os débitos relativos a impostos, como o ICMS).
Enquanto a realidade mostra que a economia está afundando, lideranças empresariais chapa-branca e instituições como o IBGE insistem em divulgar estatísticas otimistas sobre o pretenso avanço da economia. A última novidade do IBGE é anunciar que o PIB (valor dos bens e serviços produzidos no País durante o ano) acabou crescendo 0,8% em 1999, graças a dois fatores: forte crescimento estatístico da indústria no último trimestre e expansão de 9% na renda dos agricultores. Acredite quem quiser. A Confederação Nacional da Agricultura faz seus próprios cálculos, e diz que, longe de crescer 9%, a renda dos agricultores caiu 0,3% no ano passado. Quanto à indústria, o próprio IBGE admite que as estatísticas de ‘‘expansão’’ do último trimestre são enganosas, porque a comparação é feita com os mesmos meses, terríveis, do final de 1998, quando a economia parou por causa da ‘‘fuga de dólares’’. Há outros detalhes, porém: quando se disseca os resultados do trimestre considerando-se mês a mês, descobre-se que dezembro voltou a acusar queda em relação a novembro, segundo a Federação das Indústrias de São Paulo. E, atenção, janeiro também voltou a recuar, na comparação com dezembro. A economia avança. Para trás.