quarta-feira 9 de maio de 1979
É preciso fazer justiça a quem semeia as tensões
Há coisa de dez dias, o ministro Murillo Macedo, do Trabalho, anunciava que o ministro Mário Henrique Simonsen (ou as correntes que ele representa, dentro do governo) finalmente havia concordado em conceder reajustes quadrimestrais aos trabalhadores, permitindo que os salários não se distanciassem tanto dos aumentos de preços feitos por todos os setores da economia brasileira. Advertia, porém, que essa nova política somente seria implantada quando os movimentos grevistas cessassem, pois o governo Figueiredo não desejava deixar a impressão de que decidia sobre pressão, o que pareceria uma demonstração de fraqueza, nessa visão de Brasília. Seria preciso, então, esperar "momento mais oportuno", conforme costuma repetir o ministro Simonsen (ou as correntes de pensamento que ele representa). Isso posto, o governo Figueiredo flexionou os músculos e resolveu demonstrar sua força — com os párias da nação. Concedeu um ridículo aumento aos trabalhadores que ganham salário mínimo e adiou os reajustes periódicos de salários, embora reconhecendo que eles trariam vantagens na área social e também na área econômica.
A semeadura. A decisão demonstra que o governo Figueiredo acredita piamente no "senso de oportunidade" do ministro Simonsen (e das correntes de pensamento que ele representa). Não deixa de intrigar esse crédito de confiança. Quem acompanhou o quadro político e econômico nos últimos cinco anos não pode fugir à constatação de que foi na área do ministro Simonsen que se acumularam todas as distorções que hoje criam dias tormentosos para a economia e a sociedade brasileiras.
Em 1974, quando as importações começaram a disparar, a própria imprensa apontava que havia algo errado no ar, mas Simonsen atribuía a saída de dólares à "crise do petróleo". No final do ano, as importações haviam dobrado, para 12 bilhões de dólares, comprovando-se que as multinacionais haviam "desovado" estoques no Brasil – e em outros países em desenvolvimento —, ante a recessão em seus mercados. Nem mesmo os anúncios publicados nos jornais por indústrias automobilísticas — como a VW do Brasil –, vendendo chapas de aço importadas ("desovadas" pela matriz), fizeram o ministro Simonsen acreditar ter chegado o "momento oportuno" para agir. Dois anos depois, com rombos imensos na balança comercial e aumento proporcional na dívida externa, Simonsen acordou. Mas não achou "oportuno" punir as multinacionais que haviam criado "corredores de importação" no Brasil: preferiu punir a sociedade brasileira como um todo, criando o depósito prévio sobre as importações, reconhecidamente alimentador da inflação.
Com os banqueiros. Não foi diferente com o mercado financeiro. Logo ao assumir, o ministro Simonsen criticava as taxas de juros do Brasil, "as mais altas do mundo", e a especulação financeira no open. Cinco anos depois, as taxas estavam ainda mais altas, a especulação financeira levara a União a acumular uma dívida interna colossal, e o ministro Simonsen continuava a recomendar "corte nos gastos do governo", como se fossem eles a origem da inflação. Nem mesmo no "pacote de abril", do governo Figueiredo, Simonsen achou ter chegado o "momento oportuno" para cobrar, dos banqueiros, a retribuição pelos anos de feliz orgia financeira. Isso, apesar de ele, com toda certeza, já dispor dos dados que o presidente do Banco Central, Carlos Brandão, liberou no último fim de semana: os bancos comerciais aumentaram seus empréstimos em 61%, de março de 1978 a março de 1979, isto é, estão totalmente fora das diretrizes traçadas para o combate à inflação.
Com os poderosos. Simonsen (ou as correntes que ele representa) nunca encontrou o momento oportuno nara punir os exportadores que inventam "exportações fantasmas" para sonegar impostos e usar crédito barato para a especulação. Ou as empresas de pesca, que pegaram dinheiro do IR e o embolsaram. Ou as reflorestadoras, idem. Como não acha "oportuno" fazer uma reforma tributária no país, para taxar os ganhos de capital.
Engana-se, porém, quem acredite que Simonsen sempre diga não. Há coisas que ele acha “oportunas”. Adiar as dívidas, todos os anos, de frigoríficos, grandes usineiros, indústria de papel, por exemplo. Ou, mais ainda: Simonsen julgou "muito oportuno" permitir que o CIP aumentasse a rentabilidade, os lucros das empresas, no último ano, embora isso significasse mais inflação — e o fez, enquanto dizia ao assalariado que "não era oportuno" ele desejar reajustes salariais que, pelo menos, cobrissem o desgaste causado pela inflação.
"Oportunamente", estão aí os balanços mostrando lucros de 60% sobre o capital — às vezes em um semestre.
Mesmo assim, Simonsen, com seu raro "senso de oportunidade", julga que as empresas não podem pagar salários maiores (e Delfim Netto, para mostrar que não mudou, que continua partidário da concentração da renda, distorção que ele construiu meticulosamente, está dizendo a mesma coisa). Que os trabalhadores devem esperar o "momento oportuno", claro.
Quem decide? Fiado ou dependente de Simonsen, e das correntes que ele representa, o governo Figueiredo reajustou o salário mínimo em 45% e adiou os reajustes periódicos. O que conseguiu com essa decisão? Mostrar à classe trabalhadora que, infelizmente, também neste governo tenta-se fechar os olhos às tensões sociais e os aumentos salariais só são obtidos mediante movimentos reivindicatórios? Achar um adversário para usar os músculos atrofiados no convívio com os grandes grupos financeiros e empresariais?
Com Simonsen, o déficit da balança comercial, a dívida externa, a dívida interna, as taxas de juros e a inflação chegaram ao seu ponto máximo. Com a mesma dedicação, ele se empenha hoje em fazer com que a tensão social também atinja seu ponto máximo.
Lula está errado. O líder dos grevistas não é ele. É o ministro do Planejamento, ou as correntes de opinião que ele representa dentro do governo. E que estão dominando o governo.