Mais um banco, o BMD, quebra. Clientes, empresas ou pessoas tentam recuperar seu dinheiro. O Banco Central foge a qualquer responsabilidade no caso e repete que não será liberado nenhum tostão acima do valor de R$ 20 mil.
Enquanto isso, ironicamente, o governo e seus acólitos repetem que o socorro aos bancos, no Japão e na Coréia, é uma repetição do Proer, o programa brasileiro – e aproveitam para repetir, também cinicamente, que foi o Proer que evitou uma grande crise no Brasil, que teria prejudicado milhões de depositores e empresas.
Ora, nada mais falso – e o caso recente do BMD mostra claramente a diferença de preocupações por parte de cada governo.
No Japão e na Coréia, empresas e pessoas não ficaram a ver navios, da noite para o dia. Lá, a administração dos bancos quebrados é entregue temporariamente a outros bancos, para que as empresas e pessoas, os clientes, não sejam prejudicados com a interrupção das atividades – e bloqueio do seu dinheiro.
Esses “bancos-pontes”, como são chamados, recebem também temporariamente recursos do governo, para cobrir eventual “corrida” de saques. E os recursos do governo não são uma “doação” aos compradores: o governo também fica com ações dos bancos em dificuldade – com a possibilidade, portanto, de participar de eventuais lucros de uma recuperação futura.
No Brasil, empresas e pessoas ficam a ver navios. O governo fica com a “parte podre”, o prejuízo, dos bancos quebrados. Os “compradores”, com os lucros. No Japão e na Coréia, tudo será transparente. Aqui, o governo recusa informações sobre os prejuízos com o Proer.
A enxurrada de importações continua, o “rombo” na balança comercial continua – contrariando as previsões dos “palpiteiros” da equipe econômica do presidente e confirmando os temores e previsões desta coluna. As oposições, em suas propostas, prevêem revisão à política de importações e, dentro dela, critérios de seletividade, isto é, produtos menos essenciais, os chamados “supérfluos”, pagariam impostos mais altos para poder entrar no país.
A proposta mereceu imediato bombardeio por parte de defensores do “escancaramento do mercado”, que invocaram exemplos do passado para argumentar. Foram vítimas, porém, de amnésia.
O ex-ministro Mailson da Nobrega, por exemplo, em artigo nesta Folha, ressuscita argumentos filosóficos para justificar a importação de todo e qualquer bem. Sofismando, lembra que “carros” podem ser supérfluos para uns e essenciais para outros e assim por diante.
Depois, lança seus ataques contra a política de importações da década de 70, que teria sido – na sua explanação – produto da mentalidade dos militares e da ditadura, controlismo estatal etc.
O ex-ministro Mailson da Nobrega somente se esqueceu de dizer que o Brasil estava quebrado, no começo da década de 70, e não tinha dólares para importar o que bem entendesse.
O próprio então ministro Mario Henrique Simonsen, que certamente não era “comunista” ou “anticapitalista”, dizia que o Brasil tinha realizado uma “industrialização com pés de barro”. Isto é: o país atraiu multinacionais que instalaram fábricas de automóveis, eletrodomésticos, tecidos sintéticos, sem ter criado, antes, usinas, fábricas que produzissem o aço, o alumínio, a borracha – ou o petróleo: era tudo importado.
Assim, quando a economia crescia, a produção de automóveis ou eletroeletrônicos crescia, disparavam também as importações de matérias-primas, peças, componentes.
Faltavam dólares. Para pagá-los, foi preciso controlar as importações, sim. Não por “estatismo”. Mas porque ninguém continuaria a vender qualquer coisa ao Brasil – sem dólares.
Falsear a história para justificar a maluquice da equipe FHC não é correto.
Também para justificar a privatização das empresas de telecomunicações, o governo usa o pretexto da “necessidade de atrair empresas multinacionais que dispõem de tecnologia moderna”.
Colunistas, também desmemoriados, fazem coro e dizem que é preciso importar tecnologia, pois tentar criá-la é como “reinventar a roda”.
No entanto esses colunistas sabem muito bem (muito, mesmo) que na década de 70 o governo, além de criar centros de tecnologia da própria Telebrás, fez uma análise das tecnologias aplicadas nos principais países desenvolvidos, escolheu os melhores processos – e convidou as multinacionais a adotá-los na produção dos equipamentos. Aqui no Brasil.
Não houve, como está havendo agora, enxurrada de importações (US$ 12 bilhões em eletrônicos, neste ano) e “torra de dólares”. Nem se comprou tecnologia ultrapassada – como o próprio ministro Mendonça de Barros disse estar havendo... E tampouco o Brasil voltou à condição de botocudo, incapaz de saber como se faz uma roda. E que por isso está condenado a importá-la eternamente. Se tiver dólares para isso. E não tem...