[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto
data
veiculo
tema
Palavra-chave
Voltar

  As mentiras dos economistas

Revista Nova , julho de 1983


A Humanidade, de tempos em tempos, engole certos “mitos” na área econômica, criados ora por governantes, ora por poderosos interesses econômicos, ora por economistas. Grossas besteiras, que não resistiram à menor análise, transformam-se em “verdades absolutas”, repetidas em todos os cantos do planeta Terra.

Foi assim com a história de que os “árabes” iriam arruinar o mundo, porque não teriam como gastar os bilhões de dólares ganhos com petróleo, após a alta de 1973. Relatórios do Fundo Monetário Internacional, do Banco Mundial, de institutos famosos de economistas se esmeraram em caprichosos cálculos sobre “as centenas de bilhões de dólares” que seriam sugadas nos dez anos seguintes pelos “reis do petróleo”, jogando o mundo na penúria.

Se não fosse a atração que os mitos exercem sobre a humanidade, essa baboseira teria sido prontamente desmascarada e atirada à lata de lixo. Era ridículo supor que “os árabes”, quais Ali-Babás modernos, iriam enterrar os dólares do petróleo em cavernas, e não aplicá-los em projetos de desenvolvimento e melhoria do nível de vida de suas populações: só o Irã, naquela época, tinha um Plano Qüinqüenal que previa investimentos industriais da ordem de US$ 35 bilhões. Contrariando as previsões dos técnicos, o que se viu, nos anos seguintes, foram “os árabes” e demais produtores de petróleo sustentando a indústria dos países ricos, e a economia mundial, com suas gigantescas encomendas de equipamentos, máquinas, peças, componentes, ou compras de bens de consumo, contratos para gigantescos planos habitacionais, construção de ferrovias, portos etc.

Outro segundo grande “mito” recente, e diretamente ligado ao problema do petróleo, foram as previsões sobre o “esgotamento” dessa fonte de energia, dentro de um determinado número de anos, meses, dias – rigorosamente calculados dentro da mania de “exatidão” dos técnicos. Ano a ano, desde 1973, essas análises reinaram, inconstantes, com imensos prejuízos a toda a humanidade – pois, se não fosse o alarmismo criado em todo o mundo, os preços do petróleo nunca teriam chegado ao nível a que chegaram, países como o Brasil não teriam se endividado como se endividaram, para pagar a conta do petróleo, e assim por diante.

Tais análises, como se procurou mostrar aqui em NOVA, há quase três anos, eram absolutamente infundadas. Seus autores se esqueciam, ou omitiam deliberadamente, que, entre outros fatores, o avanço da tecnologia em relação à busca e exploração do petróleo passou a permitir a descoberta de novos campos, com bilhões e bilhões de barris de reservas, em todos os quadrantes do globo terrestre. Reservas que, em outros tempos, exigiriam décadas para serem descobertas – por falta de instrumentos de precisão, ou de sondas para vencer determinados tipos de terrenos, ou plataformas para perfurar poços em alto-mar.

A força do mito da “escassez inevitável” foi tão grande que, quando o petróleo começou a sobrar no mundo todo, a humanidade foi colhida de surpresa. Reagiu como se tudo tivesse acontecido da noite para o dia – e não por um processo de localização de novas jazidas, conservação de energia e adoção de fontes alternativas de energia. Um processo que avançou dia a dia, semana a semana, ao longo dos anos – sem que se falasse nele. Ao contrário: continuava-se a escrever quilômetros e quilômetros de análises e estudos sobre o “próximo esgotamento” dos campos de petróleo.

Agora, essa mesma histeria mitômana vem cercando o problema dos países endividados, como o Brasil.

Fala-se em “quebradeira generalizada” de países, em “quebradeira” do sistema bancário mundial.

Repete-se que os bancos não têm dinheiro para emprestar aos países endividados, porque não receberam de volta os empréstimos anteriores, que fizeram a esses mesmos países. Mais ainda: fala-se que os bancos não têm dinheiro nem mesmo para emprestar aos países ricos, permitindo-lhes investir mais e, assim, acelerar a recuperação de sua economia. Por isso mesmo, como a recuperação mundial é lenta, os países endividados não conseguirão aumentar suas exportações, para pagar suas dívidas, e quebrarão, provocando o caos mundial.

Ora, você pode verificar que isso é baboseira, mito puro, que não resiste à menor análise. Veja bem: se os países tomaram empréstimos junto aos bancos, e formaram dívidas imensas, usaram esses empréstimos para realizar compras, importações, no mundo todo. Eles não guardaram, não esconderam esses dólares. Os dólares foram usados para pagamentos, voltaram a circular no mercado mundial, isto é, voltaram a ser entregues, lá fora, aos mesmos bancos.

O que está acontecendo de verdade, então? Simplesmente, os os banqueiros internacionais estão tirando proveito do “mito” sobre a escassez de dinheiro, perigo de “quebradeira” etc. Como assim? É só ver o caso do Brasil, para você entender.

Em primeiro lugar, repetindo que a situação do sistema bancário mundial é terrível, os banqueiros conseguem aumentar espantosamente os juros que cobram. Este ano, por exemplo, a taxa de juros “normal” para os empréstimos internacionais estava em torno de 10% ano ano, no primeiro semestre. Pois os banqueiros passaram a cobrar, nos empréstimos ao Brasil, até 50% a mais, isto é, juros extras de mais de 5%, sem falar em outras “comissões especiais”. Parece ninharia, mas você vai logo ver que, na verdade, é um mar de dinheiro. Sobre uma dívida externa de 90 bilhões de dólares, o Brasil pagaria, por ano, à taxa normal de 10%, nada menos de 9 bilhões de dólares. Com a taxa extra de 5%, são mais 4,5 bilhões de dólares – que têm de sair do povo brasileiro, aumentando a crise econômica e social do país.

Moral da história: a crise mundial não é tão feia quanto pintam. O Brasil precisa, apenas, colocar a casa em ordem, para livrar-se das imposições dos banqueiros.



Acompanhar a vida do site RSS 2.0 | Mapa do site | Administração | SPIP Esta obra está licenciada sob uma Licença CreativCommons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil