Jornal Diário Popular , quarta-feira 15 de março de 2000
A tão anunciada crise para a economia dos EUA bate à porta — e vai trazer alguns meses de perturbações para o resto do mundo, incluindo-se aí, obviamente, o Brasil. O estopim para um novo período explosivo nos mercados financeiros mundiais já está aceso, com as violentas quedas que vão ocorrendo nas Bolsas de Valores dos EUA, com perdas de 8% somente nos últimos dias para o tradicional índice Dow Jones, que reúne as cotações de 30 empresas tradicionais, e o Nasdaq, que é formado pelos preços de nada menos de 5.000 empresas ‘‘modernas’’, da área de alta tecnologia, a saber computadores, informática, Internet e biotecnologia, principalmente.
Por que o desabamento das Bolsas acaba provocando um terremoto na economia dos EUA e do mundo inteiro? Em primeiro lugar, porque os recordes de consumo e de vendas nos EUA vinham sendo sustentados pela inacreditável valorização das ações em Bolsas, nos últimos anos. Como assim? Nada menos de 60% das famílias norte-americanas possuem ações, e com a disparada nos preços desses papéis, elas se sentiam mais ricas, vendo seu patrimônio crescer e passaram a gastar a larga, não só na compra de mercadorias, como na aquisição de imóveis, reforma de casas, troca de automóveis por modelos mais luxuosos etc.
Com esse fenômeno que os economistas chamam de ‘‘efeito prosperidade’’, a economia norte-americana entrou em um círculo vicioso: quanto mais os consumidores gastavam, mais as empresas vendiam, maior a euforia na economia, e mais as Bolsas subiam. Criou-se uma ‘‘corrida’’ para o mercado de ações, com uma valorização totalmente artificial, frequentemente de 1.000%, isto é, preços multiplicados por dez, principalmente na Nasdaq — o que significava que uma família que tivesse 1.000 dólares de uma ação dessas passava a ter um patrimônio dez vezes maior, de 10.000 dólares, quem possuía 10.000 dólares passava para 100.000 dólares, e assim por diante.
Como sempre acontece nessas ‘‘corridas’’, é inútil técnicos avisarem que a alta é exagerada, e que os preços vão ter de cair, no futuro. Deslumbrados com os lucros da noite para o dia, ou com histórias de amigos que ficaram milionários, os investidores continuam a despejar mais dinheiro no mercado — e a gastar mais do que seu salário ou renda mensal permitem.
A certa altura, porém, os grandes investidores (não só pessoas, mas fundos, bancos etc.) percebem que a loucura foi longe demais, e começam a deixar o mercado, isto é, a vender suas ações. Os índices começam a balançar, com dias de alta e dias de queda — e a massa de investidores acorda para a possibilidade de prejuízos, dando início, então, a uma corrida contrária, para venda dos papéis.
As Bolsas desabam, parte das pequenas fortunas que as famílias acreditavam ter abocanhado desaparecem, da noite para o dia. A febre de consumo desaparece, reduzindo os lucros das empresas, causa de novos recuos nas Bolsas, e assim sucessivamente. Toda a economia mundial é afetada, por alguns meses. Crise mundial à vista? Há algumas novidades que podem abrandá-la, como esta coluna mostrará amanhã.