Jornal Diário Popular , sexta-feira 2 de junho de 2000
O banqueiro Alcides Tápias, transformado em ministro do Desenvolvimento, diz que o governo não vai interferir na crise das empresas de aviação brasileiras: elas que se entendam, façam acordos para repartir aviões, fundir rotas e reduzir custos etecétera. Com a declaração, o ministro quis reafirmar que o governo FHC confia totalmente na tese de que o ‘‘mercado’’ acaba resolvendo tudo, que o Estado não deve interferir pois estará favorecendo a incompetência e a ineficiência, que acabam sendo pagas por toda a sociedade — essa ladainha toda dos chamados neoliberais.
Acontece que o ministro Tápias sabe muito bem que esse amor do governo FHC pela ‘‘livre concorrência’’ é uma grande farsa. Que o governo, sistematicamente, inclusive e principalmente através dos financiamentos do BNDES, privilegia sempre os mesmos grupos, que acabam dominando o mercado, comprando os concorrentes. Foi e está sendo assim com a petroquímica, telefonia, a energia elétrica, as empreiteiras, a indústria de papel e celulose, a siderurgia, a mineração e até os supermercados — setor em que a maior rede nacional ganhou um empréstimo de R$ 300 milhões, a juros de pai para filho... Basta ver o que está acontecendo com as antigas estatais, com o BNDES financiando um compra-e-vende interminável de controles... São sempre bilhões e bilhões, despejados nas mãos dos mesmos empresários ou, nos anos mais recentes, das mesmas multinacionais francesas, espanholas, portuguesas, norte-americanas. A bravata do ministro Tápias, portanto, é no mínimo mera encenação, ainda mais inaceitável porque tem um custo altíssimo para a sociedade, e que deve crescer ainda mais se a questão não for enfrentada.
O ministro sabe, porque surgiu no noticiário dos últimos meses que, no fundo, no fundo, as empresas de aviação já estão sendo sustentadas pelo dinheiro do povo brasileiro — pois elas só sobrevivem porque não estão pagando impostos federais e estaduais, Previdência, FGTS — nem mesmo as míseras taxas para uso dos aeroportos. O povo brasileiro está pagando as conseqüências de uma situação caótica nascida de uma concorrência alucinada, com as empresas partindo para toda a sorte de loucuras, como abertura desenfreada de linhas, manutenção de vôos com aviões vazios (para não deixar a rota para concorrentes), gastos maciços com publicidade, tudo resultando em prejuízos crescentes, bancados pelo dinheiro dos impostos não pagos.
Como funcionário pago pela sociedade, o ministro tem obrigação de defender os recursos públicos. Deve coordenar a reorganização do setor, para induzir à racionalidade de operação e redução de prejuízos. Não pode esperar para ver quem vai ‘‘quebrar’’ e quem vai ‘‘sobrar’’ — pois, aí, o dinheiro dos impostos e INSS não pagos pelos falidos estará perdido. E, como sempre acontece no Brasil de FHC, é matemático que as empresas ‘‘sobreviventes’’ acabarão sendo socorridas por empréstimos do BNDES, para ‘‘se reestruturarem’’. Ou o plano do governo é exatamente esse mesmo?