Jornal Folha de S.Paulo , segunda-feira 19 de outubro de 1981
Uma luta de bastidores
Os dados sobre a evolução do desemprego, divulgados pela Fiesp, confirmam, as análises feitas há coisa de um mês neste jornal — com base em dados — mostrando que a economia já ultrapassara o "fundo do poço" e iniciava um processo de recuperação. Na primeira semana de outubro, segundo a entidade das indústrias paulistas, houve nítida desaceleração no ritmo de dispensas, com avanço de apenas 0,12% no índice de desemprego sobre a última semana de setembro. O mais importante, porém, é que em nada menos de dez setores já houve aumento no número de empregados, isto é, as empresas não apenas deixaram de demitir, como recontrataram funcionários, invertendo-se o quadro que predominava na economia desde os meses de março/abril. O impacto que esses dados poderiam ter sobre a opinião pública foi claramente esvaziado, no entanto, pelas notícias de que ainda em outubro voltarão a ocorrer "demissões em massa" na indústria. Para as lideranças sindicais, essa previsão é um autêntico "blefe", autêntica manobra para intimidar os trabalhadores de categorias que se acham em plena negociação para aumentos salariais, via dissídios anuais. Terão razão? Na verdade, a "crise da economia" tem servido de pretexto para verdadeiras guerras de bastidores, onde não falta a velha arma de desinformação, ou da informação deliberadamente pessimista, por parte dos contendores envolvidos, na tentativa de conquistar seus alvos.
Política salarial: o ministro Delfim Neto e seus assessores têm invocado a "crise na economia" para tentar impor mudanças na política salarial, e "torpedear" o aumento do salário mínimo — em confronto com o ministro do Trabalho, Murilo Macedo. Nessa guerra, a Seplan tem contado com o apoio de entidades empresariais — e, para ambos, a recuperação da economia neste momento, antes que a política salarial tenha sido mudada, é indesejável, já que enfraquece seus argumentos. Desemprego: nesta área, o ministro Delfim Neto e seus assessores continuam a argumentar que o fenômeno é transitório, localizado e sem as dimensões trágicas anunciadas pelas entidades empresariais. Ponderam que o índice de desemprego apurado pelo IBGE está apenas 2 a 3 pontos percentuais acima dos níveis de 1981, o que, embora signifique milhares de trabalhadores desempregados, é um custo até aceitável para os reajustes que a economia, brasileira tinha mesmo que sofrer, por causa dos problemas da divida externa. O ministro Murilo Macedo discorda, e pede um programa de emergência para reempregar 250 mil trabalhadores nas regiões metropolitanas do Rio, São Paulo e Belo Horizonte. A Seplan adia uma resposta sobre a proposta.
REATIVAÇÃO DA ECONOMIA – Tanto a batalha em torno da política salarial como do desemprego têm servido também de despistamento tático, por parte das entidades empresariais, sobretudo de São Paulo, na batalha final — pela reativação da economia. Afirmando que o "desaquecimento" gerará mais desemprego, ou afirmando que o "desaquecimento" impede as empresas de pagarem melhores salários, as entidades empresariais predispõem a sociedade a rejeitar a política de austeridade, angariando adeptos para uma "volta ao crescimento" — sem meditar nas suas conseqüências sobre a dívida externa. Aqui, o quadro da contenda se complica. O ministro Delfim Neto, como se recorda, somente colocou freios na economia para atender aos credores internacionais. A melhora na balança comercial, segundo o noticiário dos últimos dias, já teria levado o ocupante da Seplan e seus assessores a desejarem "afrouxar" o aperto sobre a economia — possivelmente porque a política de austeridade não favorece os planos políticos do ministro. Também segundo o noticiário dos últimos dias, essa nova mudança de rumos na economia tem, a esta altura, novos opositores, em Brasília: o ministro Ernane Galvêas e o presidente do Banco Central, Carlos Langoni. Este último, em entrevista ontem publicada pela Gazeta Mercantil lembra o perigo de medidas para reativar a economia, neste momento, pois tudo indica já estar havendo recuperação. A "ajuda extra" provocaria, então, novo "super-aquecimento", recaindo-se nos problemas a escalada da inflação e do endividamento externo que exigiriam novos freios ainda no próximo ano. Por mais decepcionantes que seja, a verdade é que Langoni tem razão: a experiência mundial mostra que freqüentemente se altera a política econômica no momento errado, reforçando-se indesejavelmente tendências já latentes. Por paradoxal que nossa parecer, as notícias sobre a tendência de recuperação da economia, assim, contrariam os planos de mudança na política salarial e de estímulos à indústria (paulista, sobretudo), acalentados pelo ministro Delfim Neto e entidades empresariais. Da mesma forma que o plano de emergência para o reemprego enfraqueceria essas pretensões (ao reduzir os protestos contra o desemprego) — e, inegavelmente, fortaleceria a imagem do ministro Murilo Macedo, aspirante no futuro, ao que se diz, aos mesmos cargos políticos que o ministro Delfim Neto deseja. Também paradoxalmente, o esboço de reação no nível de emprego pode trabalhar contra o "plano de emergência" do ministro do Trabalho, que por isso mesmo tem pressa na sua aprovação, antes que ele, eventualmente, se revele desnecessário. E as novas "demissões em massa" anunciadas? Já se tem dito, aqui, que a opinião pública costuma impressionar-se com notícias isoladas, quando o que tem importância, realmente, é a tendência geral da economia. A queda nos negócios, este ano, não atingiu todos os setores, ao mesmo tempo. Em alguns, atingidos "mais tarde" pelos problemas, as empresas poderão voltar a demitir. O importante é que os demais setores tenham ultrapassado o "fundo do fosso" — e ampliem suas vagas, como já ocorreu com dez deles, na primeira semana de outubro. O resto é “guerra de interesses”.