Jornal Folha de S.Paulo , sábado 10 de abril de 1999
Muita euforia, muito otimismo. Pequenos fatos positivos, no dia-a-dia, fazem os analistas deixarem de lado as perspectivas do país nestes próximos meses. Quais são elas?
“Rombo de dólares” - Na sexta-feira retrasada, dia 2 de abril, um diretor do Banco Central deu longa entrevista ao jornal Gazeta Mercantil. Bem lá no finzinho do texto, uma “pequena” revelação: as amortizações da dívida externa, este ano, serão de US$ 35 bilhões, e não de US$ 25 bilhões, como o governo vinha dizendo desde o acordo com o FMI. Um “pequeno erro”, claro, já que este governo não é dado a manipulações de estatísticas. O fato concreto: os analistas podem refazer suas contas. O Banco Central confessa, oficialmente, que o “rombo” é US$ 10 (dez) bilhões maior. A célebre "parcela" de US$ 9 bilhões do FMI e países ricos já se evaporou.
Balança comercial - Para recuperar realmente a confiança dos banqueiros e investidores internacionais, o Brasil precisa de um saldo positivo na balança comercial (isto é, exportações menos importações). Afirmava-se que, com a desvalorização, as importações despencariam e as exportações dariam pinotes. As exportações voltaram a cair em março. E não foi apenas por causa dos baixos preços dos produtos agrícolas, que continuam a despencar, no mercado mundial. A venda de automóveis ficou quase 50% abaixo dos níveis do ano passado. Um resultado negativo que vem desde outubro e mereceria uma investigação por parte do Congresso: afinal, a indústria automobilística tem perdão de impostos para importar, sob a condição de que exporte determinados volumes. Não está honrando os compromissos. A queda nas vendas de produtos industrializados confirma a aberração apontada por esta coluna: quando um país passa a depender de empresas multinacionais, quem manda é a matriz. Que, obviamente, dá preferência a seu próprio país.
Importações - Manchete otimista: “Recuo firme e generalizado (sic) nas importações”. Tudo azul, dentro das previsões, no texto da reportagem. Mas uma análise da tabela publicada junto com o texto mostra algo muito, muito diferente. As importações do setor de telecomunicações cairiam, em janeiro e fevereiro, apenas US$ 200 milhões, de US$ 900 milhões para US$ 700 milhões. Confirma-se que as multinacionais são “corredores de importação”. Compram de suas matrizes. Criam empregos em seus países. E torram os dólares do Brasil.
Manipulação - Outro dado, da mesma tabela: a maior queda foi para as importações... de petróleo. De US$ 1 bilhão para US$ 500 milhões no bimestre. Esse, o único recuo marcante, que ajudou a fazer de conta que as importações como um todo caíram. Ora, o Brasil jamais poderia ter cortado em 50% suas compras de petróleo lá fora. Manipulação pura e simples, com ajuda ou não da Petrobrás. Nos próximos meses, a importação verdadeira vai aparecer nas estatísticas. Mais “rombo” em dólares...
Petróleo, complicador - Após cair para até o nível de US$ 10, os preços do barril de petróleo passaram a subir a partir de janeiro/fevereiro e dispararam em março, graças a um acordo para cortar a produção, fechado entre os países da Opep. Essa alta de 60% para os preços do petróleo – agora a US$ 16 o barril – é o fato mais importante da economia mundial em 1999. De um lado, vai provocar a rápida recuperação da economia da Rússia, além de países latinos como a Venezuela, o Equador e o México. De outro, vai aumentar violentamente os problemas dos EUA e causar fortes abalos na posição do dólar como moeda mundial.
Os EUA já vêm tendo saldos negativos recordes na balança comercial (exportações menos importações), com um déficit de quase US$ 170 bilhões, em 12 meses, até fevereiro. Apesar de terem sido beneficiados, nos últimos dois anos, pela queda dos preços do petróleo, que ele importa maciçamente. Com os preços 50% ou 60% mais caros, o “rombo comercial” norte-americano vai explodir. E tem mais: como praticamente toda a energia elétrica nos EUA é gerada em usinas movidas a derivados de petróleo, seus preços subirão – aumentando também os custos das mercadorias norte-americanas em geral. Menor poder de concorrência nos mercados externos. Mais rombo. E mais inflação nos EUA.
Para o Brasil - A alta dos preços do petróleo atingirá o Brasil duplamente: vai agravar as dificuldades para obter um saldo positivo na balança comercial e inevitavelmente causar uma parcela de inflação – aumentando o descontentamento da sociedade. O país importa uns 500 mil barris por dia; US$ 6 a mais, por barril, são uns US$ 100 milhões no final do mês ou um “rombo extra” de US$ 1,2 bilhão na balança comercial, no ano. Quanto à inflação: o governo será forçado a aumentar os preços da gasolina e outros derivados. Por quê? A equipe FHC garfou a Petrobrás em outubro do ano passado e passou a desviar, para o Tesouro, o “lucro extra” que a queda das cotações internacionais do petróleo proporcionava na venda daqueles combustíveis aqui dentro. Uns R$ 600 milhões, por mês, ou R$ 7,2 bilhões no ano. O governo incluiu esse “ganho” nas contas que fez com o FMI para reduzir o “rombo” do Tesouro. E assumiu o compromisso de aumentar preços, para manter um ganho igual, caso os preços do petróleo subissem. São R$ 7,2 bilhões de “rombo extra” no ajuste fiscal. Mais aperto.
O Brasil continua contra a parede. Encena-se um clima otimista para tentar convencer a sociedade de que é possível sair da crise sem romper com o FMI.