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  Quem esperava pela queda do cruzeiro

Revista Isto É , quarta-feira 26 de dezembro de 1979


Os lucros de bilhões não eram previsíveis?

Politica econômica é, muitas vezes, como um gigantesco "quebra-cabeças", ou uma investigação policial. Às vezes, tem-se a certeza de que houve um jogo de cartas marcadas, houve jogadas de bilhões de cruzeiros, mas faltam as provas. Tudo o que se pode fazer, então, é juntar pistas, indícios, que, no caso, são o próprio noticiário da imprensa nas semanas ou nos meses que precederam a grande cartada: toma-se aqui uma decisão oficial, ali a indiscrição de um banqueiro, acolá a revelação de um empresário. E o crime surge claro, claríssimo. É o caso do "pacote econômico", ou melhor ainda, do "pacote econômico" que nunca existiu, como se mostrou aqui nesta coluna (ISTOÉ 15/12/79) sendo mera encenação para desviar a atenção da opinião pública do que realmente era importante: a maxidesvalorização do cruzeiro e as mudanças na Resolução 432, a chamada "caderneta de poupança das multinacionais", embora, na verdade, ela fosse o instrumento de especulação também para grandes empresas nacionais, grandes empresários, bancos, o mercado financeiro e companhia.

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Já se mostrou, aqui, que as mudanças nessa área custaram mais de meio trilhão de cruzeiros novos ao país, ao povo brasileiro. Quem ganhou com isso? O problema não é, como muita gente está pensando, apenas de vazamento de informações, isto é, de empresas e instituições financeiras que sabiam, dois ou três dias antes, que o cruzeiro seria violentamente desvalorizado. O problema é muito mais amplo, de conivência com lucros fabulosos. Veja-se, antes de mais nada, o caso da Resolução 432, sobre a qual, há algumas semanas, se escreveu aqui, sob o título O Brasil sob chantagem internacional.

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A Resolução 432 permitia que bancos estrangeiros e nacionais, multinacionais e grandes empresas trouxessem dólares para dentro do Brasil, não para aplicar em novas fábricas, projetos agrícolas, investimentos, mas apenas para ganhar juros. Os dólares ficavam depositados no Banco Central, rendendo juros e correção cambial, que o Banco Central, isto é, o país pagava. Havia mais, ainda: esses dólares poderiam ser retirados a cada trinta dias, e novamente depositados, e novamente sacados, indefinidamente. Com isso, o que vinha ocorrendo é que, cada vez que se aproximava uma desvalorização do cruzeiro, os "donos" dos dólares os depositavam no BC, pois, com a desvalorização, iriam retirar mais cruzeiros no saque seguinte — e usavam esses cruzeiros para especular no open, no mercado financeiro, até aproximar-se nova desvalorização.

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Foi assim, até que surgiram as informações, nos bastidores, sobre a maxidesvalorização. Aí — e esse é um indício de que houve um crime premeditado contra a economia do país em proveito de grandes grupos —, aconteceu uma coisa pior ainda: as grandes empresas, os bancos começaram a depositar bilhões e bilhões de cruzeiros no Banco Central, afirmando que esses bilhões correspondiam aos empréstimos em dólares que eles haviam trazido para dentro do país. Mais claramente: uma empresa tinha um empréstimo de 50 milhões de dólares registrado no Banco Central, feito, por exemplo, há um ano atrás. Na época, o Banco Central trocara os dólares por cruzeiros e entregara à empresa para aplicação dentro do país. Desde que se soube que ia haver uma maxidesvalorização no país, essa empresa ia ao Banco Central e dizia que já não estava usando o empréstimo e queria depositá-lo de novo no BC, dentro da 432. Como isso era feito? A empresa tomava emprestados os cruzeiros equivalentes aos 50 milhões de dólares e os entregava ao BC.

A pista de que se sabia da maxidesvalorização está aí mesmo: em agosto, os depósitos da 432 não iam além dos 2,7 bilhões de dólares. Quando veio a desvalorização, eles já chegavam a 6 ou 8 bilhões de dólares. Suponha-se que fossem 6 bilhões de dólares: com o dólar a 32 cruzeiros, correspondiam a 192 bilhões de cruzeiros. Com os 30% da desvalorização, passaram a valer mais 57 bilhões de cruzeiro, que o país vai pagar, por intermédio do Banco Central.

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A maxidesvalorização foi, assim, o negócio do século, no país. Jornalistas econômicos de Brasília — alvíssaras — intuíram isso e estão pedindo ao Banco Central uma relação de empresas e bancos que tinham depósitos no BC, pela 432, tentanto identificar o "vazamento". O deputado Hélio Duque — alvíssaras — tomou idêntica iniciativa, à cata de pistas que comprovem o "vazamento". Mas há uma pista que deveria ser solicitada e não foi até agora: a relação de empresas que tinham empréstimos externos e, a partir de julho/agosto, conseguiram cancelar esses empréstimos, "trocando-os" por empréstimos aqui dentro mesmo (isto é, conseguiram que bancos nacionais lhes emprestassem alguns bilhões de cruzeiros, para que elas "comprassem dólares" e liqüidassem os empréstimos externos). Essa relação vai ser outra demonstração, outra pista de que muita gente sabia da maxidesvalorização. E mais ainda: era impossível às empresas conseguirem, da noite para o dia, empréstimos em cruzeiro de bilhões e bilhões para liquidar os empréstimos em dólar e assim fugir aos prejuízos da maxidesvalorização, que estava a caminho. Com toda a certeza, essas "trocas" exigiram a intercessão de escalões poderosos.

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Seria muito útil, em um trabalho de investigação parlamentar ou outro qualquer, munir-se de uma coleção do jornal Gazeta Mercantil de outubro para cá e ir pacientemente "peneirando" as declarações de empresários, banqueiros, autoridades. Nessa peneirada vai-se ver que faltava crédito para centenas de milhares de empresas (os próprios banqueiros declaravam não ter dinheiro para emprestar). Por quê? Porque dezenas de bilhões de cruzeiros estavam sendo emprestados ou simplesmente desviados para os depósitos do Banco Central A espera da maxidesvalorização. Que veio.



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