Pois não é que, de uma hora para outra, o FMI resolveu ser muito, muito bonzinho com o Brasil? Pois é, no acordo renegociado com o governo FHC, o Fundo fez duas concessões caridosas. Primeira: abriu uma exceção excepcional, nunca vista antes na história, e permitiu que o “rombo” do Tesouro (na verdade, de todo o setor público) deixe de lado os gastos astronômicos com juros. Ou mais claramente: agora, a “meta”, ou limite máximo de déficit (receitas menos despesas) que o Brasil precisará atingir, não vai mais incluir os gastos com juros.
Por que o FMI fez isso? Porque os gastos com juros passaram de R$ 44 bilhões em 1997 para R$ 72 bilhões em 1998 e, conforme reportagem do jornalista Gustavo Patú publicada ontem nesta Folha, atingirão neste ano de 1999 a simplesmente inacreditável cifra de R$ 130 bilhões ou quatro vezes o “ajuste fiscal” feito pelo governo. Uma fábula fabulosa.
A outra bondade feita pelo FMI é até engraçada e tem o mesmo motivo cristão como inspiração. No acordo feito no final do ano, o FMI já previa que o Brasil iria conseguir exportar mais e importar menos, conseguindo assim um saldo positivo na chamada balança comercial (exportações menos importações) de US$ 6 bilhões. Já era difícil atingir esse resultado, pois, nos últimos anos, com o “escancaramento” às importações, o Brasil vinha enfrentando “rombos”, saldos negativos na balança comercial, como o buraco de US$ 6,5 bilhões em 1998.
Pois nesse novo acordo o FMI simplesmente “chutou” um saldo positivo de US$ 11 bilhões na balança comercial ou o dobro da previsão anterior.
Por que esse “chute”? É um jogo de faz-de-conta. O FMI inventou esse saldo na balança comercial para ele falsamente, falsamente reduzir o “rombo” nas demais contas do Brasil em suas operações com o exterior, no chamado balanço de contas correntes (que inclui, além do comércio, o pagamento de juros, remessas de lucros, fretes, turismo etc).
Mais objetivamente: o FMI sabe que o “rombo” do balanço de contas correntes também vai explodir, já explodiu, por causa até da sangria dos juros, em dólar. Inventou, então, o saldo comercial – que não é meta, isto é, não precisa ser respeitado –, para “ajeitar” as contas.
A bondade do FMI não é gratuita. O Brasil está sendo vítima de uma das maiores chantagens internacionais já vistas, para “entregar”, a preço de banana, o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal, as últimas empresas energéticas – e, obviamente, o petróleo. A preço de banana.
Por que o FMI permitiu o cálculo do “rombo” sem incluir os juros? Porque o Brasil obviamente não conseguiria cumprir a meta, desde este começo de ano. Aí, o Fundo seria obrigado a suspender a liberação das parcelas do empréstimo previstas no acordo. Aí, o dólar dispararia, o real explodiria, isto é, o governo FHC seria obrigado a pedir “moratória”. Ou concretamente: a crise atingiria tais proporções que toda a sociedade se mobilizaria, o Congresso seria forçado a debater outros caminhos para o país, isto é, toda a política econômica seria questionada – e as “privatizações”, a entrega de patrimônio nacional a preço de banana, também seriam colocadas em xeque.
Então está explicada a “bondade” do FMI: ele quer evitar o debate nacional, a revisão da política econômica dos últimos anos – por enquanto. Isto é, o FMI quer apenas adiar a explosão, para forçar o Brasil, nesse meio tempo, a desnacionalizar ainda mais sua economia.
Não se trata de uma explicação fantasiosa. Ainda na última terça-feira, o diretor-gerente do FMI, Michel Camdessus, anunciou, lá fora, que o Brasil vai privatizar o Banco do Brasil e a Caixa. Sua revelação, ao desmentir as negativas do presidente Fernando Henrique Cardoso, indicou a existência de “acordos secretos” do governo com o FMI e credores internacionais, que cabe ao Congresso investigar.
Por que o FMI cometeu essa indiscrição, mesmo sob o risco de desmoralizar o presidente da República? Porque Camdessus estava dando explicações a banqueiros internacionais e representantes dos governos dos países ricos. Precisava justificar a razão das “bondades” oferecidas. Estava dizendo: “Esperem um pouco. Vamos acabar de depenar o Brasil. Depois, a gente deixa ele quebrar, quando as nossas empresas e bancos já tiverem engolido todos os filés de sua economia”.
Desgoverno 1 - Nos jornais, mais um exemplo de como as multinacionais puderam montar “corredores de importação”, trazendo peças e componentes dos países ricos, sedes das matrizes. A Xerox revela que, antes do governo FHC, utilizava 70% de peças produzidas no Brasil. Agora, importa 87%. Compra 13% no Brasil.
Desgoverno 2 – Com a desvalorização do real, o governo previu queda nas importações, por causa do encarecimento dos produtos estrangeiros. Agora, o mesmo governo resolve reduzir impostos e oferecer facilidades de crédito para as indústrias importarem. Para as Xerox, as Nokias (telefones celulares com 100% de peças importadas), as empresas químicas, as farmacêuticas, todas, enfim, importarem, continuarem a torrar dólares. E a manterem altos níveis de produção, emprego, renda, consumo, arrecadação. Em seus países.