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  Estrangulamento econômico, produto da sofisticação

Jornal Gazeta Mercantil , sábado 12 de abril de 1975


A sofisticação introduzida na análise dos problemas econômicos no Brasil nos últimos anos foi meramente formal. Difundiu-se o emprego de expressões pomposas que escondem o óbvio e, por isso mesmo, tornam difícil que esse óbvio seja apreendido. Nela, o singelo não vale, e apela-se para os recursos verbais a um nível esdrúxulo, chegando-se a trocar a palavra “nível” (de preços, de produção, de vendas) por “patamar” ou a usar e abusar de expressões vazias como “leque de opções”. Neste momento, usando dessa sofisticação, mas com objetivos menos explícitos, surge, argumento “hermético” contra a política “distributivista” que o país decidiu adotar como forma de elevar o nível de renda de amplas faixas da população para formar um mercado interno de massas. Sem ele, no entanto, estará comprometido não o futuro, mas o próprio presente das empresas industriais e, portanto, da economia.

AS TENTATIVAS FRUSTRADAS

Houve cargas esparsas contra essa política, quando o governo introduziu alterações na fórmula de cálculos dos reajustes salariais, no terceiro trimestre de 1974. As investidas não chegaram a comover as classes empresariais, pois, na época, os problemas de economia brasileira ainda não tinham sido avaliados em toda a sua extensão. As preocupações dominantes na época eram três: a falta de dinheiro, a inflação mundial e a “desova” dos estoques. Acreditava-se que, minimizando esses três problemas, a economia retomaria seu leito normal. Altas taxas de crescimento permitiriam a absorção tranqüila das novas faixas salariais, que, no curto prazo, permitiriam ainda contornar os problemas de vendas de alguns setores.

Agora, o otimismo é menos freqüente, nos meios empresariais, diante da constatação de que o problema das empresas industriais não é, apenas, de “escoar” estoques, mas de encontrar mercado suficiente para manter em funcionamento as suas linhas de produção, excessivamente ampliadas na base do “boom”, tanto no Brasil como no restante do mundo.

O CLIMA IDEAL

Ainda com dificuldades para apreender plenamente o novo quadro, os empresários são, no momento, alvo do bombardeio de argumentos sofisticados contra a política “distributivista” (sempre classificada de “prematura”). As baterias, semicamufladas, aparentemente foram postas em ação por um motivo tático: a proximidade do reajuste dos salários mínimos, que torna o empresário psicologicamente aberto – principalmente diante do quadro econômico atual – a críticas nesse sentido. Além de temores vagos, mas contagiosos, os críticos disseminam teses sofisticadas: ressuscitam-se até sofismas, como a afirmação de que aumentos “excessivos” para o salário mínimo teriam um efeito extremamente negativo sobre o trabalhador. Salários mínimos altos, tem-se a “sofisticação” de dizer, desestimulam o trabalhador a aprimorar-se, a qualificar-se, a ascender profissionalmente. Essa política prejudicaria não apenas o trabalhador, mas o próprio desenvolvimento econômico do país, pois desestimularia a formação de mão-de-obra qualificada. Os dados sobre desemprego e subemprego no país revelam que tal opção não existe. A tese não tem apoio na realidade.

A VEZ DO SINGELO

Por ignorar a realidade, essa “sofisticação” é uma ameaça para o futuro das empresas e da economia. Ela impede a visão clara dos problemas reais do atual momento brasileiro. Ou do problema básico: a falta de mercado, a falta de oportunidade para investimentos (a não ser nos setores básico, no estágio atual), o estrangulamento do crescimento econômico.

Ainda esta semana, surgiu uma pequena notícia na imprensa: sobra leite na região da Grande Recife. A área, com dois milhões de habitantes, absorvia apenas 100 mil litros de leite por dia. Bastou a produção crescer ligeiramente, para surgirem “excedentes”. Como nos últimos meses, tem havido “excedentes” do mesmo leite, e de laranja, tomate, batata, ovos, frangos, sardinha e até farinha de mandioca e feijão – que a Comissão de Financiamento da Produção teve que comprar e estocar – não no Nordeste de baixa renda “per capita”, mas na rica região Centro-Sul, em São Paulo e no Paraná. Por que a “sofisticação” não cuida do óbvio O leite que “sobra” não é um problema apenas do pecuarista, assim como a miséria não é apenas um problema social.

PREJUIZOS EM CADEIA

A sofisticação se recusa a mostrar que a expansão do mercado interno permitiria que as empresas do país, em lugar de crises cíclicas, viessem a entrar em um ritmo de crescimento seguro e acelerado. O leite que “sobra” é uma aberração econômica: o país está investindo alguns trilhões de cruzeiros velhos na pecuária leiteira, e, no entanto, não há “mercado” para absorver a produção. Quem perde Não só o pecuarista. Para o país, surgem prejuízos em cadeia, retardadores do crescimento econômico, no simples leite ou batata que se perdem: o produtor fica sem renda, a produção se desorganiza, o interior se empobrece, cai o consumo de bens industrializados, o país perde os investimentos realizados no setor, perdem-se as divisas gastas com fertilizantes, defensivos, vacinas, máquinas e a coletividade perde os investimentos realizados no setor e que roubaram recursos necessários em outras áreas, e que por sua vez também gerariam emprego, renda, consumo ou poupariam divisas. Crescimento econômico, enfim.

Usou-se o exemplo dos “excedentes” agrícolas, ou do leite de Recife, especificamente, por singeleza de raciocínio. Mas as perdas de investimentos, na indústria, por fábricas que se fecham, ou no comércio e serviços, são empresas que “quebram”; têm o mesmo efeito multiplicador que a “sofisticação” tenta ignorar, e tenta fazer com que as empresas esqueçam. Sofismas e sofisticação não mantêm fábricas em funcionamento. A ampliação do mercado interno, via distribuição da renda, pode desempenhar esse papel.



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